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Eu acordei muito cedo. A irmã de VH tinha se esforçado para me manter entretida, mas era inevitável que o amanhã chegasse e com ela a visita.
— Você lembra de tudo que te falei? — Guga pergunta, chamando a minha atenção.
Aceno com a cabeça, com dificuldade.
— A gente ajeitou tudo pra você. Não vai precisar enfrentar essa fila — Olho para fora, vendo as mulheres vestidas de moletom, rindo entre si. — E eu vou te levar até a porta só por garantia de que não vai ter barulho.
— E vai ter? — Pergunto.
— Pode ser que sim. Algumas mulheres daqui conseguem ser muito barraqueiras, então vamos evitar. — Ele dá de ombros.
— E porque eles não fazem o mesmo que o VH pra elas entrarem na frente? — Minha dúvida é sincera.
— Dinheiro. Nem todo bandido tem todo o dinheiro que o chefe tem, Amanda. — Ele dá de ombros. — E já tá na hora de entrar. Só não faz contato visual, falô?
Eu aceno com a cabeça, nervosa. As palavras dele me deixaram ainda mais nervosa quando percebi que estava furando fila no meio de um monte de mulheres raivosas que estavam a dias sem ver seus maridos.
Elas podiam arrancar minha cabeça, se quisessem. E com certeza fariam se eu não fosse escoltada por um homem ainda maior do que eu.
Descemos lado a lado, Guga abre o porta malas e pega as duas bolsas pesadas, me entregando uma. Olho-me no reflexo do vidro do carro, a blusa branca e uma calça de moletom cinza me fazem sentir uma presa.
O sol já começara a aparecer, queimando o meu rosto. Sou obrigada a colocar a mão sobre a testa quando tento enxergar um pouco mais a frente. Guga avança, e eu me apego à sua sombra, mantendo a cabeça baixa como ele mandou, evitando contato visual.
— Quem essa p**a pensa que é? — uma voz áspera cortou o ar, seguida de um murmúrio que crescia como um enxame.
Eu congelei, mas Guga nem diminuiu o passo.
— Ignora, Amanda. Só anda.
— Ela não é mulher de ninguém! — outra murmurou. — Deve ser alguma p*****a, uma amante.
— Ela vai passar na frente sem número? — Uma terceira.
— Ei! — Uma teve coragem de chamar. — Eu não dormi a noite toda aqui pra uma ninfeta chegar e passar na minha frente, não!
Senti dezenas de olhos me perfurarem, cada um como uma agulha de raiva pura. Todas elas pareciam sentir ódio de mim, uma mulher que não tinha feito nada.
Guga parou de repente e se virou para a mulher que havia gritado. Ele não precisou dizer uma palavra. Seu silêncio e o olhar fixo foram mais ameaçadores que qualquer grito. O murmúrio morreu instantaneamente.
— Ela é visita do VH. Algum problema? — sua voz era baixa, plana, e carregava um peso final.
O nome "VH" agiu como um feitiço. As expressões de ódio se transformaram em medo, e então em resignação. Algumas desviaram o olhar, outras viraram as costas, retomando conversas falsas.
Meu estômago embrulhou. Não era alívio que eu sentia, era vergonha. Eu não tinha enfrentado nada; tinha sido apenas um fardo, um problema que o nome de um homem resolveu. Guga puxou meu braço gentilmente.
— Vamos. Já passou.
Assim que chegamos a entrada do portão, ele me entregou a bolsa que carregava e suspirou:
— Entregue. Vou estar aqui quando acabar.
Eu aceno com a cabeça, envergonhada. Não digo nada, apenas mordo a bochecha e me viro, encontrando uma policial a minha espera.
— Bom dia, me acompanhe. — Diz, depois que Guga sai.
O alívio de ter deixado a fila para trás durou apenas o tempo que levou para cruzar o portão principal. O ambiente lá dentro era outro: um corredor abafado, com paredes sujas e um cheiro forte de desinfetante barato que não conseguia esconder o odor base de mofo.
Guga não pôde me acompanhar além da revista. Fui encaminhada por uma agente penitenciária de rosto cansado e mãos ásperas para uma pequena sala, onde outras duas agentes procederiam à revista íntima. O constrangimento era um peso vivo no meu peito.
Uma delas, um pouco mais nova que as outras, me encarou de cima abaixo, um sorriso irônico brilhando no seu rosto:
— Nossa, tá perdida, amor? — ela disse, a voz um misto de falsa doçura e provocação. — Acho que pegou o endereço errado. O spa é lá na Barra.
A outra agente, mais velha, soltou uma risada curta e seca, continuando a revistar minhas roupas com movimentos mecânicos. Eu me encolhi, cobrindo o torso com os braços, sem saber onde olhar.
A agente mais nova se aproximou, circulando ao redor de mim como um abutre.
— Sério, moça. Que é que uma menina bonita dessas, dessas fina, tá fazendo num lugar desse? — Ela fez uma pausa dramática, para garantir que eu estava ouvindo. — Não me diga que também caiu no conto do "amor". Essas daí de fora — ela fez um queixo-signal em direção ao portão, de onde vinham os murmúrios da fila —, pelo menos tão aqui pela família, pra sustentar filho... ou porque são tão fodidas que não têm outro lugar pra ir. Mas você...
Queria dizer que não sou muito diferente. Que estou aqui por ser uma fodida, mas me contenho.
Ela parou na minha frente, seu olho percorrendo meu corpo de uma maneira que me fez sentir nua de um jeito completamente diferente.
— Você tem cara de quem tem opção. Então é por dinheiro mesmo, né? — Ela riu, um som áspero. — É isso? Se submete a esse tipo de coisa, a esse nojo todo, por uma grana? É cada uma que me aparece...
O calor da vergonha subiu da minha barriga para o meu rosto, que ficou em chamas. Minha boca estava seca, e as palavras que eu talvez tentasse dizer morreram na garganta. Qualquer explicação soaria fraca, ridícula, e confirmaria tudo o que ela estava insinuando. Ela não queria uma resposta; ela queria constranger, mostrar quem mandava naquele pequeno inferno.
Fiquei quieta. Olhando fixamente para uma mancha de umidade no chão, tentando me fazer pequena, invisível. A humilhação era um gosto amargo na língua. Ela tinha tocado na ferida que eu mesma já sentia do lado de fora: eu era diferente, e não era melhor. Era pior.
A agente mais velha, vendo meu silêncio constrangido, interveio com um tom de cansaço.
— Deixa ela, Carla. Faz o teu serviço e pronto. Próxima.
A agente mais nova, a Carla, ainda me encarou por um segundo mais longo, com aquele sorriso de canto de lábio, antes de fazer um gesto brusco com a cabeça.
— Pode se vestir. E boa sorte aí, princesa. Vai precisar.
Vestir-me foi o ato mais solitário da minha vida. Cada peça de roupa era uma camada a mais de vergonha que eu tentava esconder. Eu não era apenas uma intrusa para as mulheres lá fora; era uma piada para as mulheres de dentro também. E naquele momento, sozinha e envergonhada, eu não conseguia encontrar nenhum argumento, nem mesmo dentro de mim, para provar que elas estavam erradas.
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