Algumas mensagens do grupo da faculdade sobre a minha nova clínica de estágio e alguns trabalhos que estão chegando em breve. Algumas mensagens de uma amiga que foi morar em outro estado e por últimos, aquelas que tenho lutado para ignorar.
VH: Você não deveria estar sozinha a essa hora.
Eu: Como você sabe onde eu estou?
VH: Eu sei de tudo.
O que está fazendo?
Eu: Comprando alguma coisa para comer.
Seus informantes não te contam dos meus exatos passos?
VH: Queria ouvir da sua boca.
Eu rio, sozinha. Reviro meus olhos e suspiro, meus dedos pairando sobre a tela.
Eu: Isso é ser um stalker, sabia?
VH: Stalker apaixonado. Faz diferença.
Meu estômago embrulha. Mordisco a pontinha dos meus lábios.
Eu: Você deveria estar dormindo.
VH: É difícil conseguir dormir nesse lugar. Mas quero saber como você está. Depois de hoje, não machuquei você, né?
A tela brilha de novo antes que eu consiga guardar o celular.
Meu peito aperta. Me inclino para frente, apoiando os cotovelos na mesa, como se isso fosse aliviar a sensação sufocante que toma conta de mim. O atendente chama meu nome, mas demoro um segundo a mais do que deveria para me levantar.
Eu: Não, você não me machucou.
Minhas mãos tremem um pouco quando digito, e isso me irrita. Apago. Escrevo de novo. Apago de novo. Acabo deixando para lá.
VH: Bom. Porque eu nunca me perdoaria.
Eu: Vou pegar minha comida. Falo com você depois.
Coloco meu celular no bolso de trás do short, vou até o caixa e pego as sacolas com a coca-cola e o hamburguer e batata dentro. Quando estou prestes a sair, um leve murmúrio chega aos meus ouvidos:
— p*****a. — Ela murmura.
Ignoro, realmente tentando pensar que essa merda não foi comigo. Que eu estou fantasiando coisas que não estão acontencendo, mas...
— Eu tô' falando com você mesmo, Amanda. — Ela grunhe, atrás de mim. — Quem você pensa que é para ir visitar o meu marido na cadeia?
Eu travo, estática. Depois, giro em meus próprios calcanhares e franzo meu cenho.
— Oi? — Pergunto, confusa.
— Além de uma p**a também é surda?
Suas palavras me pegam de surpresa, porque não imagino que essa merda está acontecendo mesmo.
Meu coração dispara, batendo no mesmo ritmo apressado dos meus passos que agora pararam. A lanchonete parece encolher, o barulho das conversas ao fundo virando um zumbido insuportável.
— Seu marido? — Minha voz sai mais alta do que eu queria. — Eu não faço ideia do que você tá falando.
Ela ri. Um riso seco, cheio de veneno.
— Não se faz de sonsa. Você acha que ninguém vê? Acha que eu não sei que você é a visita íntima dele?
Sinto o chão abrir debaixo de mim. O ar some.
— Eu... — Gaguejo, sem saber se n**o ou se grito de volta. — Eu não sou... não é assim...
— Cala a boca! — Ela rosna, aproximando-se um passo. — Tá pensando o quê? Que pode roubar o que é meu? Que pode se meter onde não deve?
Minha garganta fecha, mas a raiva me pega de jeito. Aperto a sacola de papel até quase rasgar.
— Espera, nós estamos falando do mesmo homem? — Eu pergunto, uma última vez.
Ela ri de novo, mas dessa vez não tem nada de engraçado. É um riso amargo, debochado, como se a minha pergunta fosse a maior piada do mundo.
— Você sabe muito bem de quem eu tô falando. — Ela cospe as palavras. — Do VH. Do meu marido.
Meu estômago dá um nó tão forte que eu quase engasgo com o próprio ar.
— Marido? — Repito. — Eu não me lembro de ter ouvido que ele era marido de alguém.
— É claro que não falou. — Ela cruza os braços, os olhos me queimando. — Porque vagabundo é assim: adora fingir que tá livre pra comer qualquer uma. E você caiu direitinho.
Eu ergo as minhas sobrancelhas, surpresa. Ela está prestes a dizer mais alguma coisa quando uma terceira voz se junta a briga generelizada. É só então que consigo ver que todos estão nos olhando:
— Que eu saiba, o chefe não tem mulher. — O homem diz, entrando com um sorrisinho de canto.
— Não se mete, Dvinte. — Ela resmunga.
— Impossível não me meter. Tua briguinha já chegou lá na cadeia e ele tá muito puto.
Eu me encolho e suspiro pesadamente.
— Olha, eu não...
— Patroa, a senhora pode ir embora. Guga tá esperando lá na frente, eu vou conversar com a Milena aqui. — Ele diz, me encarando.
Patroa? A p***a de um traficante tá me chamando de patroa?
— Eu não... — Tento começar, mas a garganta arranha.
Milena estala a língua, e dessa vez o ódio dela é quase palpável.
— Eu tô com VH desde muito antes de...
— Isso não tá significando muita coisa não, Milena. — Ele ri, enquanto eu me viro para sair e deixá-los. — O patrão já espalhou pra todo mundo que é a nova zero um dele.
Lá fora, o ar noturno corta minha pele. Guga já tá encostado no carro, fumando, e quando me vê, levanta a sobrancelha.
— Vamo, eu vou te levar pra casa.
Subo no carro, fechando a porta devagar, quase com medo de ouvir mais alguma coisa que vá explodir dentro de mim. Guga liga o carro sem dizer nada. E eu só consigo repetir mentalmente, em loop, aquela palavra que ainda martela minha cabeça: Patroa.
Patroa dele. A nova zero um.
Eu quero fugir. Credo!
*
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