"A Filha Da Ca.dela"

1000 Palavras
Quando Sillia escutou de sua mãe que estavam prestes a perder a casa, o lugar onde viveu desde a infância, seu coração se quebrou. — Filha, eu realmente sinto muito... não sei como chegamos a esse ponto. Sempre foram apenas as duas. Sillia nunca conheceu o pai, nem mesmo sabia seu nome. Sua mãe, uma mulher muito bonita, engravidou de um homem que a abandonou. Sillia devia se parecer com ele, porque Helena tinha cabelos loiros dourados e olhos azuis, e ela era completamente diferente. Sempre quis ser como a mãe. Mesmo aos 45 anos, Helena era deslumbrante. Ela sempre quis saber quem era seu pai, mas a mãe se recusava a contar. Dizia que não era ninguém importante. As duas eram ligadas por um amor profundo. Helena trabalhava incansavelmente, saía cedo e só voltava à noite, tudo para dar uma vida digna à filha. Quando contou sobre a dívida com lágrimas nos olhos, Sillia não hesitou. Precisava ajudar. Mas, ao chegar naquela mansão, foi como entrar no inferno. Letícia a olhou de cima a baixo com nojo escancarado. — Você é a filha daquela mulher? Sillia não entendeu tanto ódio. Talvez fosse pela dívida. — Sim... eu vim trabalhar aqui como sua cuidadora, senhora. Tudo que precisar, pode contar comigo. Letícia se aproximou sem aviso e agarrou os cabelos de Sillia, que congelou, chocada. — Espero que você faça seu serviço direito. Aqui não será fácil pra você. E tudo o que vir nesta casa, fica aqui. Entendeu? Se eu trouxer convidados masculinos, espero que mantenha sua boca fechada. Porque, se não mantiver, eu vou ter o prazer de arrancar sua língua. Sillia só entendeu o real peso daquela ameaça um mês depois, quando esbarrou em um dos amantes de Letícia. Fingiu que não viu, mas Letícia soube que ela havia perguntado quem era o homem. Chamou Sillia e mandou que duas empregadas a segurassem. — Então você anda se metendo onde não deve, Sillia? Eu te contratei para cuidar de mim, não da minha vida. Eu te avisei. Sillia arregalou os olhos. O coração disparado. — Eu... eu não perguntei nada, por favor... — Não vou arrancar sua língua. Mas vou tirar uma unha sua. — Não! — ela implorou, em lágrimas. — A senhora não pode fazer isso... — Posso sim. E vou. Letícia não se importou com o desespero. Arrancou uma das unhas de Sillia com crueldade. Ela gritou. Gritou até a garganta arranhar, até o mundo girar. Chorava sem parar, mergulhada em dor e humilhação. — Espero que isso te ensine. Aqui, você é meu cachorro. Saiba seu lugar. Se não fizer o que mando, sua mãe vai pra rua. Eu não me importo com aquela c****a, mas você se importa. Então me diga, Sillia... quem é sua dona? Ela soluçava ao responder: — A senhora Letícia é minha dona... — Ótimo. A partir daquele momento, Sillia nunca mais se meteu em nada. O que via, engolia em silêncio. Letícia dava festas, trazia homens, havia orgias na mansão. Ninguém ousava comentar. Letícia pertencia a uma família poderosa. Todos temiam seu pai, um homem de quem Sillia só ouvira falar. Se fosse tão c***l quanto a filha, o medo era justificável. Ela era só uma enfermeira. Que poder tinha? Estava nas mãos daquela mulher. Comeu o pão que o d***o amassou. Chegou a engolir comida podre, só para evitar a fúria de Letícia. Algumas empregadas lhe davam comida escondida, mas, quando Letícia descobriu, demitiu várias delas. E agora que Letícia estava morta, o homem dela ousava dizer que Sillia trabalharia para ele? — Senhor Alónzo, eu não posso trabalhar para o senhor. Ele parecia surpreso. Como alguém que nunca ouvira um "não". — Eu já paguei minha dívida. Esse maldito testamento não significa nada. Se eu contar o que sofri nesta casa, sua maldita esposa estaria presa! — Mortos não falam, Sillia — disse ele com deboche. — Ela está morta e não pode se defender das suas acusações. — Se mortos não podem interferir, por que eu deveria obedecer esse testamento? Saiu do escritório quase correndo. Precisava ir embora. Ver sua mãe. Mas, no corredor, esbarrou na mãe de Letícia uma mulher tão c***l quanto a filha. — Olha só quem eu encontro... a filha da c****a da Helena. Sillia ficou surpresa. — Senhora, por favor, respeite minha mãe. Carlota agarrou os cabelos dela com força. — Respeitar? Por que eu faria isso? Sua mãe não vale nada! Sillia se desvencilhou, assustada. A mulher estava bêbada, os olhos vermelhos, o hálito alcoólico. A insanidade corria naquela família. Ela era idêntica à filha: mesma beleza gélida, cabelos loiros, olhos azuis e crueldade escorrendo pela boca. — Senhora Carlota, minha mãe é uma mulher trabalhadora. Não sei por que tem tanto ressentimento por ela... A mulher parecia prestes a bater nela. — Minha filha nunca devia ter contratado um cachorro como você. Devia ter te matado quando teve a chance. Talvez estivesse viva agora. — Eu cuidei de Letícia com todo o meu coração. Não tenho culpa da morte dela. Com licença. Sillia se trancou no quarto. Ali, pelo menos, não apanharia. Chorou como uma criança. Seu coração apertado, sufocado. Por que todos a odiavam? Sempre tentou fazer o bem. Sempre. Mas aquele ódio... vinha de longe. Letícia e Carlota pareciam ter uma história m*l resolvida com sua mãe. Por quê? Helena era apenas uma mulher humilde. Agora, Alónzo queria que ela ficasse naquele inferno. Mas ela ia fugir. Já tinha pagado. Não devia mais nada. Começou a arrumar sua malinha. Iria embora de madrugada. Ninguém a impediria. Esperou dar duas da manhã. Saiu do quarto em silêncio. A mansão estava escura. Ótimo. Caminhou devagar pelos corredores gelados. Lá fora, o frio cortava. Sua roupa velha não protegia de nada. Quando alcançou a porta de entrada e tocou na maçaneta, ouviu uma voz estridente ecoar: — Onde pensa que vai, Sillia? Ela se virou. E ali estava ele. O demônio. Parecia que, dessa vez, ele viera buscá-la.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR