Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Mia Clark
Havia acabado de acordar, por um triz eu não joguei o meu celular na parede. Acordar com o barulho do despertador é umas das coisas que eu mais odeio em minha vida, a melhor parte do meu sono é o da manhã, mas eu precisava me levantar para ir a universidade.
Fui aceita. Estudei horrores, abri mão de meses sem festas e coisas normais de adolescentes, isso tudo para passar na prova e conseguir ganhar a bolsa de estudos no MIT. Não foi fácil, mas eu planejei muito para conseguir.
Meus pais faleceram quando eu ainda era muito pequena e a minha tia paterna ficou responsável por mim, no início ela até me tratou bem, mas isso não durou por muito tempo. A verdade é que Clarice não me suportava, só quis ficar com a minha guarda para se apossar da herança que os meus pais deixaram.
Eu não consegui me adaptar a vida com ela e consequentemente não nos demos bem. Há um ano atrás eu saí da casa dela, depois de anos sofrendo pressão psicológica e opressão da pessoa que deveria me proteger.
Consigo me manter. Não é como se eu fosse rica, mas para alguém da minha idade que vive completamente sozinha eu acho que me viro muito bem. Eu trabalho em um mercado no centro, faço alguns designs e no meu tempo livre trabalho em um livro que sempre quis escrever.
Ler sempre foi uma das minhas maiores paixões e ouvir músicas com certeza faz parte delas, é um universo onde eu me perco ao mesmo tempo em que me acho. Simplesmente quando leio, me sinto em casa.
Levantei da cama sentindo minha cabeça latejar um pouco, tudo o que eu mais queria nesse momento era dormir um pouco mais. Fui direto para o banheiro, fiz minha higiene pessoal, tomei banho, vesti um conjunto de lingerie e coloquei uma calça flare jeans, acompanhada de um cropped branco.
O meu guarda roupa compunha alguns looks decentes por mais que a maioria das peças fossem de brechó, eu não tinha muito dinheiro sobrando em minha conta para gastar com coisas que não eram de extrema necessidade.
Isso me fez repensar o quanto gasto com livros, mas sim, ler é uma necessidade básica.
Tinha recebido um milhão de ligações da Victoria, quando eu fui fazer a minha inscrição na universidade eu tive a sorte de conhecê-la. Nos primeiros momentos em que nos vimos foram puros olhares de deboche, mas passaram-se apenas alguns minutos de conversa para que nos tornássemos amigas.
Ela é doidinha, conhece quase todo mundo, não se definiria como popular, mas é uma pessoa bem sociável. Somos completamente o oposto uma da outra, gosto de ficar na minha e vou fazer o possível para não causar transtorno e por em risco o que eu lutei tanto para conseguir.
Saí do quarto e fui para cozinha, preparei ovos mexidos, comi com uma torrada e um copo de leite. Eu não curtia muito comer coisas pesadas pela manhã, eu só comi algo porque estou tentando ser mais saudável. Agora que vou sair da universidade para o trabalho vai ser bem mais difícil me alimentar direito.
Eu m*l conseguia ter tempo para mim quando estudava em casa e agora conciliando universidade e trabalho então…
Assim que terminei de comer me levantei, tirei o prato da mesa e o lavei. Voltei para o quarto e dei uma última olhada em mim mesma no espelho.
Estava tudo ok.
Peguei a minha mochila em cima da cama e saí de casa, hoje eu iria pegar um táxi, não seria todo dia assim até porque eu tinha que economizar. Uma das piores coisas de ser órfão e morar sozinha ainda na adolescência é que qualquer coisa que você precise só você mesmo vai poder suprir.
Eu não tinha a menor condição de pedir algo para minha tia, eu nunca faria isso. Não depois de ter escutado a minha infância inteira ela falar o quanto era um fardo na vida dela.
Eu não consigo encarar Clarice como família, nem mesmo como parente. Ela simplesmente acabou com toda a herança dos meus pais me deixando sem nada.
Eu sempre senti tanto a falta deles em todas as etapas da minha vida, nem ao menos lembro da voz dos dois, eu era muito pequena quando o acidente aconteceu. Tudo o que me restou foram fotos e memórias vagas.
O acidente foi trágico, eu sonhava com aquele fatídico dia praticamente todas as noites. Todos me dizem que eu estava presente, mas não consigo me lembrar de muito. As vezes sonho com um menino me tirando de dentro do carro, nunca consegui ver o seu rosto.
Sai dos meus devaneios quando vi o táxi se aproximando.
— Táxi! — Gritei.
O carro parou bem na minha frente. Coloquei a mão no peito aliviada, eu chegaria bem na hora. Seria trágico me atrasar no meu primeiro dia.
Olhei para o outro lado da rua de soslaio, um cara em uma moto preta chamou a minha atenção. Ele estava me olhando do outro lado da rua, por conta do capacete eu não conseguia ver o seu rosto. O homem vestia uma jaqueta de couro preta, sua calça e o coturno eram da mesma cor.
Era incrível como eu não conseguia vê-lo por completo, mas ainda assim tinha a certeza de que ele era lindo.
— Moça? — O motorista do táxi me tirou do meu transe.
— Oh, me desculpe. — Murmurei envergonhada.
Entrei no táxi me acomodando no banco de trás e passei para ele o endereço. As ruas de Boston estavam agitadas, tanto quanto eu.
Foram cerca de vinte minutos até finalmente chegar na universidade, meu coração estava saltitando de tanta alegria. Foi uma vitória ter conseguido estudar aqui, essa é uma das melhores faculdades do mundo.
Desci do táxi e fiquei no estacionamento mesmo, mandei uma mensagem para Victória, esperava encontrá-la antes da minha primeira aula.
Eu conhecia um pouco da universidade, mas não tanto e acredito que teria uma facilidade enorme em me perder nos corredores.
Me sentei embaixo de uma árvore com o celular em mãos esperando a resposta da minha amiga. O ronco do motor tirou a minha atenção do celular vendo a moto preta estacionar, era ele. Mordi o lábio inferior assim que o homem tirou o capacete, mas fiz questão de desviar o olhar assim que o dele se encontrou com o meu.
Eu tinha certeza que era lindo mais cedo, mas eu não achei que fosse tanto. Esse garoto facilmente poderia ser a definição de perfeição.
Os seus olhos azuis tinham domínio sobre o meu.
Ele exalava poder, conseguia ser elegante mesmo tendo aquela postura de badboy.
— AMIGA! — Victoria vinha correndo em minha direção.
Senti o impacto do seu corpo ao meu e quase caí de costas para para trás. Eu disse que ela era maluquinha. Me levantei do chão e sorri para ela.
— Animada para o seu primeiro dia, caloura? — Perguntou com um sorriso nos lábios.
Ela já estava no segundo período e ficou encarregada de me contar como as coisas funcionavam por aqui, eu tinha noção de como era o primeiro período. As coisas que aconteciam com os calouros nas festas da fraternidade e pra ser sincera, eu acho que não iria a nenhuma.
Não só porque eu não quero, mas também tenho que trabalhar.
— Bom, sim! — Olhei para trás e vi que o motoqueiro já não estava mais lá. Apontei para a moto e virei o meu olhar novamente para Victoria.
Nem precisei perguntar.
— Michael Owen. Ele está no último período e você não vai querer conhecê-lo. Ele não tem amigos e é um dos melhores pilotos de corridas ilegais. Esqueça! — Ela me encarou séria e eu engoli em seco.
Tudo bem, pelo visto boa coisa não é.
Confesso que aquela resposta ainda não supriu as minhas dúvidas, só me fez ter mais. Mas, por hora eu me contentaria em conhecer a minha nova segunda casa.
— Tudo bem. — Falei suspirando. — Vamos lá? — Ela concordou.
Victoria me mostrou cada canto da Universidade, eu tinha chegado um pouco antes, justamente por isso.
Ela me apresentou um dos seus amigos, Jeremiah. Nós estávamos conversando no corredor, eu estava encostada na parede quando vi Michael me encarando a uma boa distância. Seus olhos não saiam de mim, aquilo me incomodou ao ponto de eu ser a primeira a desviar o olhar.
— Mia? Você vai? — Jeremiah perguntou.
— An? — Fiz uma careta ao perceber que não tinha escutado nada do que ele tinha falado.
— Vai ter uma festa de iniciação dos calouros esse final de semana, você vai, não é? — Sorri meio sem graça.
— Ah, não sei, acho que vou trabalhar esse final de semana. — Falei.
Deus
Me
Livre.
Não posso imaginar as coisas que acontecem nessas festas de iniciação.
[...]
Fechei o caixa, já estava no fim do meu expediente e eu estava pronta pra fechar o mercado quando ele entrou. O Owen parou bem na minha frente e me encarou por alguns minutos, desviei meu olhar sentindo algo em mim queimar.
— Estamos fechando. — Murmurei. Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Ele não me respondeu, simplesmente passou pelas prateleiras até o fim da loja onde ficava a geladeira expositora e voltou com uma cerveja na mão. Ele me encarou sem dizer nem uma palavra e deixou o dinheiro na bancada, saindo em seguida.
Bufei irritada.
Abri o caixa novamente e guardei o dinheiro.
O mercado não era muito grande, nós tínhamos cinco funcionários, mas a maioria saia um pouco mais cedo ficando apenas só um já que o horário era pouco movimentado e hoje foi a minha vez.
Eu sabia que era meio azarada, mas hoje vi que não era pouco.
O centro não ficava muito longe da minha casa e como eu já tinha gastado o dinheiro com táxi pela manhã, resolvi ir a pé.
Deixei a loja toda certinha e caminhei lentamente pela calçada.
Eu estava a poucos metros da minha casa e assim que ia atravessar a rua, uma moto passou em alta velocidade na minha frente. Não fui atingida, mas o susto me fez cair de b***a no chão.
Escutei o barulho brusco da roda no asfalto, quem quer tenha sido, parou a moto. Eu havia ralado um pouco a mão para tentar amenizar a queda e estava ardendo um pouco.
Encarei o coturno bem na minha frente e fui subindo o olhar, não acreditei assim que vi aquele i****a. Era a segunda vez no dia que ele dava um jeito de piorar a minha vida.
O i*****l não teve nem a decência de tentar me ajudar.
— Filho da p**a! Você não olha para onde passa com essa sua caranga?
— Segura essa sua língua antes que fique sem. — Foi a primeira vez que escutei a sua voz.
Me levantei com cuidado, senti uma dorzinha na perna, mas tentei ignorar.
— Babaca! — Murmurei baixo, para que só eu ouvisse.
Comecei a caminhar lentamente, por consequência da dor eu creio que eu estivesse andando igual uma pata manca. Tudo culpa do i****a do Owen.
Olhei para trás vendo ele seguir em direção a moto, com toda sua prepotência ele subiu e deu a volta parando bem na minha frente com uma manobra rápida.
— Qual é garoto? Você quer me matar seu psicopata? — Vi ele travar o maxilar assim que escutou a última palavra.
— Sobe! — Praticamente rugiu.
Não respondi. Dei um passo para o lado tentando sair dali e ele agarrou o meu braço com força, eu tinha certeza de que aquele aperto deixaria marcas.
É, com certeza ele realmente era um psicopata.
Eu grunhi baixinho pela dor e senti uma lágrima involuntária descer pelo meu rosto.
— Eu mandei subir, se eu tiver que repetir vai ser bem pior para você! — Ele deixou bem claro e eu não estava louca de contrariar.
Subi na moto, ele deu partida em alta velocidade me fazendo agarrar na cintura dele.
Na minha cabeça eu xingava o Owen de todos os palavrões possíveis.
Se tem uma palavra que define bem esse garoto é imbecilidade.
Rodamos a cidade até chegar em uma área mais nobre, estava ficando tarde e o vento em contato com a minha pele me fazia ficar arrepiada.
Ele entrou em um condomínio de luxo, na hora eu pensei na merda que eu fiz ao subir naquela moto. Eu deveria ter corrido, eu já estava até pertinho de casa. E se ele realmente fosse um psicopata?
Ele parou a moto em frente a uma casa, as paredes eram pretas com detalhes brancos por toda a frente da casa.
— Desce. — Ele murmurou.
Fiz o que ele mandou. Ele também desceu da moto e seguiu em direção a entrada da casa, abriu a porta e ficou me encarando. Eu estava parecendo uma retardada parada, sem esboçar nenhuma reação, a casa dele era linda, mas o que eu mais estava pensando é em que merda ele faria comigo.
Suspirei. Dei o meu primeiro passo indo de encontro ao Michael e passei por ele entrando na casa.
Michael fechou a porta e cruzou os braços me olhando de cima a baixo.
— Senta. — Ele apontou para o sofá.
Eu estava parecendo uma cadelinha obedecendo tudo o que esse i****a mandava.
Caminhei em direção ao sofá e me sentei.
— Agora sim, menos arisca. Sabe, Mia... — Ele parecia saborear o meu nome enquanto falava. — Você vai ter que ser uma boa menina, talvez assim o estrago seja menor.
Ele retirou a blusa, não deixei de arregalar os meus olhos surpresa.
Ele tinha um p**a corpo. Com certeza ele dedicou anos da vida à academia, que shape. Ele caminhou na minha direção como se eu fosse uma presa fácil.
— Nem pense seu i****a, eu te mato antes que você tente. — Murmurei apontando para o rosto dele.
Mas na verdade eu estava me cagando de medo.
Ele se aproximou deitando o corpo por cima de mim, mas apoiando as mãos no estofado do sofá.
Owen estalou a língua no céu da boca, fazendo um barulho de "tsc, tsc, tsc" e sorriu de canto me encarando com deboche.
— Seu corpo não me atrai. — Ele murmurou saindo de cima de mim e rindo. — Mas se eu quisesse,tenho certeza que você iria querer em dobro. — Ele pareceu imaginar. — Eu meteria tão fundo na sua b****a, você me imploraria para gozar. Nunca me aguentaria.
Ele me chamou de fraca? Esse i****a me chamou de fraca?
Bufei contendo mil e um xingamentos.
Michael deu dois tapinhas no meu rosto me fazendo encara-lo, que audácia.
— Se não quiser se machucar mantenha distância, não me irrite, fique na sua. — Ele falava me sentindo olhando com nojo.
— "Mantenha distância" Foi você quem me trouxe para cá, seu merdinha! — Praticamente gritei.
Michael voltou para perto de mim marchando e apertou minha mandíbula com força.
— Eu tô doido para arrancar essa sua língua, ragazza. — Ele falava italiano.
Seu sobrenome era americano, ao menos o que eu sabia era.
Michael Owen realmente era um segredo a ser desvendado.