[NARRADO POR MURILO FERREIRA – NA BOCA] O beijo terminou como começa trovão: com o silêncio surdo de quem já sabe que o estrondo vem depois. Melissa ainda colada em mim, peito ofegante, boca vermelha, olhar de quem não perdoa nem quando ama. — “Vamo subir?” — ela perguntou, voz rouca, sussurrada na beira da minha alma. Assenti com o queixo. Mão ainda na cintura dela. A outra escorregando até pegar os dedos finos. — “Vamo pra casa, gata…” Descemos devagar. A quebrada ainda viva, o som da laje ecoando pelas vielas, moto passando devagar, criança soltando riso no beco como se o mundo não tivesse maldade. E quando a gente dobrou a última esquina antes da nossa viela, o grito veio: — “Paaaaiiiiiii!!!” Murilinho surgiu voando do portão aberto, pé descalço, bermuda torta, camiseta com de

