-Sofia. -Dylan entrou no quarto e veio até perto de mim que estou deitada na cama fazendo absolutamente nada. -Ron nos convidou para ir jantar na casa dele essa noite. Está afim?
Me sentei e olhei para ele.
-Sim, é claro. -Forçei um sorriso.
-Não demora muito. -Dito isso ele saiu e eu me levantei.
É tão difícil acreditar que estamos aqui. Fala sério, nunca pensei que encontrariamos um lugar assim. Aqui simplesmente é maravilhoso. Tem um parque, escola, casas normais e árvores. É tudo o que eu podia sonhar.
Mas me sinto m*l por meu g***o não estar aqui comigo. É como se tudo isso aqui não fosse o suficiente para eu ficar feliz.
Me sinto m*l também pelo Dylan. Ficou um clima tão estranho entre nós. E eu não queria isso. Temos que conversar sobre tudo isso.
-Sofia, você está bem? -Peter perguntou pra mim enquanto balançava os seus pés para frente e para trás na cama.
Tentei sorrir e parei de pentear o meu cabelo, indo até ele e me sentando ao seu lado.
-Preciso que me responda uma coisa. -Falei. Após ele concordar, perguntei. -Você está feliz vivendo aqui, Peter?
-Sim. -Disse animado. -Aqui é bem legal. Tem até escolinha, dá pra acreditar? Eu nunca tinha ido e agora vai ser a minha primeira vez. -Sorriu e mexeu na orelha do seu ursinho. -Mas por que está me perguntando isso?
-Apenas curiosidade. -Arrumei o seu cabelo para trás. Daqui um tempo já vai ter que cortar, está bem grande.
-Você não está feliz?
-Estou, estou sim. Só não me adaptei 100% ainda.
-Eu não quero ir embora daqui, tá, Sofia?
Sorri e peguei em seu rosto.
-Não vamos.
-Dylan te falou que vamos na casa de um menino?
-Sim. -Coloquei minha mão sobre o colo e respirei fundo. -Mas pra falar a verdade eu não estou muito animada pra ir.
-Ah. -Seus ombros cairam em sinal de desapontamento. -Então eu também não vou.
-E por que não? Você pode ir sem mim. Tem que se divertir.
-Você também. -Olhou pra mim. -n******e ficar aqui sozinha durante a noite. E se o bicho papão vier te buscar? Quem vai te proteger?
Ri de sua fala e concordei.
-Sim, tem razão. Acho que vou ser obrigada a ir, não é?
Ele abriu um longo sorriso no rosto e se levantou animado.
-Será que eu posso levar o bilu comigo? Não queria deixar ele aqui sozinho e...
-É claro, Peter. Ele vai gostar de conhecer pessoas novas.
-Obrigado. -Sorriu e pegou o ursinho em cima da cama. -Vou sair pra você se arrumar. Fica bem lindona, viu?
Dito isso ele saiu correndo e eu caí na gargalhada.
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Após chegar a conclusão de que eu realmente já estava pronta, fui para o primeiro andar e me encontrei com os dois.
-Pronta? -Perguntou Dylan. Concordei e dei novamente mais uma olhada no espelho.
Ele abriu a porta e saímos de casa.
A rua está muito bem iluminada. Coisa que jamais imaginei que veria mais uma vez. Está tudo tão bonito.
-Aqui é perfeito. -Continuei admirando o lugar. -Definitivamente um sonho.
Ao olhar mais adiante, percebi algo semelhante a um lago. Esplêndido.
-Quando morava aqui antes, não era tão bonito quanto agora. Eles progrediram muito nesse tempo.
Começamos a andar.
-Aliás, você está linda nessa roupa.
Olhei em sua direção.
-Não que você não seja naturalmente, mas agora... uau.
Abaixei o olhar e respirei fundo.
Não é que eu não goste de receber elogios, mas vindo dele, depois de tudo, é um pouco desconfortável.
-Não posso mais te elogiar também?
Permaneci em silêncio.
-Tudo bem. Seu silêncio já diz muita coisa.
Após um pouco mais de caminhada, paramos em frente à uma casa. Dylan subiu os degraus e foi em direção a porta. Enquanto eu e Peter continuamos na calçada.
-Vocês estão se tratando de uma forma tão diferente. Percebi isso desde de manhã. O que aconteceu? -Peter perguntou com o tom de voz baixo, para somente eu escutar.
-Não aconteceu nada. -Tentei sorrir. -Estamos normais.
-Acha mesmo que vou cair nessa? Posso ser uma criança, mas eu percebo as coisas e sei que vocês não estão bem.
-Depois eu te explico melhor.
A porta se abriu e uma mulher saiu de lá. Em seguida abraçou Dylan.
-Que saudades de você, menino. -O soltou e olhou para nós. -Eu imagino que vocês vieram aqui para o jantar. Ron achou melhor fazer lá na casa da Enid. Segundo o argumento dele, lá vocês teriam mais "privacidade", como se eu fosse atrapalhar a noite de vocês. -Balançou a cabeça em forma de negação. -Óh, você deve ser a Sofia, não é mesmo? Venha aqui, não sinta vergonha.
Subi as escadas junto com Peter.
-Meu nome é Jessie, sou a mãe do Ron. Já escutei bastante sobre você.
-Ah, é? -Olhei em direção a Dylan e o vi com a cara fechada. Sem expressão alguma.
-Sim. Ele tinha me falado que havia chegado uma menina muito bonita aqui em Alexandria. E que ficou morrendo de vergonha quando te viu. -Ela sorriu.
Maravilha. O que é que está acontecendo com os meninos hoje em dia?
-Ah, eu... -Coloquei meu cabelo atrás da orelha. -Obrigada.
Peter começou a rir.
-Agora é melhor irem, caso não queiram se atrasar. E mais uma coisa, não fale para o Ron que eu te contei.
-Sem problemas.
Descemos as escadas novamente e fomos em direção a casa da Enid.
-Dylan. -Peter o chamou e ele virou. -Por que você ficou com aquela cara de b***a quando aquela mulher falou do menino pra Sofia?
-Eu não fiquei com cara nenhuma. -Ele olhou para mim. -Eu só fico surpreso com a quantidade de garotos no pé dela.
-Fazer o que se ela é bonita.
Bagunçei seu cabelo e sorri.
-Obrigada, Peter.
Dylan revirou os olhos.
-É aqui. -Subimos e logo em seguida o garoto, acho que Ron, abriu a porta.
-Oi, estávamos esperando vocês. Venham podem entrar. -Entramos e ele fechou a porta. -Enid está colocando a comida na mesa.
Ficamos o seguindo até chegarmos na cozinha. Olhei para a mesa e estava tudo muito bem organizado.
Uma garota, de cabelo castanho liso, veio em nossa direção. Mas parou de andar assim que viu o Dylan.
-Oi. -Sorriu pra ele. -Como senti saudades. -Ela veio até nós e lhe abraçou. Ele ficou com os braços abertos, mas assim que viu que eu estava olhando para eles, ele a abraçou fortemente.
Isso porque segundo ele, não existia mais sentimentos.
Após se separarem ela me encarou.
-Olá. Sou Enid.
-Me chamo Sofia, muito prazer. -Ela veio até mim e me abraçou, dando um beijinho em minha bochecha.
-Eu ouvi muito sobre vocês hoje. Parece que são o assunto do dia. -Rimos. -Tem umas duas semanas que não chegava ninguém, deve ser por isso. Mas o maior destaque dessa conversa é como sobreviveram com apenas uma faca nesse tempo todo.
-Nós usávamos algumas coisas que encontrávamos. Tipo cabo de vassoura, vidro quebrado, e assim por diante. Muitas das vezes ficávamos dentro de um lugar durante quase o dia todo, já que tinhamos que manter Peter em segurança. Então essa a única maneira. -Falei.
-Você tinha um g***o? -Perguntou o garoto.
-Sim. Mas um imprevisto fez com que nos separássemos. Dylan se ofereceu para me ajudar a achar eles, mas já se passaram 3 semanas e nada.
-Sinto muito. Bom, mas você vai gostar daqui. Logo logo se acostumará conosco.
-Eu realmente estou torcendo pra isso. -Peter pegou em minha mão então olhei para ele que sorriu.
-Acho melhor comermos logo antes que esfrie. -Disse Enid.
Nos sentamos e ela começou a servir.
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-A comida estava uma delícia, foi você quem fez? -Perguntei para ela. Guardei a louça na pia e ela já ligou a torneira, começando a lavar.
-A mãe do Ron me ajudou bastante. Mas me conta, como encontraram aqui? -Virou sua cabeça em minha direção.
-Para falar a verdade, nem nós sabemos. -Ri de toda essa situação. -Só andamos e em um belo dia, Peter veio nos dizer que havia encontrado esse lugar. -Ela ficou em silêncio. -Eu tenho uma pergunta.
-Uma pergunta? -Desligou a torneira e se virou para mim por completo.
-Você e o Dylan, quando começou tudo isso?
Ela cruzou os braços e respirou fundo antes de começar a falar.
-Nós éramos apenas amigos, mas com o tempo foi surgindo novos sentimentos em nossa r*****o. Eu contei para ele que eu estava afim de mais que amizade e ele concordou. Mas como estamos a bastante tempo sem nos vermos, não sei como será daqui pra frente. -Ela se virou mais uma vez e enxugou o prato, o colocando para secar em seguida. -Eu o amo Sofia. Só ele é capaz de fazer meu coração ficar acelerado, de fazer eu ficar nervosa e ansiosa. Eu preciso conversar com ele. Mas não sei como. A última coisa que eu quero é que a gente termine.
Depois que terminou de guardar tudo na secadora, se virou para mim enquanto secava sua mão com o pano de prato.
-Ele voltou tão diferente. Aquele brilho nos olhos que ele tinha quando me via, simplesmente sumiu. -Suspirou. -E você não faz ideia de como eu quero que isso volte.
-Será que... bom, será que eu não posso te ajudar? Não sei.
-Faria isso? -Sorriu. -Ah, obrigada, Sofia. -Veio até mim e me abraçou. -Você não sabe o quão feliz estou.
-É claro que sei. Você quase me quebrou no meio. -Nós duas sorrimos e saímos da cozinha.
Assim que adentramos a sala, avistei os três sentados no sofá conversando.
-Acho melhor irmos. -Falei. -Está tarde e temos que levantar bem cedo.
Eles se levantaram e nos despedimos, indo em seguida para nossa casa.
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Assim que acordei, me levantei da cama e olhei ao redor. Peter ainda está dormindo e o sol ainda não saiu.
Dylan não está no mesmo quarto que nós, já que só tem duas camas de solteiro nos dois cômodos. Como Peter não queria dormir sozinho, fiquei com ele. Eu acho isso até bom, eu e Peter não estamos nos falando direito ainda. Eu vou respeitar o tempo dele, mas se ele começar a me ignorar ou me desprezar, aí tudo vai desandar.
Abri a janela e aproveitei para deixar o vento fresco adentrar o quarto. Olhei para cima e dei um suspiro.
-Nossa, eu já estava sentindo falta de fazer isso. -Respirei fundo.
A saudade tem apertando tanto ultimamente. Tudo que eu vejo me lembro dos nossos momentos juntos, pais. Igual semana passadaquando passamos em frente do Starbucks, me veio uma lembrança tão boa de quando eu tinha nove anos.
Flash Back on:
-Uau. Aqui é tão bonito, mamãe. Por que não me trouxeram aqui antes? -Perguntei olhando ao redor.
-Estávamos esperando o momento certo. Como já está grandinha, resolvi te trazer hoje para conhecer o lugar aonde eu e seu pai nos conhecemos. Foi aqui que tudo começou, aonde eu nunca imaginei que conheceria o amor da minha vida.
Fiquei olhando para ela, prestando bastante atenção em cada palavra. Eu sempre tive curiosidade de saber sobre isso. Fico feliz por saber que finalmente chegou a hora.
-Venha, vamos nos sentar. -Ela pegou em minha mão e saiu andando em direção a uma mesa. -Sabe filha, eu espero do fundo do meu coração que você encontre uma pessoa que te ame de verdade. Esse sentimento de ser amado é simplesmente tão... maravilhoso. Não quero que você seja que nem as outras meninas. Quero que você seja diferente, seja única. Seja aquela garota que todos os meninos um dia irão sonhar em ter. Você é tão linda, querida. E não deve ser tratada menos do que merece. Me promete que irá arranjar um namorado que te trate como uma princesa, que fale que te ama a quase todo momento e que seja uma pessoa boa?
-É claro que sim. Não vou te decepcionar, eu prometo. -Ela pegou em meu rosto e deu um sorriso.
Flash Back Off
-Eu nunca irei me esquecer desse dia. E pode ficar tranquila, eu irei continuar cumprindo minha promessa. -Senti meus olhos lacrimejarem. -Eu me arrependo das nossas brigas, as vezes brigavamos por coisas tão bobas e eu ficava quase o dia inteiro sem falar contigo. Me lembro da nossa última discussão.
Flash Back on:
-Chega Sofia. Você não vai nesse passeio e pronto!
-Mas por que? Por que a senhora tem que ser tão chata assim? Todo mundo sempre vai nessas coisas. Eu sou a única que fica em casa.
-Acontece que você não é todo mundo, Sofia Martinez. E se eu já disse que não, é não. Já chega de insistir, entendeu?
-Eu te odeio. -Subi as escadas correndo e bati a porta do meu quarto.
O que é que custa ela deixar eu ir nesse maldito passeio? Eu nunca vou, NUNCA. Eles não entendem que eu cresci e já sei me cuidar.
Bateram na porta então tampei meu rosto com um travesseiro.
-Filha, posso entrar? -Não respondi. -Filha, você tem que ser mais paciente com sua mãe. Tudo o que ela faz é para o seu bem. Jamais faríamos algo pra te prejudicar.
Me levantei e destranquei a porta, dando espaço para ele entrar. Ele se sentou no sofá que havia em minha janela e me chamou para sentar ao seu lado.
-Eu vou te explicar o por quê de não querermos deixar você ir só se você me dar um beijo na bochecha. -Ele fez uma cara muito engraçada e eu acabei rindo. Mas logo em seguida fiquei séria novamente e lhe beijei. -Assim não vale, tem que ser com gosto, foi muito superficial. -Revirei os olhos e beijei novamente. -Aah, agora sim.
-Vai, pode me contar.
-Então filha, ultimamente eu e sua mãe estamos meio que passando por... dificuldades financeiras. Nós estamos muito endividados. Como já começamos a planejar a sua festa, faltou dinheiro esse mês. É por esse motivo que não estávamos permitindo a liberação pra esse passeio. Eu já havia conversado com sua mãe e tínhamos decidido deixar. Mas quando você nos mostrou o preço, vimos que não daríamos conta de pagar.
Senti um peso enorme cair sobre minhas costas.
-Nós sabemos que você já tem 16 anos e sabe se cuidar, mas não tínhamos nem ideia de como contar para você. Você estava tão animadinha com a sua festa, que resolvemos guardar só para nós. Mas quando eu vi que você chegou ao ponto de dizer que odeia a sua mãe, eu vi que já tinha passado dos limites.
Abaixei minha cabeça.
-Peça desculpas a ela, filha. Como eu disse, ela só quer o seu bem. E eu também. Peça desculpas e lhe de um abraço bem forte. -Ele pegou em meu queixo e levantou meu rosto, fazendo eu olhar para ele. -Eu te amo.
-Eu também te amo. -Senti lágrimas escorrendo sobre minha bochecha.
-Agora vai lá. -Nos levantamos e saímos do quarto. Bati na porta do quarto de minha mãe e fiquei esperando ela abrir. Tudo ficou em silêncio então girei a maçaneta bem devagar. Assim que abri, pude ver ela deitada com o braço em cima dos olhos.
-Mamãe... -Ela olhou para mim. -Eu... eu quero me desculpar.
Olhei para seus olhos e vi que estavam vermelhos, provavelmente estava chorando.
-Eu não queria dizer aquilo. Eu não te odeio não, eu te amo. E... agora eu entendo o motivo de não querer me deixar ir. Me desculpa. Eu devia ter entendido. Olha, se não tiver como fazer minha festa, tudo bem, não tem problema. Eu vou entender e... -Antes de eu terminar de falar, ela me abraçou e começou a chorar em meu ombro.
-Você vai ter essa festa. E vai ser a melhor festa do ano. -Sorrimos e ela me abraçou mais forte. -Eu te amo querida, e nenhuma discussão será capaz de mudar isso.
Flash Back Off
-Nesse dia, eu aprendi a ser muito mais compreensiva. Aquele abraço, eu consigo sentir até hoje. -Sequei meus olhos e olhei para o céu. -O que me conforta é saber que vocês estão em um lugar melhor. Eu amo vocês e nada vai mudar isso.
Fechei a janela e me deitei novamente. Fiquei rolando por muito tempo mas finalmente peguei no sono.