-Escuta só, o que acha de irmos até aquele prédio ali? -Apontou. -Parece ser um lugar bom para passarmos a noite.
-Sim, é. -Tentei parar de pensar demais. Me levantei e fui até ele. Voltamos a caminhar.
-Não acha que esse ferimento vai piorar se você não limpar logo?
-Vou fazer isso assim que chegar em casa amanhã. -Sorri pra ele. -Não se preocupe.
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Assim que nos aproximamos o suficiente do prédio, olhei para cima, na tentativa de tentar adivinhar quantos andares possui.
-Eu vou na frente. -Dylan começou a falar. -Se acontecer alguma coisa, não quero que se preocupe comigo, apenas fuja.
Após concordar, ele abriu a porta do que aparentemente era um hotel antes de tudo isso.
-Não imaginei que estivesse tão destruído assim. Aqui deve ter sido um caos. -Falei.
As poltronas estão jogadas pelo chão, vasos de plantas quebrados, quadros sobre o chão, um verdadeiro desastre.
Dylan posicionou sua faca nas mãos e tomou a frente. Me abaixei e peguei um caco de vidro para caso algo venha em minha direção.
-Acha que eu não consigo defender nós dois, não é? -Perguntou sorrindo.
-Na verdade, é que por incrível que pareça, eu sei me defender sozinha. -Rebati.
Ele pareceu impressionado com a minha resposta e não falou nada. Assim que chegamos onde se dá inicio as escadas, quase desisti da ideia de subir. Tudo está completamente escuro.
-Talvez eu pense na possibilidade de dormir aqui embaixo mesmo. -Parei de andar.
-Então quer dizer que a senhorita sabe se defender sozinha mas tem medo de escuro. -Deu um sorriso vitorioso.
-Não tenho medo do escuro. Tenho medo do que posso encontrar nele.
-Bom, sendo assim, você pode segurar a minha mão, se preferir. -Olhei para sua mão estendida e neguei.
-Não, obrigada. Mas você pode ir na frente, o que acha?
Ele deu mais um sorriso e começou a subir as escadas, conforme fomos indo, pude sentir minha perna latejar e eu me forcei a não soltar um grito. Não lhe avisei sobre minha perna para ele não pensar que sou fraca, mas sinceramente, está doendo pra c****e.
Pude escutar ele abrindo sua mochila e retirou uma lanterna, que facilitou muito a nossa visão.
-Será que esse andar aqui já não está bom? -Respirei fundo para tentar controlar a dor.
-d***a, sua perna. Eu me esqueci completamente, Sofia.
-Nem está doendo tanto assim. -Forcei um sorriso. -É só que fico com medo de piorar.
-Claro, claro. Tem razão. -Ele parou de andar. -O que acha desse aqui? -Apontou para uma das centenas de portas.
-Acho que não temos outra alternativa. -Tomei a frente e abri a porta. Aqui dentro está bem parecido com a recepção, uma verdadeira bagunça. Olhei para ele e o mesmo está com a mesma expressão que eu.
-Bom... -Falou um tempo depois. -É melhor do que a rua, né?
Ri e concordei.
-Com certeza. Sem contar que é só por uma noite, então...
-Uma noite. -Repetiu.
-Você pode ir comigo se quiser. Garanto que eles te aceitariam numa boa.
-Você quer que eu vá junto? -Me olhou um tanto quanto surpreso. -É-É claro, Sofia. Isso seria muito bom. -Sorriu.
-Agora venha, vamos dar um olhada no lugar.
Cada um foi para um lado e eu preparei o caco de vidro em minha mão. Entrei em um quarto com um cheiro h******l. Assim que olhei ao redor, encontrei um corpo pendurado por uma corda que está em seu pescoço. Claramente foi suicídio.
-Eu imagino o quanto deve ter sido difícil pra você. -Falei pro corpo que já havia se transformado em zumbi.
Quando já estava prestes a dar a volta e sair desse quarto, escutei um barulho vindo da porta que contém aqui dentro. Caminhei lentamente até lá, tentando não fazer barulho. Assim que encostei meu ouvido na porta, escutei uma voz.
"Essa não, eles devem ter me ouvido."
Peguei na maçaneta e a girei bem devagar.
-Oi, -Falei enquanto abria. -garotinho. Eu não vou te machucar. Não estou armada e garanto que não vou te m***r. -Assim que a abri de uma vez, o encontrei sentado no chão com uma espada de plástico nas mãos. Ele deu um grito e se arrastou até a parede do closet.
-Por favor não me machuca, por favor não me machuca. Eu te dou qualquer coisa. Pode pegar meus carrinhos e meus bonequinhos.
-Eu não vou machucar você, já disse. Qual seu nome?
-Quem quer saber?
-Eu. -Falei como se fosse o óbvio.
-Só falo na presença do meu advogado. -Ele cruzou os braços.
Ri de sua inocência.
-Olha, estamos no fim do mundo, tá? Então basicamente é cada um por si. Os advogados não vão nos ajudar mais.
-É, eu sei. É que eu sempre via essa frase nos filmes e nunca tive oportunidade de dizer. Agora eu tive. -Ele sorriu de um jeito bem fofo.
-E então, vai me responder ou não?
-Eu também tenho uma pergunta. Se você me responder, eu te respondo. Fechado?
Arqueei as sobrancelhas. Ele é bem esperto pro seu tamanho. No máximo ele deve ter uns sete anos.
-Vamos lá então.
-Por que a sua perna está assim? Parece estar bem nojento debaixo da sua calça.
-Levei um tiro. -Falei simplesmente.
-Um tiro? -Ele abriu a boca em admiração. -Você deve ser bem corajosa.
Sorri e me sentei em frente a porta. Ele se aproximou mais, parecendo estar contente por enfim conversar com alguém.
-É a sua vez de responder a minha pergunta.
-Meu nome é Peter. -Sorriu. -E o seu?
-Sofia.
-E por que está em minha casa?
-Bom, é uma longa história. Mas posso te dizer que é porque estávamos buscando um lugar seguro para passarmos a noite.
-Então não está sozinha?
-Agora não. Estou com outro cara, ele está me ajudando a voltar pra casa.
Ele concordou e permaneceu em silêncio.
-Há quanto tempo está aí dentro? -Apontei com a cabeça.
-Não tenho certeza. -Pareceu pensar.
Quando estava prestes a falar mais alguma coisa, escutei me chamarem.
-Aí está você. Eu encontrei isso aqui pra a gente comer e... -Olhou para trás de mim. -Ah.
Me virei para Peter mais uma vez e o vi se encolher para o fundo.
-Esse é o Peter. Ele está aqui desde quando tudo isso começou. -Falei.
Dylan sorriu.
-Bom, eu encontrei comida. Você vem?
-Estou indo. Obrigada. -Assim que ele saiu, me voltei para o garoto. -Vamos comigo?
Ele abriu uma das gavetas que tem aqui e me entregou um pacote de biscoito.
-Toma, tem bastante. Eu guardei toda comida.
O agradeci e me levantei. Assim que ele se levantou também, ficou encarando o zumbi pendurado.
-Era o meu irmão. -Falou em seguida.
Me virei para ele, completamente supresa por sua naturalidade. Ele não parece abalado por ver essa cena.
-E você não fica m*l por ver isso?
-Não mais. Esse não é ele, Sofia. Ele já está morto.
Para uma criança, ele é muito esperto.
-Eu não consegui ver os meus pais. -Falei assim que saímos do quarto.
-Como perdeu eles?
-Meu pai foi logo após sairmos de casa. Ele foi mordido no meio da multidão. Já a minha mãe foi em minha casa. -Respirei fundo. -Ela só queria me proteger.
-Eu perdi a mamãe logo no começo também. Ela abriu a porta assim que escutou todo mundo gritando e correndo em direção as escadas. Nessa hora uma daquelas coisas conseguiu entrar aqui e mordeu ela. Eu e meu irmão ficamos assustados demais e nos prendemos no quarto.
-Se ele estava com você, por que se matou? -Chegamos na cozinha e vi Dylan olhando os móveis da casa.
-Acho que ele não aguentou a pressão. Ele tinha me falado que ia ver se aqui fora estava tudo bem mas não voltou mais. Eu saí para ver se encontrava ele e me deparei com aquilo.
-Eu imagino o susto que você deve ter levado.
-É, não foi fácil. Eu tive v*****e de fazer o mesmo. Mas fiquei com medo...
-Você é muito forte pra sua idade, sabia? Eu achei que nunca mais iria encontrar uma criança.
Ele sorriu.
-Eu só estou vivo até hoje, graças ao Bilu.
-Bilu?
-Meu ursinho. Ele que veio me fazendo companhia. Era meio solitário sabe? Ele não me respondia mais. Parecia que eu estava falando sozinho. Acho que ele está hibernando. -Ele colocou a mão no queixo pensando.
Ri ao me lembrar de que quando eu era menor também possuia uma girafa de pelúcia que eu podia jurar que falava comigo. Assim que eu cresci, me dei conta de que tudo aquilo era fruto da minha imaginação.
É claro que eu não vou dizer isso a ele, até porque ele ainda é uma criança.
-Eu vou lá buscar ele, espera aí.
Assim que ele saiu correndo, Dylan começou a falar.
-Ursinho que fala? -Perguntou rindo. -As crianças tem cada imaginação.
-É bom, pelo menos ele não fica só pensando em morte e vingança. -Mordi um pedaço do biscoito.
-Aqui. -Disse Peter. -Esse aqui é o bilu.
É um ursinho azul com um lenço amarelo no pescoço.
-Ele é uma graça. -Sorri.
-Olhem! -Foi correndo até a enorme janela de vidro. -O sol está se pondo.
Fui até ele e fiquei ao seu lado, admirando essa beleza natural.
Involuntariamente comecei a pensar em Carl. O que será que ele está fazendo agora? Será que está me procurando?
-Tudo bem? -Perguntou o garotinho. Me virei para ele e sorri.
-É claro. Eu só estava pensando um pouco.
-No seu namorado, né? -Ele riu, como se tivesse descoberto a melhor coisa do mundo.
Não o respondi e isso apenas confirmou a sua pergunta.
-Meu irmão também tinha uma namorada. Uma vez eu entrei no quarto dele sem bater e peguei os dois se beijando. Ela tava em cima dele e aí...
-Não precisa continuar. -Olhei para Dylan que estava quase morrendo de tanto rir e não aguentei também. -Você contou pra sua mãe?
-Não, ele ficou uma semana fazendo o que eu queria, só pra eu não contar. Mas até agora eu não entendi, o que eles iam fazer? Mamãe me explicou que não podia ficar no quarto com uma menina, o que ele fez tava muito errado. É tão nojento, como vocês fazem isso? -Ele perguntou fazendo uma careta.
-Alguma hora você vai passar a gostar, rapazinho, até porque é muito bom. Ela vai chegar em você e vai meter a língua dela na sua boca e...
-Dylan! Para com isso. -Tampei os ouvidos de Peter.
-Meter... A língua? -Ele olhou espantado para nós.
-É. Você já tem que aprender agora, pra quando ficar maior, pegar todas. -Disse Dylan.
-Ei, não ensine isso. Peter, você vai fazer isso na hora certa e no tempo certo. Você é muito novinho ainda.
Ele concordou.
-Você já fez isso? -Perguntou me olhando curioso.
E agora? Como respondo essa pergunta? Até porque eu não vou ficar falando da minha vida pessoal com duas pessoas que acabei de conhecer.
-Bom, acontece que... -Me embolei. -É...
-É claro que ela já faz isso. -Dylan tomou a palavra. -Ela só estava com vergonha de falar em voz alta.
-Eu... -Desisti de tentar falar com eles e fui em direção a saída da cozinha. Assim que saí, ainda deu tempo de escutar a risada de Dylan.
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Agora deve ser por volta das dez da noite. A porta está trancada e as janelas fechadas. Limpamos um quarto e decidimos dormir juntos, é mais seguro.
Vou dormir na cama de casal com o Peter e Dylan no chão. Infelizmente a casa não tem água então nem tomamos banho. Nesse momento estamos todos deitados e está um silêncio h******l. Fechei os olhos e comecei a cantarolar baixinho a música do Ed Sheeran que eu ainda me lembro.
Me virei e peguei no colar que estava na cabeceira da cama.
Quando me dei conta, já estava pensando novamente em Carl. Ele faz tanta falta. Com certeza agora estaríamos conversando sem ver as horas passar. Se Carla estivesse viva, estaria super feliz em nos ver separados.
Me deitei novamente. Preciso me forçar a dormir, até porque estou sentindo que amanhã será um grande dia.