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Amanda
Eu acordei na merda as sete da manhã e ainda tinha uma hora de ônibus para lidar. Meu corpo dolorido me fazia duvidar se eu conseguiria aguentar as longas horas que tinha pela frente do curso integral.
Visto-me com uma calça jeans de lavagem clara, uma regata preta, pesco a minha jaqueta na poltrona e a minha mochila. No sofá da sala, visto meus tênis. Confiro uma última vez todos os meus materiais e saio de casa, parando um segundo ao encontrar um outro garoto de moto parado na entrada.
— Oi, Amanda? — ele pergunta, curto, sem rodeios.
Assinto, ainda sonolenta, e ele estende uma pequena sacola entre os dedos.
— É pra senhora. — diz, sem esperar que eu pegue logo.
— Quem mandou isso? — Pergunto, franzindo meu cenho.
— O patrão. — Diz. — Ele mandou a dona não sair com tudo isso aí pra pista.
— Obrigada... eu acho. — Sussurro. — Eu...
— Falou, Dona. Tô metendo o pé. — Fala, antes de ligar a moto e voar morro abaixo.
Fico parada por algum tempo, sentindo os olhos dos vizinhos em mim, parecendo se questionar o que aquele menino estava fazendo na minha porta. Todo mundo sabe quem ele é, eu também sei. Suspiro e entro novamente, ignorando meu atraso.
Quando entro em casa, abro a sacola com cuidado. Dinheiro vivo. Muito dinheiro. Meu estômago se revira e sinto um arrepio percorrer minha espinha. VH está infiltrado na minha vida agora, mesmo estando na cadeia.
O celular vibra. Desbloqueio a tela.
VH: Mulher minha não anda dura. Se precisar de mais, é me avisar.
Meu coração acelera. Olho para o dinheiro e o cartão e sinto aquele misto de culpa e alívio: ele resolve coisas que eu não consigo.
Sento na mesa, abrindo o cartão. Planejo mentalmente o que posso comprar no mercado, o que posso pagar sem precisar ficar fazendo contas no celular. Meus olhos se enchem de lágrimas quando percebo o que estou fazendo para não precisar deixar meus sonhos de lado.
E eu nunca mais vou poder me livrar dele. Nunca mais.
***
O dia se arrasta. Não consigo prestar atenção na matéria e tenho que lutar para não parecer tão aérea perto das meninas. Passo no banco para depositar a quantia exorbitante que ele me enviou no almoço e como, pela primeira vez, em um restaurante no CT. Sozinha. Pensativa.
As cinco da tarde, deixo a faculdade e, enquanto estou no ônibus, tomo a decisão de ir ao mercado.
Chego ao mercado com o coração acelerado, sentindo um misto de ansiedade e excitação. Coloco no meu carrinho tudo que sempre quis comprar e nunca tive dinheiro, mesmo quando era com o meu pai. Quando termino de pagar tudo, mesmo que a conta tenha sido absurdamente cara, não consigo deixar de sorrir.
Enquanto saio do local com o carrinho cheio, meu celular vibra no bolso de trás da minha calça.
— Morena... já tá indo pra casa? Quero saber se tá tudo certo com o que te mandei.
Meu coração dispara. Respiro fundo antes de responder, tentando parecer calma:
— Tudo certo, VH. Obrigada de novo.
Alguns segundos depois, ele responde:
— Eu sei que ainda tá pensando em mim. Tá bem, gostosa?
Sinto meu rosto queimar. Gostosa... aquela palavra, vindo dele, me deixa sem fôlego.
— Sim, só preciso arranjar um taxi para ir embora. Vim ao mercado.
— Me avisa quando pegar e me fala a placa, vou mandar os menor' ficarem na atividade e abri a barricada. — Explica.
Me assusta que ele saiba onde moro mesmo preso, mas aceno, mesmo que ele não possa me ver.
— Pode deixar, VH. Vou te falar quando estiver dentro do táxi. — Respiro fundo, tentando não tremer.
— É isso que eu gosto de ouvir, gostosa. — A voz dele baixa e firme, carregada de posse. — Não quero nenhuma surpresa, entendeu? É só você, morena. Só minha.
Sinto um arrepio percorrer minha espinha. Cada palavra dele parece me apertar o peito, e ao mesmo tempo... me faz sentir estranhamente segura.
— Entendi... — murmuro, quase sem fôlego.
— Boa. Agora vai logo, antes que eu fique pensando demais em você. — Ele solta um riso baixo, quase um ronronar.
Enfio o celular no bolso e caminho até a frente do mercado, tentando não demonstrar que meu coração está prestes a explodir. Cada passo parece mais pesado e leve ao mesmo tempo, como se estivesse flutuando entre medo e excitação.
Enquanto espero o táxi, meu olhar se perde nas ruas vazias do fim de tarde, e sem perceber, começo a imaginar o quanto minha vida já está mudando por causa dele. Nunca pensei que minha vida ia mudar tanto em dois dias e o pior é que eu estou gostando. Muito.
Quando finalmente vejo o táxi se aproximar, puxo o celular de novo:
Eu: Estou entrando agora, VH. Vou te mandar a placa.
Tiro uma foto e envio rapidamente.
VH: Perfeito, morena. Agora vai tranquila.
O táxi para na frente de casa, e eu respiro fundo, pegando a sacola com os itens do mercado e o celular.
Eu: Cheguei, VH.
***
Quando a janta está quase pronta, envio uma mensagem rápida para Duda chamando-a para dormir comigo hoje. Estou nervosa para caramba e não quero ficar sozinha.
O barulho da porta me faz pular.
— Amanda! — Duda entra correndo, mochila jogada de qualquer jeito nas costas. — Trouxe meu travesseiro, hein! Hoje a noite é sua, então espero que esteja pronta pra muita fofoca.
Sento-me na cama, tentando parecer calma, mesmo que meu coração esteja acelerado.
— E aí, tudo certo com o VH? — pergunta Duda, se jogando na cama ao meu lado. — Você aceitou?
Engulo em seco, sentindo meu estômago revirar, mas desta vez não há hesitação:
— Sim... eu aceitei.
Duda solta um sorriso enorme, quase pulando de alegria.
— Eu sabia que você ia topar! — diz, animada. — Amanda, amiga... você vai conseguir tudo o que precisa agora! Faculdade, comida, casa... e ele vai cuidar de você!
— Eu sei... é só que... — murmuro, tentando explicar o turbilhão de sentimentos. — É tudo muito rápido, e eu nunca achei que...
— Eu entendo, amiga, e espero que não fique chateada comigo, mas estava me matando ver você assim, querendo desistir das coisas que lutou muito pra conseguir. — Diz.
— Eu sei... — Suspiro. — De qualquer forma, ele parece estar me dando um loving bomb fodido. Ele mandou lanche pra minha casa ontem de madrugada e hoje ele mandou dinheiro. Tipo, muito mesmo. — Mordo a minha bochecha. — Eu tô assustada e com medo de não conseguir, mas não tem volta.
— Relaxa, amiga. — Duda ri baixo, balançando a cabeça. — Ele sabe o que tá fazendo e vai te proteger. E olha... eu tô feliz por você ter aceitado. Você merece ter alguém cuidando de você, ainda mais alguém que tem poder de verdade.
Sento-me na cama, puxando o travesseiro para perto do peito.
— Eu sei... mas é estranho, sabe? — murmuro. — Tipo, ele tá preso!
Ela ri.
— É, e você já tem uma data pra ir?
— Ainda não. Ele deve estar resolvendo, mas eu tenho que me preparar. — Suspiro. — Enfim, vamos jantar?
***
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