Pré-visualização gratuita "A chegada Do Viúvo"
A chuva começava a cair na mansão dos Farina. Sillia observava o caixão com o corpo de Letícia Farina, sua ex-patroa, a mulher que atormentou sua vida por um ano inteiro. Letícia tinha uma beleza angelical, mas por dentro era um verdadeiro demônio.
Sillia encarava os longos cabelos loiros da falecida. Ela parecia apenas dormir. Mas chorar? Ela não conseguia. Nunca desejou a morte daquela mulher, longe dela ser assim. Mas desde o primeiro dia em que pisou naquela casa, Letícia a odiava com todas as forças. No início, ela não entendia o motivo. Talvez fosse por causa da dívida que sua mãe tinha com a família Farina. Mas, no fim, entendeu: Letícia a odiava simplesmente por ser c***l.
Olhou ao redor, procurando o marido da falecida. Em um ano naquela casa, ela jamais o viu. Letícia dizia que ele era mais frio que as geleiras da Antártida. Todos sabiam que o casamento havia sido arranjado entre as duas famílias. Em três anos, Letícia teve muitos amantes, e o marido nunca se importara. Isso a deixava cada vez mais amarga. O abandono era, para ela, pior que qualquer coisa.
No início, ela sentia pena daquela mulher. Tentou oferecer afeto. Mas Letícia apenas ria da sua cara. Ela sofria de lúpus e teve várias crises durante o período em que Sillia cuidou dela. No fim, não resistiu.
Sillia foi tirada de seus pensamentos ao perceber um rosto conhecido se aproximando. Era o irmão de Letícia, um homem alto e loiro. Ela sempre o via muitos próximos, no começo pensou que era mais de um dos amantes de Letícia, já que sua família nunca comentou sobre o irmão dela.
— Não imaginava te encontrar aqui — disse ele, seco. — Achei que quando minha irmã morresse você iria embora.
Sillia se surpreendeu com o ataque.
— Josep — disse, firme —, por que eu iria embora? Eu cuidei da sua irmã por um ano.
— E foi bem paga para isso. Mas não fez o serviço certo. Porque, se tivesse feito, minha irmã estaria viva.
Sillia sentiu o rosto queimar. Várias pessoas começavam a olhar a cena se formar.
— Eu cuidei de Letícia com todo o respeito e cuidado. Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Não me coloque como culpada nisso.
— Que seja...
Ele se afastou, deixando Sillia sem reação. Ao redor, cochichos se espalhavam como fogo em palha seca. Alguém tocou seu ombro com delicadeza.
— Sillia, você está bem?
Era o doutor Gerald, médico de Letícia, um homem sempre gentil.
— Doutor Gerald... eu estou bem. Só que não está sendo fácil. Eu fiz de tudo o que pude por Letícia e ainda assim estou sendo massacrada.
— Eu sei, Sillia. Você cuidou dela com carinho. Eu vi isso de perto.
O velório seguiu sem mais tumultos. Mas Sillia ouviu duas mulheres comentando próximas ao caixão:
— Como o marido não aparece no próprio enterro da mulher?
— Todos sabem que Alonzo casou com Letícia por obrigação — respondeu a outra, com desdém. — Ele sempre deixou claro que esse casamento não significava nada pra ele.
— Agora é um belo viúvo — disse a primeira, com malícia. — Jovem ainda, trinta e três anos. Vai ter fila de mulher querendo consolar.
Sillia sentiu náuseas. Como podiam ser tão descaradas? Falar daquilo no velório da esposa do homem. Mas não teve tempo de pensar muito. Alguém entrou no salão e o ambiente ficou mudo.
Sillia levantou os olhos. Um homem alto, de cabelos castanhos escuros e olhos incrivelmente verdes, atravessou o salão. Seu rosto, no entanto, não tinha expressão alguma. Estava ali apenas por estar.
“Quem será ele?”, pensou Sillia, observando-o. Sentiu o olhar dele pousar sobre si com desdém. “Por que está me encarando assim?”, questionou-se, corando.
Chegou a hora do enterro. Todos fizeram a oração. Ninguém chorava. Nem a própria mãe de Letícia. Sillia pensou: Que família sem coração.
Após o enterro, as pessoas começaram a se dispersar. Sillia, que ainda morava na casa, sabia que provavelmente teria de voltar para sua cidade. Mas não se entristecia. Sentia falta da mãe.
Estava arrumando suas coisas quando o mordomo apareceu à porta do quarto.
— Sillia, vá até o escritório.
Ela franziu o cenho, sem entender. Mas obedeceu. Caminhou pelos corredores silenciosos até a enorme porta dupla do escritório. Bateu. Nenhuma resposta. Abriu devagar.
Um homem estava de costas, diante da enorme janela de vidro. A luz do entardecer iluminava os cabelos castanhos dele.
Sillia se surpreendeu. Era o homem do velório.
Ele se virou e a fitou com aqueles olhos impassíveis. Ela não sabia o que ele queria com ela. Mas manteve a postura e falou com educação:
— Desculpe... o que o senhor quer comigo?
Ele sorriu. Um sorriso debochado, amargo.
— O que eu quero? Eu queria que a funcionária contratada para cuidar da minha esposa tivesse feito seu trabalho. Talvez, assim, ela tivesse sobrevivido.
Sillia ficou sem palavras. O choque ainda não passara quando ele deu mais um golpe:
— Então, Sillia... o que você tem a me dizer?