Amanda
Estou cansada. Estou exausta, para ser sincera, depois de ter passado horas dentro da cela. Tomei um banho rápido, mas não em paz e depois fiz a minha caminhada da vergonha até o carro onde Guga e Vivi esperam.
Vivi parece mais feliz que eu. Mais corada também.
— Oi. — Murmuro, com um leve bocejo. Sento-me ao lado de Amanda no banco de trás e fecho meus olhos por um segundo.
— Eai, como foi? — Vivi pergunta, animada.
Olho para ela e depois para Guga, que dá partida no carro. Ele ignora nossa presença, alheio a nós dois.
— Eu não vou falar sobre isso na frente dele.
Ela bufa e revira os olhos.
— É só o Gustavo.
— Eu não me sinto confortável, foi m*l.
Afinal, por mais que ela fosse conhecida dele a anos, eu não era. Não tinha esse costume de ficar expondo a minha vida — e agora que tinha uma vida s****l, não sairia falando sobre isso abertamente.
— Eu tô moída. — Resmungo. — Eu só preciso ir pra casa, dormir e aceitar que minha existência não é nada nesse universo.
— Você deveria vir no churrasco amanhã. — Propõe. — Vai a família toda.
— Eu não sou da sua família. — Resmungo.
— Aí, cavala. — Ela faz uma careta. — E você é, sim. É a única mulher do meu irmão que minha mãe gosta.
A encaro, horrorizada.
— Obrigada por esfregar na minha cara que eu sou só mais uma. Me toca muito.
Ela dá uma risadinha.
— Quem sabe futuramente você não se torne a única? — Ela dá de ombros.
Não respondo, viro-me para o outro lado, observando a paisagem que começa a passar por nós enquanto repasso todos os últimos acontecimentos, um a um, na minha cabeça.
Encosto a cabeça no vidro frio da janela e deixo as luzes da rua passarem rápido demais diante dos meus olhos. O mundo segue, mas eu só queria parar por um segundo. Meu corpo dói, minha mente gira, e ainda assim, dentro de mim, algo lateja: uma estranha sensação de pertencimento que não pedi pra sentir.
— Eu não vou em churrasco, desculpa — digo, tentando soar firme, embora minha voz saia cansada. — Eu não quero forçar a minha presença para a sua família.
— Tudo bem. — Vivi sorri de leve, como se entendesse. — Mas só pensa com carinho, tá? Minha mãe ia adorar ver você lá.
Quando chegamos em casa, eu jogo a bolsa e todo o restante que carrego no sofá, tranco a porta e me levo direto para o quarto. As minhas pernas estão pesadas por ter acordado tão cedo de manhã e pelo cansaço físico que passei hoje mais cedo. Consigo me lembrar vividamente de cada momento, de cada toque, cada olhar dele.
Sinto um arrepio percorrer meu corpo e balanço a minha cabeça, tentando dispersar as memórias. Estou assim por ser a minha primeira vez, mas muito certamente ele está agindo como se tivesse sido só mais uma f**a boa — ou nem isso.
Deito e puxo um dos travesseiros para o meu peito. Fecho meus olhos, mas a minha mente insiste em voltar para a cela. Cada sussurro, os beijos que ele me deu que pareciam carregados de fome... droga!
Respiro fundo, mas nada adiante. Não consigo desligar meus pensamentos. O celular vibra na minha cabeceira e eu me estico um pouco para pegá-lo. Não desbloqueio, mas leio a mensagem de Vivi pela tela de notificação:
"Pensa no churrasco, por favor. Vai fazer bem. Te juro."
Revir os olhos e sorrio levemente. Me viro para o outro lado, procurando por uma posiçaõ confortável. Vou descansar só um tiquinho antes de me levantar e procurar alguma coisa para jantar...
— Essa menina não desiste nunca — murmuro para o quarto vazio, largando o telefone de novo.
Viro pro outro lado e permito-me relaxar antes de apagar.
❝❞
Acordo em um sobressalto. Acho que sonhei com alguma coisa, mas não consigo me lembrar. São quase onze da noite, então corro para o banheiro, tomo mais um banho e me visto com roupas confortáveis — um shorts canelado e uma blusa de manga levinha do mesmo tecido. Pesco meus chinelos e saio, trancando a porta atrás de mim.
Subo o restante da ladeira até uma lanchonete um pouco cheia no topo. Amo o lanche daqui, mas é um milhão de vezes mais prático vir buscar do que esperar o motoboy, já que é realmente movimentado.
Depois que faço meu pedido, me sento uma das mesas e, finalmente, pego meu celular para ver as últimas mensagens.
*
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