Sillia olhava aquele homem, tão frio. Como ele ousava dizer que ela não cuidou da esposa dele? Sillia abdicou de tudo por um ano para cuidar de Letícia. Sabia que sua mãe não podia pagar a tal dívida. E mesmo assim, ficou ali, suportando tudo.
— Senhor Alónzo, me desculpe, mas o senhor não é ninguém apto para dizer isso para mim.
Ele arqueou a sobrancelha com desdém. Ela manteve a calma.
— O senhor nunca veio ver sua esposa nesse um ano que trabalhei aqui. Então, como pode afirmar que eu não cuidei da Letícia?
Ele pareceu entediado com a explicação. Seus olhos a observavam como se ela fosse um inseto, como se estivesse perdendo tempo.
— Senhorita Sillia, Letícia me ligava e dizia que a cuidadora dela a negligenciava. Então me diga: em quem devo acreditar? Na minha esposa, que estava se desfazendo na cama? Ou numa simples enfermeira?
Foi como um tapa. Sillia engoliu em seco. Tanta humilhação... tudo o que suportou... e agora isso?
— Se fosse verdade, por que Letícia não me despediu? — rebateu, com a voz embargada.
Ele soltou uma risada irônica.
— Porque ela tinha um coração bom. Esperava que você mudasse sua atitude.
Sillia apertou os punhos. A paciência estava no limite.
— Coração bom? Por favor... não vamos mentir aqui. Todos nesta casa sabem que o senhor desprezava Letícia.
Alónzo nem se abalou.
— Realmente. Você tem razão, Sillia. Eu desprezava minha esposa. Mas mesmo com tudo isso, não posso simplesmente ignorar o que aconteceu.
Ela tremia. Passou a mão nos cabelos ruivos que caíam sobre o rosto, tentando recuperar o controle.
— O mordomo me disse que você está arrumando as malas?
— Sim. Vou voltar a morar com minha mãe.
— Pode esquecer — disse ele, autoritário. — Você foi mencionada no testamento de Letícia.
O mundo parou por um segundo.
— Senhor... isso só pode ser engano.
— Não é. O advogado já me procurou. A leitura será de manhã. E, senhorita Sillia, espero sinceramente que você não tenha nada a ver com a súbita morte da minha esposa. Pode sair.
Ela quis socá-lo. A raiva queimava por dentro. Saiu batendo a porta, com passos duros e o orgulho ferido. Foi até o quarto das empregadas, onde ficava. Olhou para a pequena mala. Nada dentro. Não comprou uma peça de roupa sequer em um ano. Suas economias foram todas para a mãe.
E no fim... teria que ficar ali?
O que Letícia estava planejando ao colocar seu nome naquele testamento? Ela a odiava. Sempre deixou claro que a via como um cachorro, nada mais que isso.
Sillia suspirou e encarou seu reflexo no espelho trincado da parede. Estava péssima. Os longos cabelos ruivos, naturais, estavam opacos, sem vida. As olheiras fundas marcavam seu rosto pálido e sardento. Estava magra demais. O braço fino demais. Tinha se perdido ali dentro.
Letícia tirou tudo dela.
As roupas surradas refletiam seu estado. Nada parecia bom. Mas, ainda assim, não podia negar: Alónzo era bonito. Letícia sempre dizia que o marido parecia um ator de cinema, e nisso, ela não mentiu. Mas o que importava beleza quando se era podre por dentro?
Sillia se encolheu na pequena cama, abraçou as pernas e ficou ali, tentando se reconfortar. O cansaço a venceu. E ela dormiu.
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Acordou com o sol já alto. Nem percebeu quando adormeceu. Estava exausta.
Vestiu o melhor que tinha, um vestido velho, mas limpo. Penteou os cabelos e prendeu num r**o de cavalo. Então ouviu batidas na porta.
— Sillia...
Era Ivone, uma das empregadas e amiga de longa data.
— Trouxe pão e café com leite pra você. Sei que não comeu nada ontem.
Sillia sorriu, emocionada.
— Obrigada, Ivone. De coração.
A outra sorriu de volta. Ivone era boa. Uma das poucas pessoas ali com alma. Para Sillia, era como uma mãe.
Depois do café simples, o mordomo veio avisar: Alónzo a esperava na sala.
Ela foi. Tímida. Nervosa.
Havia um senhor sentado no sofá. O advogado, provavelmente.
— Estão todos aqui. Vamos começar — anunciou ele.
O coração de Sillia martelava no peito. Nenhum irmão, nenhum parente de Letícia. Apenas ela e aquele homem que a fazia querer gritar.
— Eu deixo todos os meus bens para meu amado marido...
Sillia quase riu. “Amado” marido? Letícia só podia estar zombando.
— ... e para minha cuidadora, que não fez seu serviço direito, só destruiu mais minha saúde, eu deixo escrito: a dívida que sua mãe tem com minha família não foi paga. Espero, de coração, que meu marido cobre com juros tudo o que essa maldita e sua mãe devem à minha família.
Sillia se levantou de súbito, em choque.
— Isso está errado! A dívida já foi quitada! Trabalhei um ano inteiro sem receber nada! Como não foi quitada?
— Senhorita — o advogado respondeu com frieza —, está aqui no documento. Agora, o fiador é o senhor Alónzo.
As palavras a acertaram como facadas. Lágrimas desceram sem aviso. Como aquela mulher pôde ser tão c***l? Mesmo morta, ainda conseguia envenenar sua vida.
— Eu não aceito! — chorou, sem conseguir conter a revolta.
— Senhorita Sillia — interrompeu Alónzo, com voz firme —, agora você tem que trabalhar para mim. E espero, sinceramente, que desta vez faça um bom trabalho.