O ar parecia mais pesado ali.
Elisa sentia cada batida do coração enquanto esperava. João estava inquieto em seus braços, talvez sentindo a tensão da mãe. Ela o balançava devagar, tentando se manter calma.
Um dos homens abriu espaço.
— Pode entrar, dona Rosa.
Rosa segurou a mão de Elisa com leveza e a puxou junto. Elas caminharam alguns passos até uma área coberta, mais afastada do movimento. Foi então que Elisa o viu.
Henrique.
O Lobão.
Ele estava encostado em uma mesa de madeira, conversando com dois homens. Sem camisa. O corpo forte coberto por tatuagens que subiam pelo peito e desciam pelos braços. A pele morena marcada, o abdômen definido. Uma corrente grossa pendia do pescoço.
Na cintura, uma arma cromada brilhava sob a luz do dia.
O conjunto era… intimidante.
Assustador.
Ele ergueu o olhar lentamente quando percebeu a presença delas. Os olhos escuros pararam primeiro em Rosa, depois deslizaram para Elisa.
E ficaram ali.
Avaliaram.
Silenciosos.
Elisa sentiu as pernas enfraquecerem. Nunca tinha sido observada daquele jeito. Não era apenas um olhar de homem para mulher. Era como se ele estivesse lendo tudo — medo, insegurança, história.
João puxou a blusa dela e murmurou algo.
O som pareceu quebrar a tensão.
Rosa sorriu.
— Lobão, essa é minha sobrinha. A Elisa. Chegou ontem, te falei.
Ele assentiu devagar, ainda olhando para Elisa.
— Sei.
A voz era grave, calma, firme.
— Bom dia… — Elisa disse, quase em um sussurro.
Ele não respondeu de imediato. Apenas se aproximou um passo. Elisa percebeu a altura dele, a presença forte, o cheiro leve de cigarro misturado com algo amadeirado.
Então, os olhos dele desceram.
Para João.
Algo mudou.
O olhar duro suavizou quase imperceptivelmente.
— Filho? — perguntou.
— É… — Elisa respondeu. — João.
Henrique levou a mão até o bolso da bermuda e tirou um pirulito colorido. Estendeu para o menino.
— Toma aí, campeão.
Elisa ficou surpresa. João olhou curioso, depois pegou o pirulito com a mão pequena.
— Obigado… — disse do jeito infantil.
Um canto da boca de Henrique se levantou.
— Educado.
Rosa riu.
— Falei que era tranquilo.
Henrique voltou a olhar para Elisa.
— Vai ficar na casa da Rosa?
— Vou… — ela respondeu.
— Trabalha com quê?
— Sou manicure.
Ele assentiu novamente.
— Bom. Aqui tem bastante cliente.
Elisa não sabia o que dizer. O nervosismo ainda tomava conta dela. A arma na cintura dele parecia grande demais. As tatuagens. O ambiente. Tudo era intenso.
Henrique percebeu.
— Fica tranquila. — disse com naturalidade. — Ninguém mexe contigo aqui.
As palavras foram simples, mas carregadas de peso.
Proteção.
Elisa sentiu algo estranho no peito. Um alívio misturado com medo.
— Obrigada… — murmurou.
Ele deu um último olhar para João, que tentava abrir o pirulito.
— Qualquer coisa, fala com a Rosa.
Depois se afastou, voltando a falar com os homens.
Rosa tocou o braço de Elisa.
— Viu? Falei que era tranquilo.
Mas Elisa ainda estava parada, tentando entender a sensação que aquele homem havia causado.
Assustador.
E, ao mesmo tempo… estranho.
Enquanto saíam, ela teve certeza de uma coisa:
Henrique "Lobão" não era alguém fácil de ignorar.