Os próximos quinze dias depois da conversa tensa que tive que VH foram cheiros, o que me deu uma boa desculpa para não estar disponível para ele ou suas chamadas de vídeo. A grande questão é que quando as obrigações batem a porta, não tem como sair dessa ou correr.
E é exatamente isso que estou passando agora.
O carro está silencioso. Viviane dorme no banco de trás, enquanto recosto a minha cabeça no vidro do carro. Guga está dirigindo despreocupadamente, quase como se não tivesse escondido uma pistola embaixo do banco dele.
Está tão confiante que nada vai dar errado, que eu me coloco no lugar de nos preocupar por nós dois.
A mãe de VH hoje me deu alguns itens a mais. Eu teria que depositar — foi exatamente assim que ela disse — essas coisas logo de manhã. Quando o nosso carro parou na entrada, todos os olhos se viraram para nós.
Viviane desceu primeiro, pegando suas bolsas pesadas e sequer me esperando, os olhos meio fundos. Ainda dormindo enquanto fazia aquele mesmo trajeto que eu tinha feito na semana passada, do mesmo jeito, mas ninguém tinha coragem de falar com ela da mesma maneira que falou comigo.
— Ninguém vai mexer contigo mais. O VH resolvou o b.o lá dentro. — Ele explica. — Pode ficar tranquila.
Eu aceno com a cabeça, pressionando meus lábios juntos.
— Tá' tudo bem? — Ele pergunta, depois de um tempo. — Tu não é quetinha assim.
— Só tô cansada. A faculdade está pesadinha esse fim de semestre. — Minto.
Porque a verdade é que eu não queria ter que vir visitar VH depois do jeito que ele falou comigo, depois da briga, depois que meu nome virou motivo de fofoca na favela por causa dele e das coisas que os homens dele falavam pras pessoas. Só que agora eu tava envolvida até o pescoço.
Guga confere o retrovisor, me dá um leve aceno e eu desço rapidamente, carregando as bolsas pesadas. Ouço os sussurros das outras mulheres de preso, que ainda parecem querer se acostumar com a minha presença - mesmo que a contragosto - e entro no portão que é aberto para mim.
Entrego as coisas para uma mulher, que me encaminha para a sala de revista e que, quando acha a humilhação suficiente, me libera. Não é mais a mesma de antes, aquela que me disse coisas horríveis, é uma outra, igualmente carrancuda, mas guarda seus comentários para si.
Sou encaminhada para a cela de visita intima e preparo tudo como da última vez. Estou menos nervosa, mas ainda estou irritada.
Quando VH entra, meu corpo reage antes mesmo da minha cabeça. Eu fico reta, tensa, como se tivesse que me defender de algo. Ele fecha a porta atrás de si, o olhar cravado em mim, e o ambiente inteiro parece encolher.
Ele se aproxima devagar, seus dedos encontram a minha cintura e ele se inclina para me beijar, mas desvio o rosto levemente, seu beijo tocando a minha bochecha. VH suspira pesadamente, segura meu queixo e me obriga a encará-lo:
— Que foi, dona encrenca?
Eu suspiro.
— Nada. Sua mãe fez comida... de novo. — Murmuro, enquanto me remexo para me soltar dele.
Ele não solta. Os olhos estreitos, como se pudesse ler cada coisa que eu não disse.
— Não mente pra mim. — A voz dele é baixa, firme. — Eu sei quando tu tá de cara virada.
Reviro os olhos, tentando disfarçar. — Eu só tô cansada. Só isso.
VH encosta o corpo no meu, firme, sem deixar espaço.
— Tu acha que eu não percebo quando tu foge de mim? Quinze dias me deixando falando sozinho, Amanda. Quinze. — Ele aperta meu queixo de leve. — Eu sou teu homem, não um colega da faculdade que tu pode ignorar quando quer.
A raiva me sobe pela garganta.
— Meu homem? — Repito, quase rindo de nervoso. — É isso que tu acha que é?
Ele arqueia a sobrancelha, desafiador.
— Eu não acho. Eu sei.
Cruzo os braços, o peito acelerado.
— Sabe o que eu sei? Que fiquei com fama de i****a na frente de todo mundo por tua causa. Que cada passo que eu dou é motivo de cochicho. E que tu ainda tem coragem de falar como se eu tivesse que te agradecer por isso.
Ele segura meu pulso, não com força, mas o bastante pra não me deixar sair.
— Eu segurei as pontas lá dentro, Amanda. Tu não tem ideia do que eu tive que fazer pra calar boca de gente. Se hoje tão cochichando menos, é porque eu mandei.
Meu estômago se revira. Uma parte de mim queria acreditar, a outra queria mandar ele se f***r ali mesmo.
— Eu não pedi pra você fazer nada. — Cuspo as palavras. — Eu só queria que tivesse me respeitado desde o começo.
O silêncio pesa. Ele me encara fundo, a mandíbula travada. Depois, solta meu pulso devagar, como se estivesse se controlando.
— Tu fala como se tivesse saída. — A voz dele é mais baixa agora, quase um aviso. — Mas já tá comigo, Amanda. Gostando ou não.
— Olha aqui, VH... — Começo a falar.
— Já falei que não quero você me chamando assim, Amanda. — Reclama. — Tu não é nenhum marginal pra ficar me chamando pelo meu vulgo, tu é minha mulher e tem que me chamar pelo nome.
— Já falei que não quero você me chamando, Amanda. — Reclama. — Tu não é nenhum marginal pra ficar me chamando pelo meu vulgo, tu é minha mulher e tem que me chamar pelo nome.
Eu arqueio a sobrancelha, engulo a vontade de rir e respondo rápida:
— Minha mulher? — Repito, seca. — Tu acha que eu vou aceitar ser tua "mulher" só porque tu mandou?
Ele suspira, jogando-se na cama. Parece se acalmar um pouco.
— Eu te vejo a cada quinze dias, a gente vai ficar brigando mesmo? — Ele pergunta, piscando para mim.
— Victor... — Seu nome deixa meus lábios e eu paro, pensando nas próximas palavras. — Eu só quero que você me respeite. Não quero sair com fama de vagabunda por ser amante ou de corna mansa por não ter seu respeito lá fora.
Ele estica as mãos em minha direção, seus dedos seguram meus quadris com força e ele beija levemente a minha barriga por cima do tecido. Como chegamos aqui em tão pouco tempo? Eu não deveria estar brigando sobre ser mulher dele ou não... eu nem queria... droga!
— Eu sei e peço desculpas. — Ele segura a minha nuca, inclinando-me para ele. — Eu só quero você, morena, quando eu sair daqui, não vai ter mais ninguém, eu te juro.
— E aqui tem mais alguém?
— Nunca. — Murmura. — Faz tempo que não tenho contato com mais ninguém, morena. Eu juro.
— Eu não sei se acredito em você...
Ele puxa o corpo junto ao meu, perto demais. O hálito quente dele bate no meu rosto. Tudo em mim quer ceder. Tudo em mim quer mandar ele se f***r.
— Acredita. — Diz baixo, firme. — Eu não minto pra você.
Eu não respondo. Não consigo pensar em mais nada. Minha cabeça está uma confusão, mas quando a sua boca encosta na minha, eu esqueço de tudo.
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