10 - Obsessão de Henry

1066 Palavras
Henry Narrando  O vidro da minha sala parecia mais sujo do que nunca. Ou talvez fosse eu. Talvez fosse o peso que carregava no peito, nas mãos, na cabeça. Olhei lá pra fora, pra cidade inteira se movendo, respirando, como se absolutamente nada tivesse acontecido. Aquele maldito apagão e aquela maldita garota... Aquela maldita droga que me cegou, Deus! Justo naquele dia? Naquele maldito dia em que ela iria aparecer na minha vida e mexer comigo daquele jeito? Minha testa encostou no vidro, e eu fechei os olhos, mais uma vez, tentando expulsar da memória a lembrança do cheiro dela e do toque dela. Mas minha cabeça parecia estar presa em um looping. Não conseguia parar de pensar, e quando conseguia esquecer uma parte, a voz firme, rouca, que parecia pequena, mas me segurou, voltava como uma música insistente... E me mostrava que ela agiu como se ela fosse meu porto seguro. Alguém cuidou de mim e eu não consigo esquecer. Que... Merda! O mundo podia ter desabado lá fora... E, de certa forma, desabou mesmo. Mas aconteceu o mesmo dentro de mim. Eu não conseguia mais focar. Não desde aquela noite. O toque dela parecia ainda estar nos meus ossos, o jeito que segurou meu rosto... o arrepio que percorreu minha espinha quando seus dedos roçaram meu pescoço. O cheiro doce ficou gravado na minha memória como se fosse uma tatuagem cerebral, impossível de apagar. Ela não me olhou como as outras pessoas olham, quer dizer, nem podia. Estávamos no escuro. E ela não me tratou como quem quer algo de mim, porque ela não sabia quem eu era. Não fazia ideia de quem estava ajudando. E, de alguma forma cruel... isso me destruiu. Quebrou as barreiras intransponíveis que criei para mulher nenhuma acessar meu coração... E ela? Ela conseguiu acertar um tiro bem no meio dele. A porta se abriu, e meu assistente entrou, segurando uma pasta. — Henry, preciso da sua assinatura aqui. — Ele apoiou os papéis na mesa, meio sem graça. — São os termos finais do programa de bolsas... aquele para os jovens designers. Inclui os custos de deslocamento, moradia, alimentação, tudo... Assenti, sem nem me virar. Peguei a caneta, assinei onde ele apontou, sem ler uma única linha. Não me importava. Eu queria que aquilo acontecesse, que alguém se beneficiasse daquilo. Ele agradeceu e saiu, me deixando sozinho com meus próprios demônios. Atualmente, o demônio que mais me atormentava tinha cheiro, toque, mas não tinha rosto nem nome. Como isso é possível? Como? Minhas mãos apertaram o batente da janela, até os nós dos dedos ficarem brancos. —Que merda você fez comigo, garota...? A porta se abriu de novo, sem batidas, o que só podia significar uma pessoa. — Tá pior, hein... — A voz grave, meio rouca, meio cansada, de Walter, invadiu a sala. Virei de lado, só o suficiente pra ver meu segurança favorito entrar, cruzar os braços e me olhar como quem analisa um paciente terminal. — Desde o apagão, chefe... Você tá estranho. Tá andando de um lado pro outro, tá mais ranzinza que o normal, não come direito, não responde metade das mensagens... Suspirei, passando a mão no rosto. — Aconteceu uma coisa. Ele arqueou uma sobrancelha. — Que tipo de coisa? Me virei de vez, puxando a cadeira e me jogando nela. Me apoiei nos joelhos, entrelacei os dedos, respirei fundo e deixei escapar: — Uma garota. Os olhos dele se arregalaram, e ele precisou de alguns segundos pra processar. — Uma... garota? Assenti. — No meio do apagão. Eu tava fugindo, você sabe... aquela reunião... Que os caras me drogaram e tentaram me extorquir. Eu não contei tudo que aconteceu pra você... Acho que senti vergonha. Mas se eu não falar pra alguém, vou explodir. — Fala, chefe. — Eu não me escondi sozinho. Na verdade, tinha uma garota comigo. Ela... — Fechei os olhos, deixando as imagens embaçadas me atropelarem. — Ela me puxou, me escondeu, tirou meu terno... Fingiu que éramos... sei lá... um casal, talvez. Fez isso porque queria me proteger, porque eu pedi ajuda. Walter ficou em silêncio. O silêncio dele dizia muito. — Ela não me conhecia, Walt. — Minha voz falhou. — Não fazia ideia de quem eu era, nem tinha como. E mesmo assim... segurou minha cintura. Encostou meu rosto no pescoço dela. Me... Ah, p***a, ela encostou em mim e protegeu. Me fez... me fez sentir algo que eu... que eu não sei explicar. Cara, eu não sei explicar, eu tô completamente perturbado. Ele respirou fundo, passou a mão no queixo. — Tá... Isso... isso é sério. — Ele se aproximou, puxou a cadeira e sentou na minha frente. — Você quer que eu faça o quê? — Quero que você encontre ela. — Falei, sem rodeios. — Eu sei que vai ser difícil. As câmeras estavam fora do ar, o prédio inteiro em colapso, gente se escondendo pra todo lado... Mas eu quero. Eu acho que preciso olhar nos olhos dela e ver quem ela é. — Henry... Pode ter sido qualquer uma. — Ele me olhou, meio com pena, meio preocupado. — As pessoas estavam desesperadas, entrando aonde podiam para se abrigar, então qualquer um podia ter feito isso... Levantei o olhar, firme. — Não, Walt. Não qualquer uma. Ele ficou em silêncio, respirou fundo, depois assentiu. — Tá. Eu vou tentar. Vou puxar qualquer rastro, talvez alguém tenha visto vocês dois ou coisa do tipo. Mas já te digo que vai ser quase impossível. Cruzei os braços, virando a cadeira e olhando pro vidro novamente, apertando os dentes. — Faz isso. Eu juro, eu não vou conseguir respirar direito enquanto não souber quem ela é. — Isso realmente mexeu com você. — Ele disse, e eu concordei com a cabeça. — Você não faz ideia do quanto. A Emily tentou t*****r comigo ontem... E eu não consegui. — Ele soltou uma gargalhada. — Você não subiu? c*****o! — Ele riu e eu acabei rindo também. — Não, Walt... Eu nem consegui beijá-la. Pedi que ela fosse pra casa dela e ela simplesmente foi. Ela sabe que é só pegação e que quando eu não quero, não rola. — Você tem qualquer mulher que quiser aos seus pés... E decidiu se apaixonar por uma desconhecida sem rosto. Parabéns, Henry. — Eu ri junto com ele. — É. Eu sou um i****a.
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