Quando entro em casa, eu tenho certeza que nunca estive tão possessa na vida quanto hoje. Me despeço de Guga e me jogo no sofá com força. Que inferno. Em que merda eu fui me meter?
A maior dúvida era como toda essa gente sabia do que estava acontecendo e como a fofoca tinha chegado tão rápido nas várias mulheres que VH tinha?
Eu nem tinha contado pra ninguém. Não tinha postado nada, não tinha comentado com amigas, não tinha dado a mínima brecha. Mas parece que cada passo que dou tá sob vigia. Como se minha vida fosse uma tela exposta pros outros apontarem e comentarem.
E pior: eu não sei o que é verdade e o que é invenção. Milena se comporta como se fosse casada com ele. Dvinte falando que ele já espalhou que eu sou a "nova zero um". E eu ali, no meio, parecendo a i****a que caiu no conto e protagonizei uma briga.
Minha primeira briga.
Por causa de um traficante.
NA FRENTE DE TOMO MUNDO.
Minha mãe deve estar se revirando no túmulo. E eu só consigo me sentir um burra, tonga, i****a.
O celular vibra. O nome dele na tela.
VH: Chegou em casa bem?
Abro a conversa com o punho cerrado.
Eu: Cheguei. E você, por acaso resolveu
virar marido de alguém sem me avisar?
A resposta vem rápida, como sempre.
VH: Que p***a é essa, Amanda? Do que você tá falando?
Eu: Do que toda a lanchonete já sabe. Do que a Milena gritou na minha cara.
Do Dvinte falando que você já espalhou pras suas
mulheres que eu sou a nova "zero um". Você me enfiou nessa merda?
Silêncio. Os três pontinhos aparecem e somem. Ele demora.
VH: Eu não espalhei nada. Não é como você tá imaginando.
Eu: Então me explica o que é, porque eu tô no meio de
uma briga por causa do seu "não é como você tá imaginando".
VH: Milena é a Milena. Ela faz o que faz.
Não sou eu que mando no que as pessoas inventam.
A raiva sobe quente, rápida.
Eu: Você devia ter ME avisado. De tudo. De que tinha essas mulheres,
de que tinha essa história com ela.Eu não quero problema, VH.
VH: Não tinha motivos pra te avisar nada. Você não é nenhuma inocente nessa história, sabia muito bem onde tu tava se metendo quando veio aqui.
Eu: Eu sabia onde tava me metendo? Jura?
Porque eu não lembro de nenhum aviso dizendo "olha,você vai virar alvo de ciúme de maluca que eu já comi".
Os três pontinhos aparecem de novo. Somem. Voltam.
VH: Você não tá entendendo.
Eu não dei espaço pra ninguém.
Se Milena se sente dona de mim, o problema é dela.
Se Dvinte falou merda, eu resolvo com ele.
Eu: Fácil falar. Quem ficou com fama de vagabunda
na frente de todo mundo fui eu.
VH: Amanda... eu não tenho controle sobre a boca dos outros.
Eu suspiro, jogo o celular para o lado. Não respondo. Não devia nem estar pensando nessa merda, mas estou envolvida até o pescoço agora.
Eu: Vh... Não sei se consigo continuar fazendo isso.
VH: É Victor pra você, e sinceramente?vai dormir, amanhã é outro dia.
Você tá de cabeça quente, falando merda já.
O celular escorrega da minha mão e cai no sofá. Eu fico olhando pro teto, com o peito subindo e descendo rápido, tentando entender em que momento eu perdi o controle de tudo.
Engulo seco, mas não adianta. A garganta arranha, os olhos ardem. Eu não vou chorar por ele. Não vou. Que situação de merda!
❝❞
Dormi no sofá. São sete da manhã quando acordo, pulando da cama assustada. Olho para os lados para conseguir me localizar e jogo o cobertor para o lado. A tela da TV mantém-se ligada com a mensagem "alguém ainda está assistindo", que deve ter aparecido depois que dormi.
Minha cabeça lateja. Me arrasto até o banheiro, lavo o rosto, passo a escova nos dentes e encaro meu reflexo. Olheiras fundas, cabelo emaranhado, cara de quem não dormiu nada direito. Exatamente o que aconteceu.
Penso no churrasco. No convite da Vivi. No jeito dela sorrindo como se eu já fosse parte da família. Parte da família dele.
Solto um suspiro pesado. Não quero ir. Não quero me enfiar em mais uma cena pública, em mais cochichos, em mais olhares que dizem tudo sem falar nada. Mas também não quero decepcionar Vivi. Ela gosta de mim, aparentemente e eu também gostei muito dela, e eu não tenho coragem de ser grossa com alguém que foi tão legal.
Eu sei que o churrasco é da Vivi. Ela convidou porque quer mesmo. Mas é a família do VH que vai estar lá. E isso me incomoda um pouco.
Vivi: (foto)
Se você não vier, minha mãe
vai chatear. Ela já perguntou de você :)
Vejo a notificação e meu estômago dá um nó. A foto é da mesa do quintal, já com cadeiras arrumadas, caixa de som no canto e uns sacos de carvão no chão. O churrasco nem começou e já parece que todo mundo lá.
Mordo o lábio, pensando no que responder. Digitar "não vou" parece simples, mas não é. A Vivi não merece levar um gelo, muito menos virar motivo de cobrança da mãe dela por minha causa.
Eu: Bom dia. Ainda tô decidindo.
Apago. Escrevo de novo.
Eu: Vou me arrumar.
Pulo do sofá, simplesmente aceitando que não tem mais volta. Tomo um banho bem demorado, coloco uma roupa fresca, uma saia preta com dois cintinhos super fofos e uma camisa do Flamengo que ganhei de uma amiga da faculdade no meu aniversário. Tem Mandy escrito atrás, uma gracinha.
Nos pés, ponho uma havaiana branca e meu relógio no braço esquerdo, minhas pulseiras, meus anéis - em uma única mão - e, finalmente, saio de casa. Ainda sem muita coragem, mas vou. Chamo um moto taxi que tá passando ali por perto e peço para me levarem para o endereço que já conheço — mesmo que nunca tenha ido lá pessoalmente.
Aqui no morro é meio difícil não saber onde o chefe — ou a família dele — moram, quando eles tem casas estupidamente grandes ou bonitas, o que destoa um pouco das dos outros moradores e uma coisa que todo mundo aqui sabe é que a família do VH sempre teve bom gosto.
A mãe dele fez a casa mais bonita daqui, sem dúvidas.
Quando chegamos, o portão tá entreaberto e dois meninos estão conversando na frente e fumando. Eles me olham por um segundo e voltam a bebericar as próprias cervejas, quase como se eu nunca tivesse aparecido. Pago o menino e entro na casa, meu coração martelando no peito.
Todo mundo me olha. Alguns de relance, outros me encaram. Rostos que conheço, mas não sei quem são.
— NÃO ACREDITOOOO! — Vivi grita, vindo em minha direção. — Aí, ainda bem que você veio, cunha. Minha mãe vai amar saber. Ô MÃE!
Célia sai em segundos e um sorrisão rasga o rosto dela.
— Amanda, minha filha! — Ela anda até mim, muito mais animada do que imaginei que ficaria depois de me ver. — Ainda bem que você veio. Vamos te apresentar pra família, vem.
E de alguma forma, eu me sentia super acolhida, muito mais do que me senti pela minha própria família.
*
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