O sol ainda nem tinha aparecido completamente quando Elisa abriu os olhos. Por um instante, ela não reconheceu o lugar. O teto simples, as paredes sem pintura e o barulho distante de vozes e música baixa eram tão diferentes de tudo que ela conhecia… até que a memória voltou como um soco.
Ela estava no morro.
Tinha fugido.
Estava sozinha… com um bebê.
O pequeno se mexeu em seus braços, soltando um resmungo sonolento. Elisa o apertou contra o peito, sentindo o coração bater rápido demais. Ela se levantou devagar, com medo até de fazer barulho. Foi até a janela e afastou a cortina.
Casas amontoadas, becos estreitos, gente já acordada. Alguns homens conversavam na esquina. Um deles carregava algo que ela reconheceu na mesma hora.
Uma arma.
Ela recuou imediatamente, o estômago embrulhando.
Foi então que o som veio.
Seco. Distante.
Um estampido.
Depois outro.
Elisa congelou. O bebê acordou e começou a chorar, assustado com a tensão da mãe. Ela o balançou, tentando acalmá-lo, mas suas próprias mãos tremiam.
— Calma… calma, meu amor… — sussurrou, mesmo sem acreditar nas próprias palavras.
A porta foi aberta sem bater. Elisa virou rapidamente, o coração disparando.
Era ele.
Henrique… o Lobão.
Ele entrou como se aquele ambiente fosse extensão natural do próprio corpo. Camiseta preta colada aos músculos, cabeça raspada, expressão séria e olhos atentos. Parou ao ver o bebê chorando e Elisa pálida.
— Foi só lá embaixo — disse ele, com voz calma, como se falasse sobre chuva. — Não precisa se assustar.
Ela engoliu seco.
— Só… só tiros… assim… normal?
— Aqui, às vezes é — respondeu, direto.
Ele se aproximou mais alguns passos. Elisa percebeu o cheiro leve de perfume misturado com algo mais bruto, masculino. Lobão observou o bebê, que ainda choramingava.
— Ele comeu?
— Ainda não… eu… eu nem sei onde…
Lobão virou o rosto e chamou alguém da porta.
— Ô, Jota.
Um rapaz apareceu quase imediatamente.
— Traz café, pão… e vê se tem fralda e leite lá embaixo. Agora.
— Já é, chefe.
O rapaz saiu correndo. Elisa piscou, surpresa com a rapidez.
— Não precisava… — ela murmurou.
— Precisa sim. Você não conhece nada aqui.
O silêncio caiu entre eles. Elisa apertou o bebê contra o peito. Lobão observava tudo, atento, como se analisasse cada detalhe.
— Você vai ter que aprender algumas coisas — disse ele. — Aqui tem regra.
Ela assentiu, nervosa.
— Não sair sozinha. Não responder ninguém. Qualquer coisa estranha, manda chamar por mim.
— Por você?
— Por mim.
A forma como ele disse não deixou espaço para dúvidas. Era uma ordem.
O bebê finalmente começou a se acalmar. Elisa respirou mais fundo, mas ainda estava tensa.
— Obrigada… — disse, quase sem voz.
Lobão não respondeu de imediato. Seus olhos passaram pelo rosto dela, pelos cabelos claros bagunçados, pela expressão cansada. Algo em sua postura mudou por um segundo, quase imperceptível.
Mas então passos apressados ecoaram do lado de fora. Um homem apareceu na porta, ofegante.
— Chefe…
Lobão virou o rosto imediatamente.
— Fala.
— Tem um cara lá embaixo… perguntando… — ele hesitou — …por uma loira com um bebê.
O corpo de Elisa gelou na mesma hora.
Lobão ficou imóvel. Seus olhos escureceram.
— Quem é ele?
— Não conheço. Tá rodando e perguntando pra geral.
O silêncio ficou pesado.
Lobão olhou para Elisa. Ela estava pálida, com os olhos arregalados e o bebê apertado contra o peito.
— Entra pra dentro — disse ele, firme.
Ela obedeceu sem questionar.
Lobão virou-se novamente para o homem.
— Ninguém fala nada.
— E…?
— E traz ele até mim.
A expressão dele era perigosa.
Porque, naquele momento, uma coisa ficou clara:
Alguém estava procurando Elisa…
E Lobão não ia deixar chegar perto dela.