Capítulo 12 - Corte Seco

1149 Palavras
Kyra Julie acordou por volta das 08h. Sua aula de ballet começava às 09h, mas parece que alguém acordou febril. Ela não levantou da cama, permaneceu sonolenta e com dificuldades para respirar. Lembrei das regras, do quarto e dos possíveis ataques de asma. Me apavorei. Mas não podia vacila, não agora. — Julie, meu amor. Como está se sentindo? — Eu não podia deixá-la apavorada também. — Eu estou cansada, Kyra. Minha cabeça está doendo muito e meus olhos também. Então, eu comecei a sentir o coração acelerar e sem hesitar, a peguei nos braços e fiz o que Liam havia orientado tantas e tantas vezes. A sala tinha cheiro de hospital, a cama dela já estava pronta, com os aparelhos a altura de tudo dela. Tudo bem preciso, bem pensado. A deitei, coloquei o oxigênio como ordenado. Medi sua pressão, sua temperatura e além de tudo, a mediquei. Liguei para o médica cujo número estava agendado, e para minha surpresa ele atendeu na velocidade da luz: — Bom dia. O que a pequena Julie apresenta? — Era tudo programado e rápido. Liam jamais deixou de se preocupar com sua filha. — Ela acordou sonolenta e febril. Apressou falava de ar e eu a coloquei no oxigênio e dei remédio para febre, estava há 38°c. — Ela teve algum pesadelo a noite? Ou durante a madrugada apresentou sinais de inquietação? — Ela teve um pesadelo de madrugada. — Então era isso? — Isso é grave? — Digamos que ela ainda esteja se adaptando a certas coisas. Julie é tão sensível quando uma criança de dois anos. Ela vai ficar bem. Assim que ela apresentar melhoras, lhe dê um banho e a faça comer alguma coisa. Depois, coloque ela no oxigênio novamente e me avise. Eu irei quando fizer isto. — Certo. Muito obrigada. E lá estava eu, sentada na poltrona ao lado da cama, a observando dormir novamente. Fiz o que o Dr. orientou e percebi uma melhoria. Ela aceitou comer cereais com leite, o que já era alguém coisa. Após isso, a vi sorrir e quando ela deitou, liguei para o Dr. que não demorou a chegar. Estava me trocando quando o interfone tocou. Era o segurança, perguntando se eu tinha permitido a visitar do médico — aquilo me deixou surpresa. Imaginei que isso fosse responsabilidade do Liam —, permitir e não imaginei que ele não fosse um velho, mas sim, um homem com uma ótima aparência. Antes de tudo, liguei para Liam, para avisar sobre o que estava fazendo, mas não houve retorno das ligações e eu não tive outra opção a não ser agir rápido. — Bom dia, senhorita... — Kyra Lystem. Pode me chamar de Kyra — ele estendeu a mão para um leve cumprimento, e eu aceitei. — Muito prazer, Dr. Rafael, médico neurologista e psiquiátrico. — Era mesmo preciso um psiquiatra? O que a garota tem, afinal? Ele foi até o quarto e a observou da porta. Sua expressão serena me deixou aliviada, já era um bom sinal. Ele a examinou e aparentemente, estava tudo bem... o acompanhei até a sala. — Obrigada por ser tão rápido. Eu já iria ligar para o Sr. Blackthorne. — Disse ainda nervosa pelo acontecido. — Ela está bem e vai continuar bem. O susto vai passar. Acredito que até a noite, ela estará bem. E... a senhorita foi ágil. Parabéns. — Obrigado, Dr. Rafael. — Parte de mim, sentia uma ódio por ter que fingir na maioria do tempo, e a outra metade sabia que tinha que seguir o roteiro. — Pode chamar apenas de Rafael, por favor. — Fiquei ali, parada diante o cenário que acontecia bem na minha frente... Liam Não avisei que estava voltando, apenas o fiz no meio da madrugada. Não sei dizer o que sentir, mas estava sentindo que as coisas não estavam muito bem com a minha filha. Sinto um incômodo em meu peito, e agora percebendo que posso ser uma pessoa melhor na vida dela. Em dar espaço para tanta ausência. Cheguei em casa sem avisar, e ao abrir a porta, me deparei com o doutorzinho apertando suavemente a mão de Kyra, e ela retribuindo o gesto — apenas por educação, talvez. Mas eu me senti extremamente incomodado com aquilo. Mas, se ele estava presente, o motivo é sempre minha filha. — O que aconteceu? Por que não me ligou? — Ignorei os dois e segui direto para o quarto de Julie. Ela estava dormindo, com o cateter no nariz e agarrada ao seu coelho de pelúcia. Meu celular estava desligado, a bateria acabou no meio do voou e eu não tive tempo para mais nada. Respirei fundo, tentando lidar com tudo ao mesmo tempo. O fardo de ser bem-sucedido. De ser um bom pai e o pior, de tentar ser uma pessoa melhor está acabando comigo. Kyra deveria ter me avisado ontem, quando liguei. Deveria ter me dito que minha filha não estava bem, e agora... eu me sinto um péssimo pai. — Com licença, o médico já foi embora — ela me olhava sem jeito. Sem olhar nos olhos e como se procurasse as palavras certas para dizer. — O senhor precisa de alguma coisa? — Preciso que me avise quando minha filha estiver m*l. Deveria ter me avisado sobre isso ontem, quando eu liguei para saber de vocês duas. Por favor, não faça isso novamente. Não ligue pata nenhum médico sem a minha autorização, está me entendendo? — Sim, senhor. Por favor, me desculpe, mas ela não estava febril e nem apresentava nenhum sinal de que estava sem ar ou com dores ontem a noite. Fui tudo tão... de repente. Perdoe-me, não haverá outra vez. Eu avisarei com antecedência. — Sua voz era doce demais. Irritante demais, ao ponto de me fazer querer perder a cabeça por isso. — Pode tirar o dia para você. Eu cuido dela agora. — Ela assentiu e se retirou-se. — Sim, senhor. Observei ela indo até o seu quarto e saindo alguns minutos depois. Com uma mochila nas costas e o olhar vazio de sempre. Ela não me viu, mas eu a vi sair, com os olhos cheios de lágrimas e mais uma vez eu me senti um i****a. Quando liguei o telefone, havia muitas ligações perdidas e várias mensagens: "Boa noite, senhor Blackthorne. Julie não acordou muito bem, há algo que queria dizer?". "Ela estava sem ar. A coloquei no oxigênio, medir a temperatura e dei remédio para febre". "Ela comeu um pouco e já está melhor". "Não sabia o que fazer. Liguei para o Dr. Rafael. Ele já está a caminho". "Por favor, responde às mensagens. Estou preocupada". "O médico acabou de chegar. Me dá notícias sua". Me senti um i****a. Uma parte de mim quis ligar, ou enviar uma mensagem se desculpando, e a outra metade queria esperar ela voltar para se desculpar pessoalmente.
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