Foram muitas horas de vôo mas eu estava feliz, acordei ainda meio zonza e sorri encarando a janela, a primeira coisa que teria que fazer depois de arranjar um lugar para ficar seria arrumar um trabalho. Também daria um jeito de procurar Rosalie e as gêmeas, Bhav com certeza faria delas uma ferramenta para me encontrar.
Ouvi um ruído de uma música h******l, quando olhei para o lado tinha um homem grande com roupas sociais pretas, sua cabeça estava deitada no encosto e em seus ouvidos havia dois fones enormes. Era rock metal isso que ele estava ouvindo?
Cutuquei seu ombro. Ele nem se quer se mexeu. Cutuquei de novo, nada. Não era possível! Resolvi beslicá-lo, seu rosto se franziu em uma careta e aí ele abriu os olhos, arrancando o fone e se virando para mim.
— Pois não? – Perguntou com ironia. Eu conhecia aquele homem, era o abusado que me abordou do lado de fora do restaurante há algumas semanas.
— Sua música está muito alta. – Reclamei.
— Agradeço por se preocupar com minha saúde auditiva, mas eu já sabia desse fato. – Ele estava sendo debochado. Cruzei os braços.
— Eu não me preocupo. Você está me incomodando.
— Eu estaria incomodando se estivesse ouvindo em um alto falante, o que não é o caso.
— Pois para mim é a mesma coisa. Devia respeitar as pessoas.
O abusado esfrega a barba curta e bem feita antes de rir.
— Não basta o problema com a companhia aérea e ter meu acesso a classe A cancelado, eu tinha que ser colocado na classe econômica com alguém como você. Eu devo estar pagando meus pecados.
Eu bufei, soltando um riso anasalado e virando o rosto.
— Ah, claro. O riquinho está com probleminhas no acesso a classe A, uma pena, pois para mim quanto mais longe o senhor pudesse estar dos meus ouvidos melhor!
O som abafado do riso dele me irritou tanto que tive vontade de mudar de lugar. Infelizmente ainda tinha quase dez horas de vôo pela frente.
— O pior de tudo é que tenho a desagradável sensação de que te conheço. – Olhei para ele, estava pegando o celular para olhar alguma coisa.
— Infelizmente está certo. Você é o mesmo intrometido que me abordou na saída do restaurante há algumas semanas. – Ele perdeu o interesse pelo celular assim que mencionei aquela noite. O abusado até cruza uma das pernas, agora parece bem interessado em mim.
— Você é a garota do encontro r**m. Faz sentido. – Sua expressão se enche de reconhecimento. — Aposto que teve outras noites ruins depois daquela, não é? Cá entre nós estava escrito na testa daquele cara que ele era péssimo. Se é r**m entretendo uma mulher em um simples jantar imagino como deve ser fazendo...
— Isso não é da sua conta! – Retruquei irritada, ele estava sendo intrometido de novo. — Só quero que faça silêncio.
— Será possível que esse casalzinho de jovens aí não vai parar de fazer barulho? – Uma velhinha resmungou na poltrona do outro lado do avião, a maioria dos passageiros estava dormindo.
— Desculpe vó, estou tentando dizer a ela que não precisamos brigar. Ela está assim desde que acordamos hoje, a noite não foi muito boa, sabe.
— Você está certo, meu jovem. Não precisam brigar. – A velhinha ajeitou o casaco. — Se vocês se amam vão se acertar.
Cobri o rosto com uma mão, o b****a ao meu lado me olhou rindo da situação. Mostrei uma carranca irritada a ele, o i****a não se abalou nem um pouquinho, peguei meu celular e tentei colocar os fones de ouvido. Ele puxou um dos fios.
— Se eu não posso usar você não também não pode. Direitos iguais, não é o que as mulheres querem hoje em dia?
— Eu não acredito nisso! Por que te colocaram aqui? – Ele suspirou, cínico.
— É uma coisa que eu também queria saber. – Disse ele, eu cruzei os braços e virei meu rosto para a janela, talvez olhar para as nuvens fosse me acalmar. — Você é sempre assim m*l humorada?
Eu ri, negando com a cabeça, parecia que Bhav tinha me espraguejado tanto que eu estava sendo castigada por ter fugido, ou talvez fosse mau agouro do próprio Isaac. Encarei o ser irritante sentado ao meu lado.
— Você é sempre assim insuportável? – Ele ri, se ajeitando na poltrona.
— Sabe de uma coisa, você é engraçada. Eu estou em um maldito vôo de mais de 20h na classe econômica, minha poltrona não é confortável o bastante para alguém da minha altura e não tenho o mínimo de privacidade. Mas você conseguiu superar meu m*l humor. Incrível. Ainda não sei seu nome.
— Nem vai saber! – Respondi dando as costas para ele, virei para a janela mais uma vez e fechei meus olhos com força me forçando a dormir.
Eu não podia acreditar, ele tinha ligado a tv individual, mas pelo menos o volume estava baixo, me concentrei em coisas que me deixam calma. Lembranças de viagens que fiz na infância, o vai e vem das ondas do mar e outras coisas até pegar no sono.
Eu tive um sonho h******l enquanto dormia, de novo eu estava sendo perseguida e dessa vez pelo próprio Bhav, não consegui fugir a tempo e o vi ameaçar as gêmeas com uma faca, eu não via os rostos mas via ele atentando contra a vida delas. Acordei assustada e nem tive tempo de me aprumar, já estávamos pousando, eu dormi muito pois o cansaço dos últimos dias misturado com a tensão dos últimos acontecimentos me fizeram quase desmaiar. O intrometido ao meu lado não disse mais nada, mas meu coração estava de novo acelerado e eu estava tensa, eu tinha que achar as meninas antes dele.
Quando desembarcamos o intrometido seguiu o caminho dele sem dizer nada, ele devia ter dinheiro pois teve prioridade na fila e logo desapareceu na multidão. Minhas mãos ainda estavam tremendo quando entrei na fila da imigração do aeroporto na Carolina do Sul. Ainda não acreditava que finalmente tinha conseguido, eu fugi.
Não sem alertar Bhav e ter que vencer uma perseguição implacável de seus seguranças contra mim, mas ainda assim eu fiz. Meus cabelos estavam um pouco despenteados pelo tanto que dormi, minha mente ainda estava atordoada e o desespero ainda estava estampado bem na minha cara por causa do meu pesadelo.
Quando chegou minha vez apresentei meus documentos ao agente migratório, incluindo a reserva que fiz há alguns dias em um hotel local e a minha passagem de volta. Eu não planejava voltar, mas sabia que não passaria na imigração sem isso. Estava demorando mais que o normal para me liberarem e já ia argumentar quando meu passaporte foi entregue a um outro agente.
De repente dois homens uniformizados se aproximaram de mim.
— O que está acontecendo? – Busquei o agente migratório com o olhar, o mesmo estava impassível dentro da cabine, como se esse fosse o dia mais tediante da sua vida.
— Está detida. – Um dos brutamontes segurou meu braço já me algemando e me carregando para longe sem nenhuma gentileza. Eles me levam abruptamente, como se eu fosse um animal ou menos que isso.
— Por favor, me escutem, por favor. Tem alguma coisa errada! – Eu sacudi os pés que quase não alcançavam o chão já que os agentes eram altos. Eles estavam me levando para um tipo de cadeia. O lugar era h******l e deprimente, as pessoas pararam de prestar atenção em si mesmas para me olhar. Muitas estão com um uniforme cinza largo e esquisito. — Me digam o que está acontecendo? Isso é um m*l entendido, eu garanto que posso resolver. Ai, está me machucando!
Gritei para um deles, fui literalmente jogada em uma cela lotada de mulheres e crianças. Pelo menos não tinham homens ali.
— Você não está na sua casa, se quer ser bem tratada volte para onde veio e nunca deveria ter saído. – Foi tudo que disseram antes de me deixarem atrás das grades, fiquei horas agarrada às barras de ferro em completo estado de choque, minha mente parecia travada, meus olhos perderam o foco e as lágrimas se acumularam embaçando minha visão.
O que tinha dado errado? Porque me trouxeram para cá? Eu tinha feito tudo certo.
Passei 14 dias infernais presa naquele lugar, minhas roupas, bolsas com todas as jóias e dinheiro, documentos e cobertores nunca foram devolvidos. Passei fome e frio na maior parte do tempo, desmaiei duas vezes, assisti mães passarem o mesmo junto com seus filhos. Passamos dias sem sequer poder tomar um banho, seríamos todos deportados, se eu já estava m*l antes, ver a ameaça de ser levada de volta para as garras do meu pai fez meu mundo desabar de vez.
Eu não posso voltar.
Por que isso estava acontecendo comigo? Como estariam as gêmeas agora? Depois de duas semanas finalmente conseguiram um vôo de volta para a Índia e na fila antes do embarque eu chorei desesperadamente, chorei até não ter mais lágrimas e poder pensar com frieza, estava sem forças mas eu tinha chegado até aqui e preferia morrer do que voltar para Nova Delhi.
Ao nosso redor as pessoas iam e vinham, homens engravatados em seus ternos caros e vidas ocupadas ditando ordens ao telefone, mulheres bem vestidas e equilibradas em seus saltos altos e finos digitavam ferozmente em seus tablets. Tinha uma equipe de reportagem filmando não muito longe da fila, não era o bastante para que a gente saísse na TV, mas eu tive uma idéia. Gritei o mais alto possível e fingi estar passando m*l, exigi ir ao banheiro, fiz um grande escândalo. Eu queria fazer o aeroporto parar e consegui por alguns minutos, vi as pessoas me olhando com pena e a repórter parar de gravar sua matéria.
Um policial me arrastou pelo braço até a entrada do banheiro feminino, ele abriu a porta e me jogou com força, me fazendo cair de joelhos. Demorei a conseguir me levantar, aproveitei que já estava no chão para chorar. Meu sofrimento no meu país não tinha sido suficiente, eu perdi minha mãe, fui obrigada a me casar com um homem qualquer... Eu tinha que ser presa, xingada e humilhada aqui enquanto tudo que tentava fazer era ir em busca da minha liberdade?
Encarei o chão sujo do lugar, minhas unhas estavam escuras pela sujeira acumulada dos dias, eu nunca tinha chegado a um nível tão baixo como aquele. A claridade adentrava os vitrais por onde entrava ventilação natural mas não chegavam ao meu coração. Eu era só escuridão há muito tempo.
Estava decidida a arrancar aqueles vitrais e me espremer até passar por eles quando uma mulher entrou no banheiro, seus saltos ecoaram enquanto ela me rodeou até parar bem na minha frente. Me senti m*l, o perfume dela era fresco como o de uma nova manhã enquanto eu estava há dias sem um único banho, o vestido de grife se moldando ao corpo fazia meu blusão e calça larga parecerem panos de chão.
Mas aí ela sorriu para mim.
— Hoje é seu dia de sorte. – Olhei para ela sem entender, se eu estivesse em meu estado normal faria com que ela engolisse aquele sorriso. Mas nada está normal, não depois de uma temporada na porta do inferno.
A morena se distrai com o próprio reflexo no espelho, mexe nos cabelos longos e retoca o batom enquanto eu continuo prostrada.
— O que está dizendo? – Sussurrei. Meus punhos se fecharam com força. — Está debochando de mim?
Gritei para ela, a desgraçada riu.
— Estou dizendo que podemos resolver seu... probleminha de imigração. – Ela fala com tédio, mas ouvir isso faz meu peito arder pelo vislumbre de uma última esperança. — Basta que esteja disposta a cooperar.
Eu afirmo, afirmo fortemente com a cabeça mesmo antes dela terminar.
— Eu faço qualquer coisa. – A morena mostra um sorriso artificial, mas mesmo assim muito bonito.
Eu m*l sabia que era o começo do meu pesadelo.