Liam
Passei a noite revisando alguns gráficos. Gosto de deixar tudo em ordens, sem pendências. O última taça de vinho e eu também havia feito meu trabalho de hoje. Vesti uma camiseta e liguei para Kyra, senti falta da minha filha.
Ela atendeu no segundo toque, sempre tão precisa. Sua voz tão doce, me deixava e******o sem fazer esforços. E o melhor estava por vir:
— Senhor Blackthorne, boa noite. — Ela falava como uma p**a. Como se estivesse me testando, até que eu perca o meu autocontrole.
— Boa noite, Kyra. Como estão as coisas por aí? Como está Julie?
— Ela está dormindo. — Houve um silêncio entre nós, por alguns segundos ela pareceu não estar ali. — Quero me desculpar pelo que aconteceu hoje. Eu deveria ter prestado mais atenção.
— Não foi sua culpa. A deixaram ultrapassar os portões, mesmo sabendo das regras...
Eu quero castigá-la, mas ela não me dar motivos óbvios, e eu estou ficando sem paciência. Ela faz tudo perfeitamente correto e minha filha adora sua companhia. Ela não me dar nenhum sinal de que me queira, e isso é torturante.
— Posso ver a Julie?
— Claro!
Ela converteu a ligação de voz para vídeo, e eu a vi. Julie dormindo, sem nenhuma preocupação sequer de como é o mundo. Mas isto é bom, não quero vê-la corrompida nem tao cedo. E Kyra estava sendo tão essencial na vida dela. Mesmo sem saber, ela me salvou de várias formas diferentes.
— Posso vê-la? — Pedi, como se fosse um desejo que estava me consumindo silenciosamente.
Ela virou a câmera para seu rosto e eu pude vê-la. Ela estava com a aparência cansada, mas não era só o físico. E além de tudo, ela não me olhava, mesmo que pela câmera.
— Está tudo bem, Kyra?
— Sim. Por que não estaria? Estava apenas um pouco distraída. Perdoe-me.
Como pode ser apenas uma simples babá? Parece que eu a conheço há bem mais tempo que é na realidade. Ela fala como se estivesse sussurrando, com medo de que alguém a encontre. E isso me assusta mais do que eu gostaria de admitir.
— Como estão indo as coisas com Julie? — Respirei fundo, antes falar o que estava pensando desde cedo. — Tem algo que gostaria de fazer com ela? Algum lugar? Qualquer coisa.
— Eu nunca pensei nisso. Mas se quiser posso escolher um lugar adequado para levá-la. Tipo um cinema, o que acha? — Isso seria muita confiança, e eu nunca confiei tanto assim em alguém.
— Por mim, tudo bem. Mas, quero que use meu carro. Use meu cartão. Vão ao shopping, compre o que Julie quiser e quero que faça o mesmo por você. Não aceito respostas. — Disse, desacreditado. — Você é uma pessoa importante na vida da minha filha.
— Obrigada. — Seu tom me deixo impaciente. — Eu vou escolher algo bom para levá-la.
Eu sabia que ela não iria fazer nada do que eu disse — em relação a ela —, mas saber que ela estará se distraindo um pouco, já me deixa um pouco aliviado. Antes que ela dissesse mais alguma coisa, Selena entrou em meu quarto sem aviso e eu tive que desligar. Mesmo que ela ainda estivesse na ligação.
— Liam... estão planejado uma reunião de última hora. Como você não respondeu às minhas mensagens avisando, eu decidi vir avisá-lo pessoalmente.
— Não precisava perder seu tempo para algo que eu planjei. Se puder me dar licença, eu agradeço.
Ela não disse nada. Saiu, bateu a porta e finalmente eu estava sozinho novamente. Pensei em ligar para Kyra, talvez perguntar como foi seu dia e se ela está bem. Mas, penso também que seria uma má ideia. Ela talvez me odei, por ser alguém tão i****a.
Kyra
Não sei se ele desligou, ou se a ligação caiu, mas não retornei. Nem pensei. Julie dormia tranquilamente, enquanto minha mente insistia em voltar ao passado.
Quando aquele casal veio aqui, seus rostos não me eram estranhos. Então eu lembrei: seus os pais de Marcos. Ana, a esposa de Liam era minha cunhado e Marcos era o seu irmão. Marcos é... tio da Julie. Como pode alguém tão podre contaminar pessoas boas? Respirei fundo e tentei apenas reagir naturalmente. Tenho que me livrar disso aqui, antes que minha vida desmorone outra vez.
O celular vibrou em cima da cama, imaginei que fosse alguma notificação i****a, mas era ele:
"Desculpa, a ligação caiu. Está tudo bem com você? Como foi seu dia?"
A mensagem chegou de surpresa. Eu nunca tinha o visto tão simpático assim. Talvez seja porque esteja longe, ou apenas quer diversão.
"Tudo bem. Meu dia foi bem... e o seu? E eu estou bem".
"Passei o dia inteiro pensando em você". Direto, cru e bruto. "Não me entenda m*l. Foi um pressentimento estranho".
"Deve ter sido as noites m*l dormidas. Um chá resolveria o caso do senhor".
"Adoraria receber um chá da senhorita. Acredito que eu iria dormir o suficiente para repor tudo que eu preciso".
Não respondi. Não por enquanto. Eu não quero me envolver com ninguém no momento. Tenho problemas demais. Tenho que tirar Marcos de perto de mim. Tenho que arranjar uma forma de me despedir da Julie, só não faço a mínima ideia de como eu vou fazer isso.
Fiz um chá antes de ir para o quarto. Peguei um livro de romance na estante de Liam, olhei Julie antes de entrar no quarto e me convenci: não será nada fácil me despedir dessa garotinha.
O relógio marcava 03:57 e eu acordei com algo pulando em cima de mim. Acendi o abjur e vi que era Julie. Abraçada a minha cintura, com os olhos fechados e a cabeça em minha barriga.
— Ei, está tudo bem. Eu estou aqui. — A peguei no colo e arrumei um cantinho ao meu lado. — Você vai dormir comigo está noite. Minha pequena.
— Eu gosto de você. Não vai embora, nunca.
— Vou ficar aqui, com você. Agora vamos dormir.
Enrolei nós duas em um cobertor quente, e sem perceber, estava abraçada ao seu corpo pequeno e quentinho. Seu cheio era bom. Uma mistura de bebê com perfume de criança, e por coincidência — genética —, Liam tem o mesmo cheio, só que de homem.