CASAMENTO

1799 Palavras
Maya. O tão fatídico dia tinha chegado, o casamento. A comemoração por aqui durava pelo menos três dias, alguns chegavam a durar uma semana mas Isaac insistiu pela curta duração, disse que tinha pressa em se casar comigo. Eu estava tensa porque tudo teria que sair do jeito que planejei, mas para isso eu precisava parecer conformada. O dia começou cedo, Asha me ajudou a me arrumar, Isaac e a família já estavam na sala de estar para os rituais de purificação. Eu estava em uma kurta amarela, uma veste típica mais parecida com uma bata até a altura dos joelhos, além de uma churidar, uma espécie de legging com dobras nas pontas na mesma cor, para finalizar a dupatta amarela descia como um lenço da minha cabeça até o colo. Ainda haviam jóias grandes nas minhas orelhas e dedos, ao descer ainda dividimos a mesa com toda aquela gente para fazer a primeira refeição do dia. Isaac passou o tempo todo me olhando, era a primeira vez que me via usando uma roupa típica, só depois da alimentação começou o haldi. Haldi significa cúrcuma, depois de nos sentarem em duas cadeiras lado a lado, os convidados fizeram a pasta com a especiaria e passaram em nós usando folhas de mangueira enquanto dançavam e cantavam animadamente. A maioria das pessoas na minha casa eram estranhas, meus únicos conhecidos eram Bhav, Asha e sua família. O ritual durou a manhã inteira. A tarde tudo que eu queria era descansar, mas era hora do Mehendi, outro costume onde as mulheres da família tinhas suas mãos e braços decorados com henna. Mais uma vez me senti desconfortável, não conseguia fingir que estava feliz, eu me sentia uma estranha em minha própria casa já que a maioria aqui era família de Isaac, em certo ponto senti pena dessa gente. Eles estavam felizes, m*l sabiam o que aconteceria em breve. O desenho em minhas mãos e braços foi o mais elaborado e demorado, a profissional tinha uma tranquilidade contagiante e fez questão de esconder o nome de Isaac entre os desenhos para que ele o encontrasse na noite de núpcias. A noite o sangeet aconteceu no jardim, uma enorme tenda foi montada para o ritual que funciona como uma despedida de solteiro. As famílias e amigos cantam e apresentam números de dança, inúmeras fotos foram tiradas. As primas de Isaac pareciam eufóricas, vi Asha conversando com um amigo de Isaac em algum momento. Tinha pessoas conhecidas de Bhav aqui, famílias de sócios e gente com quem ele convivia no trabalho, meu pai não queria que parecesse que não tenho amigos por mais que seja essa minha realidade. Fui dormir tarde e no segundo dia, considerado o mais importante por ser a oficialização da cerimônia foi exigido muito mais de mim. Me senti uma boneca enquanto era arrumada em uma lehenga vermelha extravagante e costurada com fios de ouro, a lehenga é utilizada em ocasiões especiais como casamento na Índia e é composta de saia longa, top cropped e um lenço. Toda a arrumação foi feita junto com uma maquiagem bem marcante e muitas e muitas jóias. Eu brilhava mais que o sol e ainda assim era a noiva mais infeliz do mundo. A cerimônia foi realizada ao ar livre em um espaço privado da cidade, a decoração estava deslumbrante mas cores vermelho e rosa chá, haviam muitas flores naturais, muita cor e muito brilho. Tanto dinheiro gasto em vão. Eu lembrei de pedir e insistir que as formalidades legais do casamento fossem realizada amo terceiro dia de comemoração, não era o costume mas eu tinha um plano e depois de uma certa insistência a família de Isaac finalmente topou. Quando chegou a hora fiz meu caminho até o mandap, uma espécie de tenda feitoma de tecido e flores com quatro colunas, onde é realizado o casamento. As famílias trocaram presentes, recebi muito mais coisas do que dei, haviam dinheiro, jóias e ouro, além de envelopes com dinheiro que eu guardaria para executar o meu plano. Em um certo momento o pano caiu entre nós como era costume, fizemos todos os processos até dizer “sim”. Isaac estava cego, sua felicidade me causava um misto de pena e nojo. Ele sabia que eu não estava feliz, nos vimos apenas três vezes antes desse casamento mas ele estava convencido de que faria com que eu me apaixonasse por ele com o tempo. Depois disso foi a vez dos convidados presentearem os noivos, com dinheiro em quantias de números ímpares em envelopes, guardei o máximo que pude na mochila que deixei escondida. Eu já tinha cuidado de conseguir algum dinheiro nas últimas semanas mas quanto mais melhor. Eu tive que me despedir de Bhav, pois teria que ir morar com os pais de Isaac na casa deles. Os pais de Isaac me deram as boas vindas, a casa deles era muito maior do que a minha. Isaac mantinha uma felicidade sem fundamento estampada no rosto, me mostrou a casa e por último o quarto que deveria ser nosso, era uma casa a parte, tinha TV, varanda, banheiro e até uma cozinha americana. Como um apartamento independente. — Eu achei que você iria gostar de ficar em um ambiente mais ocidental. – Disse ele enquanto afastava o véu fino que descia do teto e cobria a cama como um mosqueiro. Deixei minhas malas em um canto qualquer do quarto e fui me sentar diante de uma penteadeira que tinha próximo dali, os adornos pesavam e eu me livrei deles, tiaras, anéis, cordões e braceletes todos de ouro que me renderiam algum dinheiro. Eu usei o banheiro com a porta trancada, tomei banho e escolhi um pijama de calça e blusa larga de moletom quando voltei ao quarto, Isaac estava encostado em uma cômoda quando saí e aproveitou para entrar no banheiro. Eu me deitei e fui dormir, não demorei a pegar no sono visto que os últimos dois dias foram tumultuosos. Já estava cochilando quando senti uma mão passar pelo meu braço, acordei em um salto já que tinha sono leve. — Desculpe, eu não queria te assustar... – Ele me olhou esquisito, estava com um tipo de pijama, meu coração batia forte pelo susto e eu segurada o lençol junto a mim. Demorou até o sono se dissipar da minha mente e eu entender o que estava acontecendo. Eu me sentei na cama, esfregando os olhos, se ele pensava que ia tocar um só dedo em mim estava muito enganado. De novo senti sua mão deslizar pelo meu braço e me afastei bruscamente. — O que pensa que está fazendo? – Olhei para ele. — Eu pensei que nós... — Eu não quero. – O cortei de uma vez. Isaac me olhou confuso, medindo meu rosto e depois concordando. — Tudo bem, eu... eu entendo. Ainda temos mais um dia de comemoração pela frente. – Disse ele me olhando com expectativa. Eu ia vomitar a qualquer momento. — Não se trata disso. – Levantei da cama. — Eu não quero em momento nenhum. Isaac me olhou em completo choque, ele engoliu seco e assentiu várias vezes, parecia que eu o tinha magoado. Sentia muito por tudo estar acontecendo assim, mas não podia fazer diferente. Deixei Isaac sozinho e me meti na varanda, tinha uma espreguiçadeira e foi nela que passei o resto da noite. No dia seguinte foi o dia da celebração, Isaac e eu permanecemos em um palco enquanto recebíamos mais presentes, eu precisei arranjar uma mochila três vezes maior para juntar tantas jóias. Ele estava diferente depois do que tinha acontecido, a felicidade estampada no rosto dele antes já não estava mais lá, Isaac ainda sorria para os convidados mas estava mais contido. Depois dos presentes todos foram para a pista de dança, tivemos fotos com convidados, fotos cortando o bolo e até respirando. Por último o ritual onde demos sete voltas ao redor do fogo de mãos dadas enquanto Isaac segurava uma espada. Depois disso os convidados se espalharam formando grupos e mantendo uns aos outros entretidos, a mãe de Isaac parecia ser ovacionada pela própria família e Isaac estava com o pai em um canto afastado há muito tempo, sua cara não era boa e imaginei que estivesse pedindo algum tipo de conselho. Era a deixa perfeita, ninguém estava prestando atenção em mim, nem mesmo Bhav que estava rodeado de novos possíveis parceiros. Avisei uma prima de Isaac que iria ao banheiro para o caso de alguém perguntar. Ir ao banheiro com todas aquelas roupas era um processo demorado. Eu teria no mínimo uns vinte minutos antes de começarem a me procurar. Saí do salão, na rua de trás estava a moto que eu tinha pedido para um amigo providenciar. Ninguém além dele sabia do meu plano, fiz o trajeto até a casa dos pais de Isaac, sabendo que todos estariam na festa e entrei no quarto pegando tudo que eu já tinha deixado separado, uma mala pequena de mão e uma mochila menor. Era tudo que eu levaria. O salão não era longe dali, eu ainda teria mais uns dez minutos. Troquei de roupa o mais rápido que pude, colocando vestes típicas e véu, além de uma peruca com cabelos lisos, assim ficaria mais difícil me identificar. Quinze minutos depois estou no aeroporto. Usei a moto para ir até o aeroporto local, fiz o check-in online no começo do dia então fui diretamente para a sala de embarque. Depois da inspeção meu coração já estava a mil, eu estava muito perto de entrar no avião rumo a minha liberdade. Meu vôo foi chamado, me dirigi ao portão de embarque e em menos de quinze minutos dois homens adentraram a sala, eu reconheci imediatamente. Eram primos de Isaac, eles perguntavam para as pessoas se tinham visto alguém com as minhas características, alguém vestida de noiva, pele bronzeada e cabelos cacheados. As pessoas negavam, meus cabelos estavam lisos e eu mantive minha cabeça baixa o tempo inteiro, o véu me ajudou e a cor da minha roupa também, escolhi cores pastéis para passar despercebida. — Olá, senhorita, estamos procurando uma moça, uma noiva morena de cabelos cacheados e baixa estatura. Você a viu? Tive vontade de gritar quando ouvi um deles perguntar a uma mulher atrás de mim. — Boa noite. – Disse o oficial a quem entreguei meu documento. Apenas balancei a cabeça, podiam me reconhecer pela voz. Foram longos segundos. A moça atrás de mim explicava que não tinha visto ninguém com aquelas características quando o oficial me liberou e respirei aliviada. Embarquei no avião com lágrimas nos olhos e desabei de vez ao sentar em meu assento, não fiquei totalmente em paz enquanto o avião não decolou. Depois de quase uma hora de vôo eu finalmente dormi de exaustão.
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