Lobão saiu do quarto sem olhar para trás. O passo firme ecoou pelo corredor estreito, e Elisa ficou parada por alguns segundos, tentando entender o que estava acontecendo. Seu coração batia tão forte que parecia fazer barulho.
Ela fechou a porta devagar e encostou as costas nela. O bebê voltou a se mexer, inquieto, sentindo a tensão. Elisa o beijou na cabeça, tentando se manter calma.
— Vai ficar tudo bem… vai… — murmurou, mais para si mesma.
Mas nem ela acreditava.
Do lado de fora, vozes começaram a se misturar. Elisa não conseguia ouvir exatamente o que diziam, mas o tom era sério. Ela foi até a janela novamente, com cuidado, abrindo apenas uma fresta.
Lá embaixo, viu Lobão.
Ele estava parado no meio da viela, braços cruzados, postura dominante. Ao redor, alguns homens armados, atentos. Um desconhecido estava diante dele, gesticulando, nervoso.
Elisa recuou imediatamente, com medo de ser vista.
O tempo parecia não passar. Cada segundo era um tormento. Ela imaginava mil cenários… e todos terminavam com o homem encontrando-a.
Minutos depois, passos se aproximaram novamente. Elisa segurou a respiração quando alguém bateu na porta.
— Sou eu — a voz grave de Lobão veio do outro lado.
Ela abriu.
Ele entrou e fechou a porta atrás de si. O olhar ainda estava duro, mas havia algo mais ali… irritação.
— Não era quem você tá pensando — disse ele.
Elisa piscou.
— Não?
— Era um cara procurando outra pessoa. — Ele fez uma pausa. — Mas isso não muda nada.
Ela sentiu as pernas fraquejarem.
— Eu… eu achei que fosse…
— Eu sei o que você achou.
O silêncio caiu. Elisa desviou o olhar, envergonhada pelo medo evidente.
Lobão se aproximou mais um passo.
— Quem você tá fugindo… é perigoso assim?
Ela hesitou. Seus dedos apertaram a roupinha do bebê.
— É.
— Ele sabe que você veio pra cá?
— Não… — ela respondeu rápido. — Eu não falei pra ninguém.
Lobão a observou por alguns segundos, como se tentasse ler além das palavras.
— Melhor continuar assim.
Nesse momento, Jota entrou com uma bandeja: pão, café, leite e um pacote de fraldas.
— Aqui, chefe.
— Deixa aí.
Elisa agradeceu com um gesto tímido. O bebê começou a resmungar, e ela se sentou na cama para prepará-lo.
Lobão ficou parado, observando. Havia algo na cena que o deixou silencioso: a forma como ela cuidava do filho, com delicadeza, apesar do medo evidente.
— Você não vai precisar sair hoje — disse ele.
— Eu… queria ajudar minha tia…
— Hoje não. Primeiro você entende onde tá.
Ela assentiu.
Ele deu meia-volta, mas parou antes de abrir a porta.
— Relaxa… — disse, sem encará-la. — Aqui ninguém encosta em você.
Elisa sentiu algo estranho no peito. Pela primeira vez desde que fugira, uma sensação de segurança… mesmo que frágil.
Lobão saiu.
Mas lá fora, enquanto descia a viela, ele chamou um dos homens.
— Quero dois caras de olho na casa.
— Tá achando que tem problema?
Lobão encarou o movimento do morro, sério.
— Eu não confio em coincidência.
E naquele momento, no fundo, ele já sabia:
o passado dela ainda estava muito longe de acabar.