Kyra
Julie acordou por volta das 08h. Sua aula de ballet começava às 09h, mas parece que alguém acordou febril. Ela não levantou da cama, permaneceu sonolenta e com dificuldades para respirar. Lembrei das regras, do quarto e dos possíveis ataques de asma.
Me apavorei. Mas não podia vacila, não agora.
— Julie, meu amor. Como está se sentindo? — Eu não podia deixá-la apavorada também.
— Eu estou cansada, Kyra. Minha cabeça está doendo muito e meus olhos também.
Então, eu comecei a sentir o coração acelerar e sem hesitar, a peguei nos braços e fiz o que Liam havia orientado tantas e tantas vezes.
A sala tinha cheiro de hospital, a cama dela já estava pronta, com os aparelhos a altura de tudo dela. Tudo bem preciso, bem pensado.
A deitei, coloquei o oxigênio como ordenado. Medi sua pressão, sua temperatura e além de tudo, a mediquei. Liguei para o médica cujo número estava agendado, e para minha surpresa ele atendeu na velocidade da luz:
— Bom dia. O que a pequena Julie apresenta? — Era tudo programado e rápido. Liam jamais deixou de se preocupar com sua filha.
— Ela acordou sonolenta e febril. Apressou falava de ar e eu a coloquei no oxigênio e dei remédio para febre, estava há 38°c.
— Ela teve algum pesadelo a noite? Ou durante a madrugada apresentou sinais de inquietação?
— Ela teve um pesadelo de madrugada. — Então era isso? — Isso é grave?
— Digamos que ela ainda esteja se adaptando a certas coisas. Julie é tão sensível quando uma criança de dois anos. Ela vai ficar bem. Assim que ela apresentar melhoras, lhe dê um banho e a faça comer alguma coisa. Depois, coloque ela no oxigênio novamente e me avise. Eu irei quando fizer isto.
— Certo. Muito obrigada.
E lá estava eu, sentada na poltrona ao lado da cama, a observando dormir novamente.
Fiz o que o Dr. orientou e percebi uma melhoria. Ela aceitou comer cereais com leite, o que já era alguém coisa. Após isso, a vi sorrir e quando ela deitou, liguei para o Dr. que não demorou a chegar.
Estava me trocando quando o interfone tocou. Era o segurança, perguntando se eu tinha permitido a visitar do médico — aquilo me deixou surpresa. Imaginei que isso fosse responsabilidade do Liam —, permitir e não imaginei que ele não fosse um velho, mas sim, um homem com uma ótima aparência. Antes de tudo, liguei para Liam, para avisar sobre o que estava fazendo, mas não houve retorno das ligações e eu não tive outra opção a não ser agir rápido.
— Bom dia, senhorita...
— Kyra Lystem. Pode me chamar de Kyra — ele estendeu a mão para um leve cumprimento, e eu aceitei.
— Muito prazer, Dr. Rafael, médico neurologista e psiquiátrico. — Era mesmo preciso um psiquiatra? O que a garota tem, afinal?
Ele foi até o quarto e a observou da porta. Sua expressão serena me deixou aliviada, já era um bom sinal. Ele a examinou e aparentemente, estava tudo bem... o acompanhei até a sala.
— Obrigada por ser tão rápido. Eu já iria ligar para o Sr. Blackthorne. — Disse ainda nervosa pelo acontecido.
— Ela está bem e vai continuar bem. O susto vai passar. Acredito que até a noite, ela estará bem. E... a senhorita foi ágil. Parabéns.
— Obrigado, Dr. Rafael. — Parte de mim, sentia uma ódio por ter que fingir na maioria do tempo, e a outra metade sabia que tinha que seguir o roteiro.
— Pode chamar apenas de Rafael, por favor. — Fiquei ali, parada diante o cenário que acontecia bem na minha frente...
Liam
Não avisei que estava voltando, apenas o fiz no meio da madrugada. Não sei dizer o que sentir, mas estava sentindo que as coisas não estavam muito bem com a minha filha. Sinto um incômodo em meu peito, e agora percebendo que posso ser uma pessoa melhor na vida dela. Em dar espaço para tanta ausência.
Cheguei em casa sem avisar, e ao abrir a porta, me deparei com o doutorzinho apertando suavemente a mão de Kyra, e ela retribuindo o gesto — apenas por educação, talvez. Mas eu me senti extremamente incomodado com aquilo. Mas, se ele estava presente, o motivo é sempre minha filha.
— O que aconteceu? Por que não me ligou? — Ignorei os dois e segui direto para o quarto de Julie.
Ela estava dormindo, com o cateter no nariz e agarrada ao seu coelho de pelúcia. Meu celular estava desligado, a bateria acabou no meio do voou e eu não tive tempo para mais nada.
Respirei fundo, tentando lidar com tudo ao mesmo tempo. O fardo de ser bem-sucedido. De ser um bom pai e o pior, de tentar ser uma pessoa melhor está acabando comigo. Kyra deveria ter me avisado ontem, quando liguei. Deveria ter me dito que minha filha não estava bem, e agora... eu me sinto um péssimo pai.
— Com licença, o médico já foi embora — ela me olhava sem jeito. Sem olhar nos olhos e como se procurasse as palavras certas para dizer. — O senhor precisa de alguma coisa?
— Preciso que me avise quando minha filha estiver m*l. Deveria ter me avisado sobre isso ontem, quando eu liguei para saber de vocês duas. Por favor, não faça isso novamente. Não ligue pata nenhum médico sem a minha autorização, está me entendendo?
— Sim, senhor. Por favor, me desculpe, mas ela não estava febril e nem apresentava nenhum sinal de que estava sem ar ou com dores ontem a noite. Fui tudo tão... de repente. Perdoe-me, não haverá outra vez. Eu avisarei com antecedência. — Sua voz era doce demais. Irritante demais, ao ponto de me fazer querer perder a cabeça por isso.
— Pode tirar o dia para você. Eu cuido dela agora. — Ela assentiu e se retirou-se.
— Sim, senhor.
Observei ela indo até o seu quarto e saindo alguns minutos depois. Com uma mochila nas costas e o olhar vazio de sempre. Ela não me viu, mas eu a vi sair, com os olhos cheios de lágrimas e mais uma vez eu me senti um i****a.
Quando liguei o telefone, havia muitas ligações perdidas e várias mensagens:
"Boa noite, senhor Blackthorne. Julie não acordou muito bem, há algo que queria dizer?".
"Ela estava sem ar. A coloquei no oxigênio, medir a temperatura e dei remédio para febre".
"Ela comeu um pouco e já está melhor".
"Não sabia o que fazer. Liguei para o Dr. Rafael. Ele já está a caminho".
"Por favor, responde às mensagens. Estou preocupada".
"O médico acabou de chegar. Me dá notícias sua".
Me senti um i****a.
Uma parte de mim quis ligar, ou enviar uma mensagem se desculpando, e a outra metade queria esperar ela voltar para se desculpar pessoalmente.