• Maria •
Hoje de manhã, ao acordar, comecei a rotina que eu tinha aqui, há dez semanas atrás, antes da transferência. Eu me arrumei e fui ao pomar colher maçãs para uma possível torta de maçã para o almoço.
Com a bacia e um balde cheios, caminhei até o refeitório, onde vi meus amigos sentados numa mesa isolada. O local estava quase vazio, já que passavam das nove e o dia aqui começa cedo.
Eles me viram e eu dei um leve sorriso para eles, seguido de um aceno de cabeça. Drew fez menção em levantar, mas Quatro foi mais rápido, logo chegando em mim e tomando o balde da minha mão, caminhando comigo para a cozinha.
— Dormiu bem? — ele pergunta
— Uhum. — murmuro sem olhar para ele
— Sua perna está melhor?
— Razoável.
— Eu consegui uma pomada com a Johanna. — ele diz atencioso — Talvez te ajude com as dores.
— Obrigada, Quatro.
— Disponha, Hippie.
Quatro era esquisito. De caladão, ele passou a ser implicante e agora atencioso. Mas o que era mais esquisito era vê-lo usando trajes da Amizade. Nem com todo laranja do mundo ele pareceria mais gentil.
Entramos na cozinha e logo eu vejo as voluntárias de hoje. Na Amizade, o trabalho é braçal. Plantam e colhem, separam, ensacam, enviam para a cidade. Os homens costumam ficar com esse trabalho mais pesado, enquanto as mulheres trabalham com artesanatos, cuidam de plantas, da cozinha e de algumas coisas mais simples.
Elas parecem se assustar ao ver o brutamontes do Quatro atrás de mim, mas ele não parece ligar muito não. Eu avisto um rosto conhecido e me aproximo, pondo a bacia de maçãs em cima do balcão.
— Mary, não é mesmo? — tento soar gentil
— Sim, Sol. — ela sorri confirmando, mas logo se corrige — Maria.
— Eu colhi essas maçãs, como nos velhos tempos. Há algo mais que eu possa colher para vocês? — pergunto dando espaço para Quatro arriar o balde no chão, perto do balcão
— Colher, não. Mas estamos precisando de ajudantes para plantar algumas mudas, na estufa. Será que vocês poderiam se voluntariar? — ela sorri tão gentil, que tenho vontade de beijar suas bochechas
— Por mim, tudo bem. — dou de ombros e olho para Quatro
— Claro. — ele dá de ombros
— Ótimo. — ela sorri satisfeita — Se bem me lembro de sua rotina, você ainda precisa tomar café da manhã, certo? — ela me olha ainda sorrindo e eu confirmo num gesto de cabeça — Então se alimente. Agora é ainda mais importante. — diz e faz um gesto indicando o ferimento em minha perna
— Certo.
— Tudo bem. Vejo vocês na estufa. — ela diz e se afasta
— Vamos. Você precisa comer.
Voltamos para o refeitório e eu monto uma bandeja com tudo que eu quero comer nesse café da manhã. Bolo, queijo e suco. Só.
Me sento na mesa onde meus amigos estão, ao lado de Drew e de frente para Quatro. Tris está ao lado de Quatro, de frente para Drew e Caleb está sentado na ponta da mesa. Ezra está ao lado de Drew.
— Ei, como você está? — Tris sorri para mim
— Com fome.— digo mordendo um pedaço do bolo
— Por que não pegou o pão?— Caleb pergunta
— Eles misturam o soro na receita. Para ajudar no lance da gentileza. — explico e dou de ombros
— Isso explica todo o meu autocontrole até agora. — Drew revira os olhos e a gente ri baixinho
— O que vocês vão fazer hoje? — pergunto
— Ajudar as crianças. — Caleb diz
— Carregar água nas plantações. — Drew diz
— Artesanato. — Tris diz desanimada
— Não desanime. Artesanato é legal. — eu digo
— É o que vou descobrir, Hippie. — ela sorri
— Maria e eu acabamos de ser escalados pra plantar mudas na estufa. — Quatro diz
Paro por um momento, ignorando a conversa que eles começam, sobre plantas e qual trabalho é mais animado e/ou mais fácil. Quatro tem sido muito gente boa comigo e muito gentil, apesar do gênio carrancudo e da personalidade forte. Me pergunto se eu não sou motivo de ciúmes entre ele e Tris. Ela parece super confortável comigo perto dele e até incentiva essa amizade. Tris deve realmente ser muito evoluída, porque eu não sei se veria com bons olhos uma rapariga perto de quem eu amo. Se bem que não há nada com que ela tenha que se preocupar. Quatro e eu somos apenas bons amigos.
— O que acha, Maria? — Quatro me olha
— Hã? — minha mente volta a funcionar na cena
— Dessa roda de música que terá hoje de noite. — ele explica
— Ah, sim. — percebo que o assunto já mudou — É bem legal, embora eu sempre olhasse de longe. Tem fogueira, comida boa, brincadeiras, cantorias, conversas, histórias.
— A Amizade está se mostrando uma facção bem diferente do que eu pensava. — Drew diz
— Isso é porque as pessoas têm preconceito com essa facção. Eu viveria aqui tranquilamente, se não pertencesse à Audácia. — dou de ombros tomando meu suco
— Você não pertence à Audácia. Você é divergente. — Caleb diz e eu respiro fundo, olhando para ele
— Sabe quando você sente que nasceu pra isso? Nasceu pra revolucionar? Não. Claro que você não sabe. — reviro os olhos e sorrio irônica — Eu não fico calada enquanto tem várias porras erradas acontecendo. Eu luto. Aliás, é o que venho fazendo desde que meu pai morreu por conta da sua linda e idolatrada facção.
— A Erudição não tem participação na morte de Logan Prince. — ele defende
— Então você já sabe sobre isso? Já lavaram seu cérebro? — sorrio implicante
— Caleb, chega. — Tris diz rude
— Não acha irônico você achar que a Erudição matou seu pai, mas se envolver com alguém que estava diretamente ligado ao ataque à Abnegação? — ele continua
— O que? — Drew franze o cenho ao me olhar
— Cala a boca, Caleb. — o encaro
— O que? — ele me encara também — Acha que o Eric estava lá porque foi obrigado?
Todos me olham esquisito, mas o olhar que mais me mata por dentro é o do Drew. Parece que ele acabou de tomar um soco no estômago.
— Caleb, eu mandei você calar a boca. — Tris o encara mais rude
— Você matou seus pais, Caleb. — eu o encaro — Mas parece que não se importa com isso, não é? Então não me julgue por eu ter me apaixonado por Eric.
Ele se cala.
Parece se sentir triste ao se levantar e se afastar de nós.
Ignorando o olhar de Drew, eu respiro fundo terminando de comer.
— Bom, eu vou pra estufa. Tô louca pra mexer na terra. — digo me levantando e pondo minha bandeja vazia no local adequado
— Eu te acompanho, Hippie. — Quatro diz beijando Tris e se levantando
— Parem de melação, vocês dois. — reviro os olhos e eles riem
***
Trabalhar na estufa com Quatro não foi r**m. Na verdade, a gente riu bastante. Primeiro nos ensinaram como fazer e depois foi a vez de Mary se desesperar com o modo agressivo de Quatro cavando na terra. Eu acabei caindo na gargalhada e me sentindo mais leve.
Perto da hora do almoço, nós paramos e cada um foi para seu retiro se limpar e trocar a roupa. Dessa vez, após o banho, eu vesti uma calça laranja apertada, uma regata laranja e uma blusa quadriculada em tons de vermelho por cima. Me sentia esquisita usando tanta cor gritante. Calcei galochas pretas e amarrei um lenço em meu cabelo, deixando-o preso.
Na hora do almoço, nos sentamos numa mesa grande junto com Sam. Eu já não falava com a Sam há um tempo, mas gostava dela.
— Por que está de galochas? — Sam pergunta
— Vou dar uma volta na plantação assim que terminar aqui. — explico
— Parece que alguém tá gostando de ser hippie de novo. — Ezra implica rindo e eu mostro a língua pra ele
— Posso acompanhar você? — Drew me olha — Eu tenho que voltar para mexer a terra mesmo.
— Tudo bem. — dou de ombros — Certo, eu já vou indo.
— Se for matar o Caleb, me chama.— digo e pisco para Tris — Sei um excelente lugar pra esconder o corpo.
— Seria uma honra tê-la como cúmplice, Hippie. — Quatro me olha brincalhão
— A honra é toda minha, Cinco.
Deixo minha bandeja no local de descarte e vou seguindo pela grama verde, com Drew ao meu lado. Seguimos em silêncio.
Quando estamos longe do refeitório e passando pela estufa, consigo ouvir um barulho intenso de motores. Devem ser os tratores da Amizade ou as caminhonetes de coleta.
— Sol! — ouço alguém gritar
— Sol? — Drew faz uma careta
Me viro e vejo uma mulher correndo na minha direção. É Lana, minha madrasta. Ela sorri para mim e me abraça apertado. Retribuo o abraço com um sorriso no rosto.
— Deus! — ela ofega — Você tá tão diferente. — aperta meus braços
— Foram só dez semanas, Lana. — comento
— Está ainda mais radiante. — ela diz e então enxerga Drew ao meu lado — Oi.
— Oi. — ele diz perdido
— Drew, essa é a Lana. — apresento — Lana, esse é o Drew.
— Eu tenho que fazer algumas tarefas no estábulo agora, mas não podia deixar de te dar um abraço e ver que você está bem.
— Eu tenho tanta coisa pra contar, Lana. — ofego
— Eu imagino. — ela ri — É estranho te ver com roupas da Amizade, sabendo que você não pertence mais a este lugar. E com esses músculos novos aí.
— Tá, eu te conto mais sobre isso no jantar. — rio
— É bom te ver de novo, minha Sol. — ela me abraça de novo, apertado
— Te amo, Lana.
Lana beija minha bochecha, se despede de Drew e retoma seu caminho. Eu volto a caminhar ao lado dele. Ele parece sem jeito do meu lado.
— Então você está namorando o Eric.— ele diz e eu engulo em seco
— Nos envolvemos, sim, mas acho que não somos namorados. — explico baixo
— Eu não tô aqui pra julgar você. Você não tem culpa de ter se apaixonado por um monstro. — ele respira fundo e parece pensar no que dizer — Maria, eu não te julgo. Queria que você soubesse que o fato de ser divergente não muda nada para mim. Você, Tris e Quatro são pessoas incríveis e essa diferença não vai mudar isso.
— Obrigada pelo apoio, Drew. De verdade. Vale muito. — digo sem jeito
— Queria também que você soubesse que estarei com você para o que você precisar. — ele para e segura minhas mãos
— Obrigada.
Ele se aproxima e beija minha testa de forma demorada e terna. Depois, ele beija a minha bochecha e, ao se aproximar dos meus lábios, eu recuo um passo.
— Drew, por favor.
É então que ouço o barulho de vidro quebrando e pulo arisca feito um felino.
Ergo o pescoço e olho para o alto do celeiro, escritório de Johanna, de onde Quatro e Tris pulam e Eric parece babar de raiva na janela, olhando diretamente para o meio de Drew e eu, onde nossas mãos ainda estão unidas.
Sam surge correndo de trás da gente e vai nos empurrando.
— A Audácia está aqui. — diz ofegante e rápido
— Esperem por mim. — Caleb diz correndo desajeitado atrás de nós
— Se mexe, magricela. — Sam grita
— Vamos embora daqui. Corram em ziguezague. — Quatro ordena ao passar correndo por nós
Péssima hora para estar de galochas.
Começo a correr como se minha vida dependesse disso — pois sei que depende. Entramos na floresta e os tiros são ouvidos e vejo as balas chicotearem nas árvores e no chão. Corro em ziguezague, mas estou quase cedendo. Minhas coxas doem e meu peito arde. Em um momento, Drew está ao meu lado, noutro não está mais.
Sinto alguém me empurrar e então eu caio de cara no chão, por cima de algumas folhas secas.
— Sentiu minha falta, amor?
Aquela voz me arrepia todos os cabelos do corpo e eu viro, ofegante, de barriga para cima. Eric está em sua melhor forma diabólica, com um novo uniforme preto com a faixa azul da Erudição no braço e na perna.
Ele se inclina pra falar comigo, com sua típica cara de deboche.
— Atrapalhei seu momento com seu novo namorado?
— Você me parece mais babaca que antes, projetinho de machão. — respondo
— Me mandaram até aqui pra matar você e, se eu quiser manter minha posição na Audácia, preciso fazer isso.
Respiro fundo e permaneço encarando seu lindo rosto. Ele é um monstro. Bonito monstro. Um monstro lindo.
— A Audácia não existe mais. — digo firme — Vocês viraram lacaios da Jeanine. Você não é líder de mais nada. Ela manda, você obedece.
Ele rosna baixinho e ergue sua mão, apontando sua arma na direção do meu rosto.
— Você é uma fraqueza minha. Uma fraqueza exposta. — ele diz e me pareceu trêmulo — Preciso matar você.
— Mata.
Ele se aproxima de mim, deixando o cano da arma na minha testa. Eu permaneço olhando em seus olhos, porque sinto uma necessidade imensa de estar olhando sua imensidão azul acinzentada. Eric é o meu fim.
Ele ruge alto, como um animal enjaulado e, agarrando minha nuca, ele me arranca um beijo selvagem.
Sinto como se uma corrente elétrica passasse por meu corpo.
Volto a olhar para ele.
Ele fecha os olhos e respira pesado, como se estivesse lutando com algo, internamente.
— Corre. — ele sussurra — Sai daqui.
• Eric •
Retorno para a Erudição com Max na minha cola, vigiando cada passo meu. Faço cara feia e tomo um longo gole d'água, vendo-o entrar no escritório de Jeanine.
Ver Maria hoje fez eu ir à nocaute, mais uma vez. Eu achei que teria coragem de puxar aquele gatilho. Seria simples. Tão simples quanto respirar. Eu a mataria e essa fraqueza sumiria. Mas eu percebi que essa fraqueza já me tomou.
— Eric, podemos conversar?
A voz de Jeanine entra em meus ouvidos e eu a olho, parada na porta de sua sala, enquanto Max caminha para longe. Reviro os olhos.
Entro na sala de Jeanine e me sento. Não por confiar nela, mas sim por estar exausto. Apóio o cotovelo no braço da cadeira e a cabeça na mão, fechando os olhos e respirando fundo.
— Max me disse que você ficou abalado ao ver a Maria, hoje. — ela diz atrás de mim e eu reviro os olhos internamente
— Ele disse?
— Disse. — afirma — Disse também que você tinha a chance certa para pegá-la, mas a deixou fugir.
Merda!
— Você está comigo, Eric? — ela questiona
— Eu estou aqui, não estou? A hippie escapou dessa vez, mas da próxima não escapará. — tento soar o mais convincente possível — Te dou minha palavra.
— Eu confio em sua palavra, Eric. Só não confio em seus sentimentos.
Sinto suas mãos em meu pescoço e então algo me p**a. É como uma agulha. Um líquido gelado entra em meu corpo e eu fico estático. Que merda é essa?