Encontro

2021 Palavras
Maya. Acordei sentindo dor em vários músculos do corpo e me levantei. Eu dormi de m*l jeito. Fui até o banheiro fazer a higiene matinal e tomar um banho, aproveitei para lavar os cabelos e saí do banheiro enrolada em uma toalha, escolhi um vestido longo e leve. — Senhorita? – A voz de uma das empregadas soou atrás da porta. — Sim? — Seu pai a aguarda no jardim. – Ele devia ter passado a noite pensando na melhor forma de me castigar. — Diga que estou indo, por favor. Terminei de me vestir e arrumei os cabelos deixando-os soltos para que pudessem secar naturalmente. Desci cumprimentando algumas empregadas no caminho. Ao entrar no jardim avistei Bhav sentado em frente a uma mesa que tinha tanta comida que o espaço dela era quase insuficiente, ele levantou a cabeça assim que percebeu minha presença e me observou enquanto me aproximei. A manhã estava um espetáculo da natureza, o azul do céu se mesclava com diferentes tons de laranja, os raios de sol ainda mornos iluminavam o canteiro de flores e parte do chafariz, me fazendo lembrar o quanto essa casa era linda, uma pena que nunca tenha existido felicidade verdadeira nela. Parei em frente a mesa encarando o sorrisinho misterioso de Bhav. — Olá. – Ele cumprimentou sério, dispensei a resposta, agora eu estava sem maquiagem e a marca dos dedos dele ainda estavam estampadas na minha face, mesmo que bem fraca. — Sente-se. Demorei alguns segundos para puxar a cadeira e me sentar, tinha alguma coisa errada. Passei os olhos pela mesa, ele estava quebrando a restrição alimentar. — Pedi que preparassem algumas coisas especialmente para você. — E as restrições? – Indaguei. Bhav era vegano. — Não estou quebrando nenhuma, e você nunca se importou em cumprir com as restrições. – Ele começou a comer os pratos separados apenas para ele. O encarei desconfiada, essa postura despreocupada não fazia o tipo dele nem um pouco. — Ora, não seja ingrata, aproveite o que estou proporcionando. – Retrucou. Analisei a comida procurando algum sinal incomum na aparência dela. — Não vai comer? – Perguntou ele. — Tem veneno na comida? – Fui direta. Bhav soltou uma gargalhada, não ouvia sua risada há tantos anos que o som pareceu estranho e assustador. Levou um tempo até ele parar de rir. — Não vou te castigar se é o que está esperando, Maya. – Afirmou. Pisquei incrédula. — Por que? Sei que está com raiva por ontem. — O objetivo foi atingido, consegui a confirmação do investimento deles, fechamos uma parceria e além disso... Isaac garantiu que vai e quer se casar com você. – Arqueei uma sobrancelha. — Os pais não foram contra? – Murmurei mais para mim do que para ele, eu esperava que os pais dele o aconselhassem a desistir desse absurdo. — Não, estão otimistas quanto a ter você na família, compreenderam seu comportamento patético. É tudo recente e você está de luto... Parece que seus esforços para estragar a recepção tiveram o efeito contrário, mere pyaare! Suspirei derrotada já sentindo as mãos pinicarem, o que será que aconteceu depois que fui para o meu quarto? Pensei em tantas coisas que meus neurônios começaram a fervilhar, afinal casamento para eles era isso, uma negociação onde ambos pudessem sair satisfeitos, menos eu. — Eu não quero. — O que? — Bhav indagou tranquilamente. — Não vou me casar, não me importa o que faça comigo. — Ele terminou de mastigar despreocupado. — Chegamos ao ponto. — Ele indicou um ponto invisível na mesa depois de terminar de mastigar. — Não será com você. Bhav se inclinou para frente, apoiando o antebraço na mesa. — Achou mesmo que enquanto eu revirava os Estados Unidos atrás de sua mãe e o amante não iria descobrir sobre as duas bastardinhas? Meu coração pulou três batidas, por um segundo me faltou o ar e meus olhos dobraram de tamanho, Bhav me encarou vitorioso e com um leve sorriso nos lábios — Você sabia, não é? Sempre soube de tudo. – Engoli seco. – Foi cúmplice dela desde o início. Tudo bem, não estou bravo por não ter me contado, mas pelo bem de suas irmãzinhas, sugiro que aceite de bom grado esse casamento. Será melhor para todos. Meus olhos lacrimejaram, mas não aceitei chorar na frente dele. — Aproveite a refeição. E use maquiagem, não quero você saindo por aí assim. – Ele apontou o meu rosto se levantando e saindo, me deixando sozinha. Passei os instantes seguintes em choque, Bhav estava com elas? Ele tinha sequestrado as gêmeas ou apenas soube da existência delas e estava usando disso para me ameaçar? Eu não podia arriscar, o mais sensato seria ligar para a tal Rosalie e verificar se ainda estavam com ela, se estavam bem... Faria isso com um telefone descartável e fora de casa. Bhav sabia da existência delas mas não tinha me dado provas de saber a localização atual delas, ele podia estar jogando comigo. Duas horas depois uma das empregadas se aproximou. — Senhorita? O senhor Isaac está ao telefone. — Uma das empregadas se aproximou. — Diga a ele que Bhav acabou de sair. — Ele deseja falar com a senhorita. — Meus músculos travaram. O que esse infeliz queria? — Diga que estou indisposta e não posso atender ninguém hoje, por favor. — Sim senhorita. — Ela saiu e eu voltei ao quarto sem nem tocar na comida. Passo uma maquiagem no rosto, depois da aula de música fui tentar ler um livro até o almoço. Ao invés de comer acabei dormindo, a tarde deixei avisado caso Bhav perguntasse, mandei dizer que tinha ido visitar uma profissional de beleza. Por volta das três da tarde saí com Asha missão de ligar para Rosalie, compramos um celular descartável e tentamos contato por diversas vezes sem nenhum sucesso. Caímos diretamente na caixa postal, aumentando ainda mais ainda angústia. Voltei para casa sem esperança e com o coração apertado, eu precisava fazer alguma coisa e tinha que pensar no que. (...) Alguns dias depois. — Estou de volta – A voz dele quase me fez saltar da cadeira. Infelizmente Isaac já tinha voltado do banheiro, e eu estava na situação mais ridícula que eu poderia estar: um encontro. Ergui as sobrancelhas em uma tentativa de não ficar estática como uma pedra, curvei os lábios mas não deve ter passado de uma careta estranha. Bhav tinha me dado ordens expressas para tratar Isaac muito bem. — Onde estávamos? – Perguntou ele. Não acreditava que ele queria mesmo voltar a falar da sua coleção de cento e vinte seis xícaras. Esse cara não tinha a mínima noção que já tinha ultrapassado todos os limites da chatice. — A sua coleção. Você falava da sua coleção de cento e vinte seis xícaras, e contava como conseguiu a vigésima oitava. Tomei um pouco de vinho, infelizmente eu ainda não estava embriagada o bastante. Ele sorriu, com brilho de animação refletindo nos olhos recomeçou a história pelo que me pareceu uma eternidade. Isaac só parou quando forcei um bocejo. — O que vai querer de sobremesa? – Finalmente ele me fez uma pergunta que não fosse sobre xícaras ou qual estampa eu preferia nelas. A mão dele voou para o cardápio e a minha foi logo em seguida para impedí-lo. — Na verdade eu acho está na hora de irmos embora. – Pedi. Os olhos verdes dele examinaram minha expressão, procurando o motivo da pressa. — Acho que ainda está cedo. – Ele encarou o relógio no pulso. Franzindo o cenho porque fazia menos de uma hora e meia que chegamos aqui. — A senhorita não acha? Franzi os lábios, segurando a língua. Não seja rude, não seja rude, não seja rude. — É que tenho aula de música amanhã pela manhã, preciso dormir cedo para acordar disposta. Isaac ajeitou os óculos na frente do rosto pálido e assentiu contrariado. — Tudo bem. – Cedeu ele. — Vamos embora então. Com sorte terei outra oportunidade de vê-la. Quando saímos do restaurante tive uma bela surpresa, o tempo estava nublado e tinha chovido, haviam poças de água no chão refletindo as luzes de outros estabelecimentos e dos postes. Eu amava esse tempo. — Está tudo bem? – Isaac me perguntou e só então percebi que estava sorrindo sozinha. — Sim. – Olhei para ele, que parecia procurar algo nos bolsos da calça e do sherwani marrom. — É... Eu acho que deixei minha carteira lá dentro. Vou olhar na recepção, eu... já volto. Ele se afastou e aproveitei para olhar o tempo, as nuvens ainda estavam carregadas e alguns pingos finos molhavam meus ombros vez ou outra. Iria chover de novo em breve. Comecei a andar em círculos pela calçada, cinco minutos, depois dez, quinze e vinte minutos... Nada de Isaac voltar. Como se não fosse o bastante estar em um encontro arranjado por Bhav, totalmente contra a minha vontade, ainda teria que esperar para voltar para casa? Bufei irritada. Não quero esperar mais nenhum segundo. Peguei o telefone e disquei o número salvo nos contatos frequentes. — Maya? Onde foi que você se meteu? Te procurei o dia todo! Mordi o lábio. — Longa história, Asha. Por favor diz que pode me salvar e pedir seu motorista para me buscar naquele restaurante que jantamos na semana passada. — Eu posso. Mas você está bem? Aconteceu alguma coisa? — Estou bem, não se preocupe, eu só... Só quero que essa noite termine logo, Asha. Vou esperar na entrada, obrigada, te devo uma. Ela riu do outro lado da linha. — Por nada, habib, a gente se deve! Até mais. Desliguei o telefone, desejando que o motorista não demorasse muito porque eu não queria levar Isaac comigo. Ligaria depois dizendo que tive que ir embora. — Noite r**m, hã? Eu sobressaltei antes de virar na direção do dono da voz, até um minuto atrás não tinha ninguém ali, agora no entanto, o homem de mais de um metro e setenta mantinha um sorriso de divertimento nos lábios carnudos. Seus olhos negros me encararam com audácia. Quem era aquele homem? — Eu conheço você, por acaso? – Cruzei os braços na frente do peito, franzindo o cenho. O que só o fez alargar o sorriso. — Com certeza, não. Não estaria em uma noite r**m se conhecesse. – Afirmou com tanta certeza que quase me fez rir. Quase. — E como pode ter tanta certeza de que minha noite está r**m? – Ergui o queixo para olhá-lo nos olhos, começando a achar que Bhav pode tê-lo mandado para me vigiar. — Você trabalha para o meu pai? Ele riu, o som melodioso me causou um incômodo na espinha, o desconhecido petulante bateu a sola de um dos sapatos caros no chão e deu dois passos na minha direção. — Ah, não. Eu só trabalho para mim mesmo. – Ele pôs uma das mãos no bolso da calça. Estava vestido como um ocidental, quem sabe fosse um turista em Delhi. — Mas qualquer um nesse restaurante seria capaz de ver o quanto este pobre rapaz te deixou entediada. — Estava me vigiando? — Eu estava em um jantar de negócios, nem sempre essas coisas são agradáveis, então não pude evitar repará-la. Ele era bonito, os traços fortes e harmônicos ao mesmo tempo. Seu cabelo era cheio e levemente bagunçado de um jeito natural. Os dois botões abertos da camisa social eram o toque informal e a forma como a peça deixava aparente na medida certa os músculos dos seus braços seria até interessante se eu fosse capaz de me interessar por alguém. Mas seu ego infinito me irritou profundamente. Ele me olhou da cabeça aos pés. — Pois devia evitar. – Respondi. Nesse momento o carro enviado por Asha chegou e eu abri a porta enquanto o encarava de cara fechada pela última vez. Geralmente essa mesma expressão afastava qualquer abutre que decidisse voar ao meu redor. Mas ele sorriu e fechou a porta para mim assim que me acomodei no carro, antes do veículo dar partida o estranho acenou.
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