(Maya)
Encarei meu reflexo no espelho redondo da penteadeira do meu quarto e toquei o hematoma em meu rosto com cuidado, os dedos de Bhav estavam estampados na minha face, um bolo se formou em minha garganta. Eu não aguentava mais tanta injustiça, não conseguia me conformar com a forma que era obrigada a viver e todos os sonhos que tive que abrir mão. O som suave da porta se fechando me fez olhar alarmada na direção dela.
— Asha. Você me assustou. – Respirei fundo. Ela me encarou, sorrindo discretamente.
— Namastê. – Cumprimentou indo se sentar na beira da minha cama, deixei a penteadeira para me juntar a ela sentando em sua frente.
Asha era morena, seus cabelos longos e castanhos. Dona de uma pele clara e olhos castanhos mais claros do que os da maioria das mulheres daqui.
Minha amiga era linda, porém doce, delicada e conformada com a cultura local, totalmente o oposto de mim. Éramos amigas desde pequenas já que Bhav e seu pai se conheceram há muitos anos, Asha era minha única amiga há algum tempo, desde que desfiz alguns laços.
As vezes me perguntava como nos damos tão bem e cultivamos essa amizade há tantos anos, já que éramos como fogo e chuva. Mas então me lembrava das inúmeras qualidades dela, extremamente leal, fiel, bondosa e equilibrada. Talvez fosse por isso, o motivo da minha admiração... Sua capacidade de ser calma e virtuosa sem perder o caráter, por saber se impor sem ferir a autoridade de ninguém, nem mesmo a que os homens pareciam achar que tem.
E além disso, força não era uma característica exclusiva do fogo, a água tem possui força quanto ou até mais e ainda era essencial para vida. Realmente Asha se tornou essencial na vida de todos que a conheciam, vivia tentando trazer algum juízo para a minha cabeça.
Esperava que Asha pudesse encontrar um bom marido como ela mesma deseja, um que não seja como a maioria, por mais que eu acreditasse que todos são idiotas e repulsivos não podia desejar menos que felicidade para a minha amiga. Seu pai era totalmente diferente de Bhav, Asha já teve três pretendentes porém recusou os três, e seu pai apoiou sua escolha. Um verdadeiro conto de fadas para mim.
Os olhos dela analisaram meu rosto e se abriram ainda mais.
— Maya?! O que aconteceu? – Ela chegou mais perto e analisou a marca de um roxo quase preto.
— Bhav. – Disse entre os dentes.
Afundei meus dedos no lençol para controlar minha indignação. Asha suspirou negando, a roupa típica e os adornos a faziam ficar ainda mais bonita.
— Ah, minha amiga! Já disse para você não confrontá-lo.
— Como não vou confrontá-lo se ele quer me entregar a um lunático qualquer? – Rebati.
— Casamento? – A voz dela vacilou e eu bufo irritada.
— Condenação, Asha! - Acenei com uma das mãos.
— Não seja dramática, você sabe que não é bem assim, os noivos participam de tudo, podem cancelar caso desejem fazer isso.
— Bhav não me deu escolha, com certeza está me usando para seus interesses. – Me levantei e dei uma volta pelo quarto, já pensei em fugir tantas vezes, mas a verdade que odiava admitir é que tinha medo, não medo de que ele me encontrasse e me matasse.
Tinha medo de sentir o gosto da liberdade novamente e perder tudo outra vez, agora não era só a minha vida que estava em questão, tinha medo de que ele descobrisse sobre Íris e Ísis.
— Escute Maya, não sofra por antecipação. – Ela se aproximou e afagou meus braços. Me virei para encará-la. — Participe da recepção, conheça o rapaz para só depois tirar suas conclusões. Quem sabe ele seja diferente.
— Não, Asha. Ele não é diferente se concordou com isso. – Afasto meus braços.
— Como sabe que ele concordou? Pare de imaginar coisas e dê uma chance ao destino. Quem sabe você não se surpreende.
— Pois eu já estou farta de tantas surpresas ruins na minha vida. – Comentei com desdém.
— Pode não ser r**m. – Ela se animou. — Promete que vai me contar tudo?
— Asha, eu não quero me casar obrigada, só porque Bhav quer. Aceito qualquer coisa, menos isso.
Asha me olhou preocupada.
— O que você está planejando?
— Bhav quer uma recepção inesquecível, e é isso que terá. - Arqueei uma sobrancelha.
— Maya, por favor, não provoque ainda mais a ira do seu pai... – Ela suplicou mas a interrompi.
— Vou fazer esse homem se arrepender de me conhecer, ele tem que querer distância de mim assim como os outros, Asha. – Me aproximei do grande espelho na parede lateral do cômodo. Essa marca em meu rosto vai ter um preço para Bhav.
Um preço bem alto.
(...)
Desse dia em diante me concentrei em dar os passos necessários para que a recepção fosse inesquecível.
Primeiramente escolhi a pior decoração possível, assim meu querido futuro noivo e sogros veriam o quanto tenho péssimo gosto. Consegui o vestido perfeito, pelo menos para mim, tinha bastante pele a mostra e um decote profundo. Deu um pouco de trabalho pois não era fácil encontrar um vestido desses por aqui, mas um contato certo na hora certa era maravilhoso.
Encomendei o vestido e me garantiram que estaria pronto antes da véspera do jantar. Instruí a cozinheira para que separasse o caldo que seria servido entre outros pratos, eu mesma vou me certificar de colocar bastante pimenta em um dos pratos. É claro que vou mostrar meus dotes culinários, como poderia perder a oportunidade de mostrar que sou um péssimo negócio?
Tratei de conseguir uma boa maquiagem, uma que cobrisse bem a marca em meu rosto como o próprio Bhav ordenou, minha vontade era deixar meu hematoma a amostra e contar toda a história aos visitantes, enfim desmascarar Bhav. Mas não vou fazer isso. Vou fazê-lo passar vergonha e fazer o tal pretendente desistir de mim de uma vez só.
Saí para buscar o vestido na véspera da recepção, pensando em como minha vida poderia ser diferente sem Bhav, eu só tinha toda essa atenção por causa do nome da família de Bhav pelo seu sucesso financeiro, por isso não faltavam pretendentes.
Eu achava graça da forma como as pessoas se escandalizavam por me verem andar com roupas que para mim são normais. Não cobria a pele ou a protegia do sol como as outras.
As mulheres por aqui protegiam a pele do sol pois quanto mais queimadas ficavam menos chances tinham de conseguir um bom casamento, amanhã mesmo pegarei um bronze na beira da piscina.
Pensei no que Bhav faria comigo depois do que ia fazer no dia seguinte, serei o mais dissimulada possível mas não poderei enganá-lo. Açoite, talvez? De qualquer forma pagarei o preço, cada vez que ele fizer algo contra mim farei outra para prejudicá-lo.
Esperava que meu pretendente estivesse preparado, porque ele, sua família e Bhav não perdem por esperar.