-- Rebecca, Rebecca. Aonde vai? -- Benjamin estava Vindo atrás de mim.
Eu seguia arrastando a barra do eu vestido pelo jardim. Voltaria a pé para a fazenda. Nada daquela carruagem tola*.
-- O casamento já foi firmado, não há mais nada que eu precise fazer. -- Respondi.
-- Como não? -- Disse Benjamin de longe -- E os convidados? E a festa? Ensaiamos até valsa.
Eu parei minha corrida e expandi meus pulmões, os inflando com ar, para depois expelir o gás em um suspiro que procurava me manter controlável diante da raiva* que eu sentia perante a frieza de Benjamin Hacker.
-- Você foi a um ensaio, Benjamin. Um ensaio. Eu fiquei esperando nos outros dez que aconteceram ao longo desses dez meses de preparação para o casamento. -- Eu disse voltando minha caminhada -- Então não finja que essa valsa tem alguma importância. Você e eu sabemos que não tem.
Apesar da fúria em minha mente, eu falei de maneira pausada e não transpareci os sentimentos* ruins* que transbordavam do meu coração e queriam alcançar os meus lábios em forma de palavras horríveis* que eu teria gostado de usar para insultar Benjamin.
Respira. Inspira. Expira. Repita novamente.
-- Eu estive ocupado. Você sabe, Rebecca.
-- Eu imagino que estivesse mesmo -- falei de maneira neutra, quando na verdade estava prestes a desabar em choro.
Minha vontade* era de gritar com ele e mandá-lo ir procurar por Larissa, já que era dela que ele gostava. Mas não, eu não daria esse gostinho ao meu, agora, marido. Eu fingiria que nada estava acontecendo e ,aos poucos, o faria experimentar na pele toda a angústia que me fizera sentir naquele momento.
-- E o que eu vou fazer com todos aqueles convidados, Rebecca? E a sua família? E a minha?
-- Estou indisposta. Apenas volte lá e diga isso. Faça essa gentileza pela sua... esposa.
-- Indisposta? -- Perguntou ele me alcançando -- Você tá correndo como quem corre uma maratona, não parece indisposta. O que houve?
Ele ficou na minha frente, me barrando a passagem, bloqueando para que eu não saísse. Benjamin estava bonito em seu terno de casamento, ele é lindo, claro. Mas eu me perguntava como um rosto lindo feito aquele podia mentir tão bem. Será que Benjamin não pensava que eu tenho sentimentos?
-- Sim, Benjamin. Indisposta. Agora preciso ir.
Ele me olhou, trincando os dentes, como se a qualquer momento fosse me pegar pelo braço e me obrigar a ir com ele de volta para os eventos que deveriam se seguir a cerimônia. Mas Benjamin se deteve, apenas respirando ruidosamente antes de me dar passagem para que eu pudesse prosseguir em direção a casa e me livrar daquele circo que as pessoas estavam chamando de casamento.
-- Você ainda vai pra Bariloche? -- Perguntou ele.
Ah, então era isso, ele quer saber se eu vou desistir da viagem para a Argentina. Desse modo, Larissa e ele estarão livres de mim para curtirem a viagem para Bariloche. Cretino!
-- Não, não irei -- Falei.
-- Pois eu vou, Rebecca. As passagens estão compradas, o hotel reservado.
Aquilo doeu no fundo do meu coração. Ele iria passar nossa lua de mel com Larissa, quanta frieza, meu Deus. quanta frieza daquele homem.
-- Tudo bem, espero que se divertia... Sozinho em Bariloche -- disse de costas para ele, me afastando cada vez mais.
Benjamin ficou em silêncio.
-- Ok, ok. Melhoras pra você, Rebecca.
Eu não o respondi dessa vez, apenas segui meu caminho. Mais uma palavra que eu trocasse com aquele homem e eu o mandaria ao inferno*.
Entrei pela casa chamando por Celeste, uma empregada muito gentil que ajudava Ruth, mãe de Benjamin, mas que havia se afeiçoada a mim há um tempo.
-- Pois não, senhora. -- Ela me olhou confusa, vendo o vestido -- O casamento já acabou?
-- Não, Celeste. Não acabou.
-- Não era para a senhora estar lá?
-- Não, não era. Escuta, você conseguiu o contato daqueles dois homens que te pedi?
-- Consnegui, menina, mas tem certeza de que quer fazer isso? O seu Benjamin pode ficar bravo.
-- Ele não saberá. E espero que você não comente com ninguém.
-- Mas para que a senhora quer sequestrá-la, dona Rebecca?
-- Não quero sequestrá-la, quero impedi-la de viajar, Celeste. De viajar com o meu marido.
-- Eu sei que essa Larissa é uma desaforada junto daquela mãe dela, mas não acho que isso vá ajudá-la a se acertar com o Benjamin, Rebecca. Me escuta.
-- E quem disse que eu quero me acertar com ele, Celeste!
-- Não quer? -- Espantou-se a mulher.
-- Não. Eu quero vê-lo sofrer, sofrer cada lágrima que me fez derramar.
Falei subindo as escadas erguendo a barra do vestido.
-- Tome cuidado, Rebecca, esses sentimentos podem fazê-la sofrer, menina! -- Disse Celeste parada perto do primeiro degrau.
-- Mais do que já estou sofrendo, Cel? Acho muito difícil. Se perguntarem por mim, diga que estou com enxaqueca.
Era só o início da minha vingança. Quando eu desejei que Benjamin curtisse sua viagem em Bariloche sozinho, não estava brincando. Ele realmente passaria o frio de lá na própria companhia. Larissa estaria bem presa em um quarto de hotel por vinte quatro horas e não iria poder viajar com meu marido. Ela perderia o voo.