A fazenda da Família de Abraham, pai de Benjamin Hacker, era uma propriedade enorme, com muitos hectares. Essas terras todas eram uma pequena demonstração de todo o dinheiro e fortuna que a família tinha, apesar de não ostentarem e manterem uma vida simples dentro dos padrões que se esperaria para um clã milionário como era aquele. A fazenda contava com vastas plantações e, sobretudo, animais: cavalos, vacas, bezerros, galinhas e aves. Extensas áreas de lazer, com piscina, quadras de tênis, futebol e um lago artificial onde boa parte da família usava aos finais de semana para andarem com seus jet skis e lanchas.
Mas para cuidar de tudo isso, Abraham contava com a ajuda de muitos empregados, distribuídos em diversas funções. Esses empregados, por sua vez, eram coordenados por Belchior e Conceição, o casal de caseiros. Conceição e Belchior eram pais de Larissa, uma moça que não se contentava nem um pouco com a vida que levava e se tornaria a principal rival da nossa amada Rebecca.
A casa dos caseiros ficava há quase um quilômetro da mansão onde Rebecca e Benjamin morriam junto dos sogros Ruth e Abraham (após o casamento). Por Belchior ser um excelente empregado, Abraham sempre o tratou de maneira diferenciada e fez questão de construir uma casa confortável e bonita para que sua família morasse (coisa que outros caseiros da região não tinham e chegavam a invejar de Belchior). Belchior, por sua vez, era muito grato ao seu patrão, e sempre fez questão de dar o seu melhor nos cuidados com a fazenda, tentando compensar a generosidade de Abraham..
Mas Conceição, esposa de Belchior, sempre foi ambiciosa. Desde que se casara com Belchior e via a vida de Abraham e Ruth, que ela invejava e queria algo parecido ou melhor para si, mesmo nunca tendo movido uma palha para sair da condição que considerava r**m*. E quem seguia os passos da mãe, era Larissa, a filha de vinte anos do casal. Conceição achava que seu tempo havia passado e que não conseguiria ninguém melhor que seu marido. Mas ao notar que a filha era bonita e que o filho dos patrões poderia se interessar por Larissa, a mulher fez questão de estimular a filha a aproximar-se de Benjamin.
-- Não sabe o que aconteceu, mamãe. -- Disse Larissa entrando às pressas pela casa.
-- O casamento já acabou? -- Perguntou Conceição desligando a TV.
-- Não, não acabou, mas não sabe o que a 'nojentinha' da Rebecca fez.
Conceição abriu um sorriso malicioso. Pelo tom de Larissa, devia ter sido algo favorável às duas.
-- Ah, meu Deus. Ela desistiu do casamento?
Larissa olhou para a porta, receosa que alguém chegasse enquanto ela estivesse falando.
-- Não se preocupe, seu pai está auxiliando os convidados e não deve voltar até todos irem embora. Pode falar. Ela desistiu do casório? Disse não? Fala logo, Larisa. Quer me matar do coração, menina?
-- Ela disse sim... -- Respondeu Larissa com um leve desgosto -- Mas não beijou Benjamin. Saiu correndo pra fora do altar e não voltou. Foi uma chacota. Aquela ridícula*... Ai que vontade de ir até Rebecca e enchê-la de uns bons tapas* para perder aquela cara de sonsa.
-- Sério? E Benjamin, ficou como?
-- Ele teve que ir atrás dela, né? É a noiva... -- dEsdenhou Larissa revirando os olhos -- Por mim a gente colocava aquela garota em um baú e jogava no mar. -- Riu.
Conceição acompanhou a filha nos risos.
-- Ah, minha filha, você sim seria a esposa ideal para Benjamin, saberia conduzir a casa e os bens da família. Olhe pra você: alta, magra, bonita. E não aquela sonsa da Rebecca. Ela é feia* para o Benjamin. Só está se casando porque foi tudo arranjado.
-- Mas não importa, mamãe. Teve que ser assim, se não o pai de Benjamin iria deserdá-lo. Você gostaria que eu me casasse com um pobre*?
-- Jamais, não fale isso nem de brincadeira -- a mulher bateu no mogno da mesa que havia ao lado, em um gesto supersticioso -- eu me casei com seu pai por amor, e olha no que deu. Vivemos aqui, servindo aquela gente. Não vou permitir que cometa o mesmo erro, minha filha. no que eu puder ajudar você com Benjamin, eu farei. Até mato* se for preciso.
-- Fico feliz pelo seu apoio, mamãe. E não, não se preocupe. Não casarei com um homem sem dinheiro. Eu mesma não suportaria viver na miséria. O coração de Benjamin está bem aqui, olha -- Larissa apontou para a palma da própria mão.-- bem aqui na minha mão e posso fazer dele o que bem quiser.
Nesse momento o celular de Larissa vibrou.. Ela olhou a mensagem no celular e sorriu, sorriu triunfante, de maneira obscura.
-- É o Benjamin? O que ele disse? -- Perguntou Conceição esticando o pescoço para tentar ver a tela do telefone.
-- Disse que a sonsinha, coitadinha da Rebecca não vai mais para Bariloche. Ameeeem! -- disse Larissa dando pulinhos de alegria.
-- Que maravilha, meu Deus! -- disse Conceição pondo as mãos em direção aos céus, como se agradecesse.
-- Seremos somente Ben e eu, sem ter que prender Rebecca no quarto. Estou ansiosa para essa viagem romântica até Bariloche, mamãe.
Larissa digitou uma mensagem no celular e enviou enquanto respondia à mãe.
-- O que você disse ao papai? Ele vai notar minha falta nos próximos dias, enquanto eu estiver em Bariloche.
-- Eu disse que você tem uma viagem da faculdade, Larissa. Já venho falando disso pra Belchor há um bom tempo, de modo que ele está acreditando e nem desconfia de nada.
--É, mamãe, você precisa mesmo cuidar para que o papai não saiba de nada, pois ele pode estragar todos os nossos planos. Papai é tão orgulhoso daquela honestidade toda dele. Eca...
-- Graças a Deus você puxou a mim, Larissa. Dependendo do seu pai, ficaremos para sempre nessa espelunca servindo essa gente rica. Eu não aguento mais ter que sorrir para Ruth, mãe de Benjamin. Ô mulher chata, viu?
-- Ela não gosta muito de mim também, a senhora sabe.-- Disse Larissa, parecendo gostar de saber disso.
-- Ela é do time da sonsa boazinha. Aff. Eu tô pra mandar aquela mulher para o inferno*.
-- Não, tá louca, mamãe? Se fizer isso, seremos despedidos. Aí como ficaria perto do Benjamin, hen? Calma, calma, que quando eu me casar com ele eu vou mandar em boa parte das coisas. Aí eu vou mostrar pra Ruth que a senhora não é qualquer uma, mamãe. Ela vai ter que te respeitar.
-- Eu tenho fé, Larissa. Tenho fé. A gente vai ser muito rica e poderosa.
-- Eu tenho fé. Tô fazendo tudo que posso. Por falar nisso, preciso ir.
-- Vai aonde? -- Perguntou conceição
-- Vou encontrar Benjamin, ele tá chateado, pobrezinho. Vou consolá-lo.
-- Menina, não vá ficar grávida. Não agora! -- Conceição se deleitava com a audácia da filha.
-- Não irei, relaxa,mãe. Daqui a pouco eu volto.
CASA DA FAZENDA. CELESTE BATE* A PORTA DO QUARTO DE REBECCA. CELESTE ESTÁ RECEOSA, PREOCUPADA.
-- Desculpe incomodar, menina. Mas os homens estão aí. Eles querem falar pessoalmente com você.
-- Não incomoda, Celeste. Eu vou me vestir e desço para falar com eles. Diga para esperarem na cozinha, para ninguém vê-los, pode ser?
-- Claro, meu anjo. Fico lá com eles te esperando.
A casa estava vazia. Todos ainda permaneciam na festa, que não foi cancelada. Muitos parentes haviam vindo de longe e a desculpa que deram , era a de que Rebecca foi trocar de roupa e voltaria. Isso nunca aconteceu.
COZINHA DA FAZENDA. DOIS HOMENS ESTÃO SENTADOS A MESA SIMPLES DE MADEIRA. CADA UM TEM UM BOLO DISPOSTO EM UM PRATO DE PORCELANA. AMBOS TIRAM O CHAPÉU QUANDO VEEM REBECCA ENTRAR.
O mais jovem e com uma barba rústica, é Antenor. Ele foi criado naquela cidade e falava como um verdadeiro caipira. Sempre trabalhou com o pai cuidando de animais. O mais velho era Jacinto, um homem de pouca inteligência e que sempre seguia alguém que achava mais inteligente que ele. No caso, Antenor. Ambos vestiam-se de maneira ligeiramente parecida: como dois peões, desses de novelas das seis.
-- Boa noite, sinhora -- disse Antenor com o R puxado.
-- Boa noite, sinhora -- falou Jacinto acompanhando o primeiro.
Celeste estava perto da pia, observando a cena. Rebecca avistou os dois homens e qualquer um notava em seu rosto que a menina havia chorado ou que , no mínimo, estava muito triste por algo.
-- Boa noite, meninos. Me chamo Rebecca.
-- Prazer, sinsinhora. -- Antenor estava com o chapéu entre as mãos. Ele ficou acanhado diante de Rebecca. -- Eu sô Antenor e esse aqui é meu amigo Jacinto. As suas orde.
Na verdade, tanto ele quanto Jacinto ficaram tímidos por se encantarem com a graça de Rebecca. Rebecca lhes pareceu muito distante de sua realidade.
-- Bem, a viagem será amanhã de manhã. Preciso que impeçam a moça de chegar ao aeroporto.
-- Sinhora, peço perdão desde já pela intromissão nossa, mais a gente já sabe que a moça num vale di muita coisa. Si quisé nóis dá um curretivo pra ela aprendê a sê muié direita, né, Jacinto? -- Disse Antenor.
-- É sinsinhora. Mas nóis num bati em muié não, viu, dona? Nóis tem uma otra muié que faiz isso pra nóis.
Rebecca não se aguentou e riu dessa parte. Via-se que eram dois homens muito humildes.
-- Está tudo bem. Não quero que façam nada de agressivo. Eu tenho planos maiores. Por hora quero apenas que impeçam Larissa de chegar ao aeroporto em São Paulo. Conseguem fazer isso?
-- Ara, claro que nóis consegue, dona. Jacinto e eu já feiz coisa pió. Fica tranquila que a menina chega nos aeroporto coisa ninhuma.
-- Certo, certo. A propósito, entreguem esse cartão a Larissa quando ela já estiver no local onde será mantida. Peço que não abram o envelope, tudo bem?
Antenor pegou o envelope das mãos da moça, o estudando brevemente com os olhos.
-- Num vamo abri não, dona. Samo correto nas coisa. -- Antenor disse.
-- Ok, ok Eu vou fazer metade do pagamento agora e a outra metade quando eu souber que meu marido já se encontra sozinho em Bariloche. Preferem o pagamento de que forma?
-- Tem o tar de pix agora, né, dona? -- Antenor ainda parecia acuado diante do modo 'bonito' com que Rebecca falava.
-- Ah, claro. Claro, pix. Será mais prático. Deixem o numero do pix com Celeste que eu farei ainda hoje.
Jacinto virou-se para Celeste e disse:
-- Escuta, dona Celeste, nois pode levá uns pedaço de bolo? Esse bolo tá baum por dimais.
-- Jacinto, homi, e os modo, ara? - Disse Antenor com vergonha alheia.
-- Ué, mais querê mais do bolo é elogio, oxi. sinar de que tá baum. -- REspondeu Jacinto com ingenuidade
-- Homi, homi, ara -- disse Jacinto.
-- Não se preocupem -- Disse Rebecca com um sorriso terno -- Celeste, embrulhe o bolo para eles e pegue todos os docinhos do casamento e mande junto.-- Disse Rebecca se afastando. -- tenham uma boa noite, meninos.
Quando Rebecca saiu, Antenor puxou Jacinto:
-- Ô, homi, por isso que o cê num consegue muié. Tu mi faiz um desaforo desse na frente da dona. A dona toda educada e fina e o cê mete essa vergonha na cara di nois?
Celeste os interrompeu:
-- Calma, Antenor. Rebecca é uma mulher de bom coração. Leva o bolo, leva, Jacinto. Leva que você tem paladar infantil.
-- Ara que isso é baum por diamis, viu, Celeste? Incrusive, ce tu quizé casá mais eu, eu cao co cê, viu?
-- Se você ousar me falar em proposta de casameno de novo, Jacinto, eu coloco veneno nesse seu bolo.
-- Credo, Celeste, eu sô um homi muito baum, viu?
-- É, é sim. Uma pena se você cair mortinho aqui. -- Disse Celeste cortando o bolo em pedaços para colocá-los em um pote.
-- Muié r**m* -- murmurou Jacinto pondo o chapéu.
-- Ara, para c*m isso, Jacinto. Deixa a Celeste em paz. Brigado, viu, Celeste. E cuida bem da dona, parece que ela num tá muito boa não. -- Disse Antenor caminhando para a sáida.
-- Pode deixar, eu cuido.
REBECCA ESTAVA PASSANDO PELO CORREDOR PARA IR EM DIREÇÃO AO SEU QUARTO QUANDO VIU PELA FRESTA DA PORTA, O QUARTO DE BENJAMIN ABERTO.
Ele organizou as roupas em sua mala e depois puxou o telefone. Alguém o ligava. Era Larissa, Rebecca sabia que era. Benjamin sorriu pelo que ouvia do outro lado da linha. Devia estar feliz por saber que viajaria a sós com a amante, já que Rebecca disse que não iria mais. Isso causou um ódio imenso em Rebecca.
-- Espero que esteja levando um bom casaco para se aquecer, maridinho. Vai precisar, seu cretino dos infernos! -- Pensou Rebecca.