Todos os anos fazemos uma festa de aniversário para Luíza. Seus amigos da escola e de suas atividades esportivas, sempre vêm para comemorar com ela e é sempre uma festa gigantesca. Desde os seis anos ela escolhe o tema da festa. Já passamos por princesas, heróis da Marvel e da DC Comics, Harry Potter, Indiana Jones, vilões e aos doze anos ela escolheu halloween, se fantasiando de vampira.
Mandei fazer sua fantasia sob medida com um vestido do século XVI por baixo de uma capa, de gola bem alta, e um encaixe para os dentes com presas perfeitas, além de cabelo e maquiagem.
Não estou mimando ela demais! Ela não tem o nome da própria mãe na certidão de nascimento e jamais a conhecerá! Estou apenas compensando esse fato na vida dela, se é que existe algum tipo de compensação para isso. E ela é a filha do meu melhor amigo! Henrique tem condições de dar tudo para ela, mas eu gosto de fazer parte de suas vidas!
No meio da festa, ela vem até mim e diz que não está se sentindo bem.
— O que você tem, meu amor? O que está sentindo?
— O pé da minha barriga está doendo... — ela fala meio pálida e parecendo sem forças.
Eu a pego no colo e ela encosta a cabeça em meu pei.to, enquanto a carrego para seu quarto. Eu a coloco deitada em sua cama, ela está gelada! Tiro sua capa de vampira e a cubro com um edredom, mesmo estando fazendo quase trinta graus! Me afasto dela e ela começa a chorar.
— Não me deixe sozinha, tio Rapha! Por favor?
— Só vou avisar seu pai e ligar para o médico. Você bateu a barriga em algum lugar?
— Não... mas está doendo muito! — lágrimas escorrem de seus olhos e eu fico muito mais preocupado. Decido ligar no celular de Henrique.
— Onde você está? — ele pergunta assim que atende.
— Luíza está com dor no pé da barriga. Estamos no quarto dela. Vou chamar o médico.
Estou discando para o Dr. Enzo, ele é clínico geral e sempre atende meus pais quando eles precisam, se for necessário chamamos um pediatra, Henrique entra apressado.
— O que foi, meu amor? Você está pálida!
— Eu não sei, papai. Só sei que dói muito!
O médico chega em quinze minutos, o que parece uma eternidade! Ele a examina apertando sua barriga, o que a faz chorar um pouco mais e empalidecer mais ainda, com a dor. Enzo aplica uma injeção analgésica intravenosa e ela adormece. Ele prescreve analgésicos de via oral e só então se vira para nós.
— Sua menina está virando mocinha, rapazes! Ela deve menstruar ainda essa semana. Aconselho que um dos dois, ou os dois, tenha uma conversa sobre se.xo com ela. Quanto antes, melhor. Ela já não é mais aquela criança, seus hormônios estão à flor da pele e, antes que ela faça alguma besteira, ela tem que aprender sobre os riscos que o se.xo envolve, inclusive o de aprender de modo torpe!
— Nós conversaremos com ela, Enzo. Amanhã pela manhã, quando ela estiver se sentindo melhor. — Henrique responde.
— Estamos aliviados por não ser uma doença, mas tememos que ela vá sofrer constantemente com cólicas. — falo para Enzo.
— Ter cólicas agora não é sinônimo de que elas devam acontecer todos os meses. E também elas podem acontecer com menos intensidade. Assim como existem mulheres que não sentem nada na primeira menstruação e podem ter dismenorreia para o resto da vida. Nada é regra em se tratando de menstruação. Aconselhem ela a fazer tudo o que tiver vontade durante essa primeira vez, lavar cabelos, tomar banho gelado, andar descalça, andar a cavalo... tudo! Vocês sabem como é a mã... — nesse momento Henrique o faz calar.
— Não! — ele diz sonoramente e o puxa para fora do quarto, depois de se certificar de que Luíza continua dormindo. — Não tive mais que um contato se.xual com ela e depois só a vi quando ela veio entregar Luiza. O nome dela nem consta na certidão! — ele fala baixinho.
— Você fez um teste de paternidade? — Enzo pergunta mantendo o tom baixo.
— Fiz há dez anos, mas isso não importa. Fiz porque os colegas de escola estavam me enchendo o saco. Mas o resultado deu positivo. Sou realmente o pai biológico dela. O fato dela ter dado para todo o time de futebol antes de tran.sar comigo é irrelevante. Mas o fato dela não querer a filha é! Ela nunca mais teve contato e, se depender de mim, nunca terá!
— Era só curiosidade médica, se algum dia ela precisar de você clinicamente. Mas pai é aquele que cria, não aquele que doa o esperma.
— Como eu disse, fiz o teste porque eu era um moleque de dezessete anos, que não aguentou a zoação dos idi.otas da mesma idade. E, mesmo que eu não fosse o pai biológico, não teria coragem de abandoná-la, Enzo!
— É muito bom ouvir isso...
— Ele assumiu a menina aos quinze anos, Enzo! Eu estava lá quando tudo aconteceu!
— Tudo bem, rapazes! Era só curiosidade. Me chamem se precisar. Tenho alguns pacientes esperando. Tenham uma boa tarde.
Nos despedimos de Enzo e voltamos para dentro do quarto.
— Volte para a festa, Henrique, a aniversariante e o pai sumirem não é legal. Eu fico com ela.
— E morrer de preocupação longe dela? Nem pensar!
— Enzo disse que ela ficará bem. Eu a levo assim que acordar.
— Vamos revezar. Eu fico com ela agora e você volta aqui daqui a uma ou duas horas. — nesse momento, Luiza geme "tio Rapha" bem baixinho. — Está bem... eu volto para festa... — ele sai do quarto resignado.
Eu me sento na poltrona perto da cama e a fico observando. Depois de vinte minutos ela abre os olhos e estende a mão para mim.
— Tio Rapha…
— Oi, meu amor. — me ajoelho perto da cama e pego sua mão. — O tio Rapha está aqui. Como está se sentindo?
— Melhor. Você pode voltar para festa, se quiser.
— Volto para lá se você voltar comigo. — ela sorri para mim.
— Você quer que eu volte?
— Claro que quero! É sua festa, estamos todos comemorando seu aniversário. Você quer voltar?
— Daqui a pouco. Você pode deitar um pouco aqui comigo?
Tiro a casaca de vampiro elegante, estilo Entrevista Com Um Vampiro, coloco no encosto da poltrona e me deito na beira da cama com os sapatos para fora. Ela encosta a cabeça em meu pei.to enquanto me abraça.
— O que o médico disse que está acontecendo comigo, tio Rapha?
— Você está virando mocinha, querida. Só está crescendo, não é nada de mais. Pode ficar tranquila. — mas eu não estou tranquilo, queria que o tempo fosse mais devagar... em pouco tempo minha menininha seria uma mulher.