Fracasso

2923 Palavras
Maya. Encarei o espelho pela última vez antes de me levantar da frente da penteadeira e calçar meus saltos. Não resisti a vontade de ir até a varanda olhar a noite uma última vez antes de descer e começar meu show. Apoiei as mãos sob o corrimão arredondado e observei a forma como a luz da lua fazia minhas unhas grandes e pintadas de dourado se destacarem ainda mais, quanto mais chamativo melhor. A lua estava linda e cheia, e a noite muito agradável, céu limpo e sem nenhuma nuvem nem ao longe, o que me permitia ver as estrelas. Respirei bem fundo o ar daquela noite, um sorriso bobo apareceu e não senti vontade de reprimir como fazia quando estava acompanhada de alguém. Noites estreladas me traziam ótimas lembranças com Shaila, fechei os olhos lembrando dos passeios no parque de diversões, ou até das idas rápidas até as redes famosas de fast food, cinema... Tive até a sensação de sentir o cheiro de pipoca. É mãe, já sinto tanto sua falta. Vou sentir pelo resto da vida. Abri os olhos encarando a estrela mais brilhante que podia ver, prometo que vou encontrar as meninas, prometo que vou lutar para ser livre. Duas batidas na porta me fizeram olhar para trás. — Com licença, senhorita. Seu pai e os convidados a aguardam na sala de jantar. – Acenei concordando, todos falavam comigo em inglês aqui, claro que conheço o hindi, mas passei a infância até os dez anos nos Estados Unidos e não queria esquecer meu inglês. Respirei fundo e vesti minha melhor expressão de cínica, estava na hora. Desci as escadas tomando cuidado com meus saltos, podia ouví-los conversando quando me aproximei da entrada da sala de jantar, ajeitei o pingente em formato de gota que realçava meu decote profundo e triunfal, contrariando toda a cultura de se vestir descentemente. Entrei na sala sem que me vissem, o casal e o filho deles estavam de costas para mim enquanto Bhav estava vestido em seu sherwani azul marinho e sentado bem de frente para mim. Parei esperando que percebessem minha presença, arrumei a postura de forma que as fendas laterais do vestido mostrassem minhas pernas. Esperava que meu bronzeado estivesse em dia. Tudo aconteceu em questão de segundos, Bhav levantou o olhar primeiro e me encontrou, provavelmente pelo cheiro do perfume marcante que escolhi. Ele trincou o maxilar e fechou os punhos que estavam apoiados em cima da mesa, e então o casal percebeu a reação de Bhav e se virou para me encarar, a mulher vestida em um sari vermelho arregalou os olhos, sua boca se abriu levemente enquanto seu marido piscou diversas vezes como se eu fosse um fantasma. O último a se virar foi o homem, ele me encarou e eu não vi nada do que gostaria de despertar nele, o homem era pálido e esguio, de cara já não gostei dele e não foi só por causa da aparência. Ele me olhou de um jeito que eu não esperava. Pisquei atordoada, perdendo todo o clima que criei até aqui, esperava que ele estivesse ultrajado pela minha forma de vestir, assim como os outros ficariam, mas não aconteceu. Ele simplesmente não ficou ofendido, diria que até gostou do que viu. Qualquer homem desse país se sentiria surpreso ao ver uma mulher vestida assim, principalmente se fosse anunciada como sua noiva. Ele não devia ser daqui. Cumprimentei a todos sentindo o valor do ódio irradiar pelo meu corpo. Eu fui tomar meu lugar na mesa, sim, estávamos na mesa porque era assim que jantávamos quando recebíamos pessoas com costumes ocidentais. Bhav sabia ser hospitaleiro quando lhe era conveniente. O clima pesou tanto que parecia que alguém tinha acabado de morrer ali. Bhav engoliu seco algumas vezes enquanto eu me ajeitava no meu lugar, ele passou a mão no rosto e quando o olhei com a cara mais lavada do mundo ele estava me fuzilando com o olhar. Se não fosse sua vontade de manter a aparência de bom chefe de família já teria voado por cima da mesa e me arrastado de volta ao quarto. A mulher que devia ser mãe do bastardo ainda estava em estado de choque, levou a taça de água até a boca duas vezes seguidas, enquanto seu marido tentava voltar a agir naturalmente. Olhei para o homem que supostamente seria meu noivo de soslaio, ele continuava me encarando satisfeito, e nesse momento senti uma raiva tão grande que devia ter feito meus neurônios fritarem. Ninguém respondeu meu cumprimento, logo Bhav tomou a iniciativa de falar. — Conheçam minha filha, Maya. – Ele fez um gesto com a mão. — Isaac, sua noiva. Bhav pareceu envergonhado ao falar a última frase, mas ao contrário dele Isaac não pareceu nem um pouco abalado, ele parecia estar adorando a situação. Eu não era dele nem de mais ninguém. — É um prazer conhecê-la, Maya. – Isaac disse, mostrando um sorriso de um moleque que acabou de ganhar um presente. O encarei com um olhar mortal. Asha estava errada, ele era pior que os outros, no fundo era mais um s*******o. Por que aceitaria se casar com uma desconhecida se não houvesse dinheiro envolvido? Apenas por influência dos pais? Se fosse o caso eu o odiaria ainda mais, pois homens que se deixam ser marionetes me irritam profundamente. Bhav devia ter oferecido uma quantia absurda como dote e no mínino, devia estar ganhando algo com isso também. Não respondi, espremi os lábios e encarei a comida segurando a língua. Bhav pigarregou quando o silêncio ficou constrangedor. — Como falávamos antes, será um prazer ter o investimento de vocês no processo de internacionalização da minha empresa. – Os olhos de Bhav brilharam em direção ao patriarca da família, os olhos do bastardo sempre voltavam a mim, estava demorando a começar a falar de negócios. Na verdade eu era apenas mais um deles aqui. — É claro. Podemos marcar uma reunião na próxima semana, mas não vamos falar de trabalho. Agora que Maya finalmente se juntou a nós podemos finalmente falar sobre o casamento. – O senhor já de idade olhou para o filho e respondeu por ele quando percebeu que o filho estava ocupado demais olhando para mim. — Claro. Vou aguardar até que me informem um dia e horário mais conveniente. – Bhav não o contrariou. — Podem servir, por favor. Logo o primeiro prato foi servido, e a refeição foi feita quase em silêncio, Isaac alternava seu olhar entre mim e a comida. — Como o senhor sabe, vivi boa parte da minha vida na França enquanto estive em formação. Eu e minha família temos alguns costumes ocidentais, eu mais do que eles... Mas estou ciente do quanto o senhor valoriza o tradiocionalismo e estou disposto a respeitar isso. Isaac disse para Bhav ganhando sua atenção. — Tudo referente ao casamento será feito dentro dos costumes da sua cultura e da religião. – Bhav suspirou com a afirmação do tal Isaac, como se estivesse aliviado por ouvir aquilo. Era sério? Ele trataria com Bhav o tempo todo como se eu não estivesse aqui? Como se eu não fosse nada? — Minha mãe e as mulheres da família ficarão felizes em organizar tudo. – Isaac trocou um olhar com a mãe que sorriu para ele e foi retribuída. — Isso seria perfeito. – Bhav respondeu. Minha mente vagou sem rumo enquanto o assunto continuava, me peguei pensando em como seria se Shaila estivesse aqui jantando conosco essa noite. Olhei para Isaac, tão absorto na conversa com Bhav e seu pai que não me viu o encarando, não gosto dele, tudo que consigo sentir é o mesmo que sinto por qualquer outro homem: repulsa. A comida revirou no meu estômago. — Soube que passou boa parte da infância no mundo ocidental. – A mãe do homem se pronunciou pela primeira vez em um tom baixo, mas que fez os homens se calarem curiosos, ela estava falando diretamente comigo e era a primeira vez que alguém fazia isso naquela noite. — Sim. Eu vivi em Beaufort até os dez anos. Fui muito feliz lá. – Enfatizei, os olhares curiosos dos outros se voltaram para mim. — Imagino que sim. – Ela murmurou. — Isaac e você tem isso em comum, ele ainda tem uma ligação muito forte com os costumes ocidentais. Vão se dar bem. – Respondeu ela, forcei um curvar de lábios apenas para não deixá-la sem graça. Permaneci em silêncio e voltei a comer. — Gostaria de viver lá, querida? – Perguntou, impedindo a conversa de morrer. — Gostaria de nunca ter voltado, na verdade. – Permaneci séria e ela assentiu sem jeito. Escutei o suspiro alto de Bhav, devia estar ensaiando diferentes formas de me dar um castigo. — Entendo. Sinto muito por sua mãe, soubemos do que aconteceu. Instantaneamente me senti m*l, sabia que era inevitável já que fazia menos de três semanas que ela havia falecido, mas não queria que ninguém mencionasse minha mãe. Eu já estava sofrendo o bastante, murmurei um “obrigada” e voltei ao meu silêncio. — O que faz com o seu tempo, Maya? – O pai do homem questionou. — No momento, aulas de idiomas. Também faço aulas de música e aproveito o tempo livre para estudar sobre assuntos diversos. Respondi mecanicamente. — Muito interessante. – Ele sorriu, colhendo informações para o filho. — Nada é mais poderoso do que uma mulher inteligente. Nisso ele tinha razão. Isaac me encarou fixamente de novo e tive vontade de deixar a mesa, mesmo não sendo um olhar de raiva. Comecei a pensar no quanto ele devia ser m*l acostumado e mimado. — Estudou em casa? – A mãe perguntou e concordei, infelizmente, graças ao meu pai. Não havia nada que o dinheiro dele não pudesse comprar, era o que ele achava. Tive os melhores professores em casa durante a faculdade, mesmo que eu tenha pedido mil vezes para estudar em uma das unidades Bhav nunca permitiu. — Qual curso? — Administração. – Ela sorriu com brilho nos olhos e olhou para o filho buscando a aprovação dele. Os dois trocaram um olhar cúmplice. — Isaac também estudou em casa nos primeiros anos, depois fez faculdade na França. Tive inveja dele, mas mais uma vez preferi o silêncio. — Quanto ao dote, sei que dinheiro não é a questão aqui, mas quero que saiba que lhe darei um bom dote por ela. – Bhav explicou a Isaac, que terminou de comer tranquilamente. — Não quero dote algum, senhor. – Disse Isaac, olhando nos olhos do meu pai. Ele recusar o dinheiro só podia significar que ia querer outra coisa, um arrepio passou rapidamente pela minha espinha. Não gosto nada do rumo dessa conversa dos dois. Seus olhos verdes me encontraram e depois se voltaram a Bhav. — Pelo contrário, eu ofereço o triplo do valor para me casar com a sua filha, como prova da minha boa intenção. Quanto ao dote que o senhor preparou, entregue-o a ela. Nesse momento tive certeza de que não tinha jeito, Bhav iria me obrigar a casar com aquele sujeito, vi isso no rosto surpreso e satisfeito do meu pai. Isaac estava jogando... Oferecer um dote três vezes maior ao invés de aceitar o que Bhav lhe propôs foi a forma que ele encontrou de garantir o casamento. Bhav não iria me deixar descartá-lo e nem iria permitir que mais ninguém se aproximasse de mim. Isaac acabou de me comprar, ou de achar que conseguiu esse feito. Tentei respirar fundo para controlar a minha revolta, eu estava sendo vendida, literalmente. — Devo servir o último prato, senhorita? – Uma das funcionárias me perguntou e todos me olharam sem entender, afinal Bhav era o anfitrião. — Sim, por favor. – Me virei para eles, evitando ouvir Bhav aceitar a proposta. — Tomei a liberdade de preparar algo quando soube que teríamos convidados. Sorri inocentemente e fui retribuía pelos três, o caldo branco com um macarrão típico foi servido e tive que me segurar para não rir das reações ao sentirem o gosto. Bhav se segurou para não cuspir o líquido, o pai de Isaac tomou apenas um pouco e pousou o recipiente na mesa, suas sobrancelhas se franziram mas ele logo voltou ao normal tentando disfarçar. A mãe de Isaac fez uma careta h******l e tocou os lábios ao deixar o recipiente na mesa, ela bebeu água desesperadamente. Isaac experimentou e sua expressão simplesmente não mudou, ele ainda comeu normalmente. Vi chocada enquanto ele comeu metade do prato sem beber nenhum gole de água. Acabei de crer que esse homem não era normal, só podia ser um psicopata. — Exagerou na pimenta e no tempero, Maya. – Bhav controlou o tom de voz para não parecer ignorante como realmente era comigo. — Me perdoem, por favor. – Fiz cara de envergonhada. Eu poderia ser atriz. Por que não? — Tudo bem querida. – Ela se forçou a sorrir. — Nunca aprendeu sobre culinária? — Poucas vezes, também nunca pratiquei. — Eu gosto muito de cozinhar e posso lhe ensinar, não se preocupe. – Eu sorri. Ela era uma pessoa agradável mas eu estava tentando mostrar a Isaac que casar comigo seria um péssimo negócio, toda aquela gentileza dela não estava ajudando. — Claro. – Respondi. Mais uma vez não consegui arrancar dele a reação que eu queria, estava começando a ficar irritada. — Tivemos uma idéia interessante sobre a festa de comemoração de inauguração da sua empresa no exterior. – O pai de Isaac quebrou o clima constrangedor que estava começando a surgir mudando de assunto. Ele não disse para não falarem de trabalho? — Claro. – Bhav se levantou todo solícito. — Já vamos até o escritório, mas antes gostaria de concretizar o objetivo desse jantar, que é oficializar o noivado de Isaac e Maya. Sintam-se bem-vindos a família, o jantar não passa de formalidade uma vez que minha filha está de acordo com o casamento. Não é mesmo, Maya? Todos me olharam, demorei para fazer um aceno positivo, é claro que ele não recusaria tanto dinheiro... Os dois finalmente saíram para o escritório, deixando apenas Isaac, sua mãe e eu na mesa. — Você não vai com eles? – Perguntei a Isaac, ele pareceu surpreso por eu ter dirigido a palavra a ele diretamente pela primeira vez. Ele negou. — Hoje não. – Respondeu animado. — Com licença, eu acho que vou até a cozinha pegar a receita do prato principal, estava uma delícia. – A mãe de Isaac saiu nos deixando sozinhos. Me dei conta de que nem perguntei o nome dos pais dele, mas também não estava interessada em saber. — Sorte a minha ter sido escolhido para me casar com você. – Ele apoiou o antebraço na mesa. — Eu não acredito em sorte. Ele sorriu arqueando uma sobrancelha. — No que você acredita então? — Acredito que dinheiro é poder, e que alguns abusam dele. Isaac recostou na cadeira mostrando estar ofendido com minha afirmação. — Você... está falando do dote. — Por que não vai aceitar o dinheiro como a tradição determina? – Cruzo os braços, questionando-o. — Porque quero que seu pai entenda o quanto quero me casar com você, a ponto de não só abrir mão de receber algo mas também de oferecer algo ainda mais valioso pelo privilégio de ter você. – Eu bufei, não acreditava em nada que saía da boca dele, aparentemente minha desconfiança tinha consigo afetá-lo. Isaac não estava irritado mas estava ofendido, o que já era alguma coisa. — E também porque na minha concepção fazer seu pai lhe entregar o dinheiro ao invés me dá-lo a mim poderia mostrar a você que estarei atento aos seus interesses. Não pretendo ser egoísta com você. Comoveu um total de zero sentimentos em mim, eu não acreditava nessa bondade dele, Isaac estava ganhando algo com isso, eu só não sabia o que. — Eu não manipulei a situação se é o que está pensando. – Ele juntou as sobrancelhas brevemente, tomou um pouco de vinho enquanto me encarava. — Mas eu não vou tentar provar, você é livre para acreditar no que quiser e eu tenho vou mostrá-la com o tempo. — Eu também devia ser livre para fazer o que eu quisesse. Não acha? – Perguntei com ironia. Ele me encarou. — Você não quer se casar? – Perguntou franzindo o cenho. — Eu não te conheço. Ele soltou um riso anasalado. — Eu sei, mas é como as coisas funcionam aqui, não é? Eu confio nos meus pais para encontrarem alguém para mim e vamos aprender um sobre o outro com a convivência. Eu suspirei, casar com ele seria um sacrilégio. — O que você está ganhando com isso? Seja sincero. – Tentei mais uma vez. — Você. – Ele respondeu imediatamente. Me irritando. — Não é o bastante? — É mais do que você merece. – Respondi, Isaac me encarou profundamente mas totalmente impassível. — Eu entendo sua resistência, tem muita coisa acontecendo na sua vida e você está de luto. Respeito sua dor. – Ele hesitou, procurando as palavras. — Espero que quando nos encontrarmos novamente você esteja mais disposta. Eu o olhava incrédula, que bela maneira de respeitar o luto, vindo até minha casa e oferecendo dinheiro para se casar comigo. — Eu vou me recolher. Com licença. – Levantei e saí da sala de jantar indo para o meu quarto e deixando Isaac sozinho. Essa noite foi um verdadeiro fracasso.
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