09 - Realidade!

1633 Palavras
Eu fui aprovada. Eu realmente fui aprovada e essa seria minha primeira reunião, e isso seria incrível! Pelo menos, foi isso que eu pensei quando acordei naquela manhã, cheia de ansiedade, mas cheia de esperança também. Quando entrei naquele prédio imponente, com paredes de vidro, mármore branco e o logo do Grupo Antonelli reluzindo bem no centro, tive certeza de que estava pisando em um lugar que poderia — de verdade — mudar minha vida. A reunião foi... surreal. Diferente de tudo que eu imaginava. Eles me trataram como se eu realmente tivesse valor. Me ouviram, sorriram, elogiaram meu portfólio, fizeram perguntas genuínas sobre os meus projetos... Pela primeira vez em muito tempo, ninguém me olhou como se eu fosse só uma garota perdida, sem sobrenome relevante, sem apadrinhamento, sem nada. Quer dizer... eles nem sabiam de onde eu vinha, porque coloquei o sobrenome de solteira da minha mãe no formulário. Eu, agora, era Victoria Rose. Nem podiam imaginar que era filha da família Ferrer. O coordenador do programa explicou detalhes da bolsa, os prazos, os documentos necessários. Discutimos até possibilidades de estágio no exterior. Cada palavra parecia construir um degrau novo na escada que, até então, eu achava impossível de subir. Mas... a reunião demorou mais do que eu esperava. Bem mais. Quando saí da sala, já passava das sete da noite. A maior parte do prédio estava vazia, com exceção de alguns funcionários que terminavam seus expedientes. A luz lá fora tinha aquele tom dourado de fim de tarde misturado com a escuridão que começava a tomar conta da cidade. Foi só quando passei pela recepção que percebi o quanto estava cansada... E extremamente feliz. Me permiti um sorriso. Um sorriso de verdade, daqueles que fazem as bochechas doerem, que fazem o peito aquecer, que quase parecem estranhos quando você passa tanto tempo sem sorrir assim. Peguei meu celular. Sem sinal. Provavelmente algum problema na rede. E, claro... bateria piscando em vermelho. Suspirei. Só precisava chegar até a estação de metrô, e dali seria fácil. Pelo menos... era o que eu achava. Assim que pisei na calçada, uma ventania estranha passou, derrubando algumas folhas, papéis de propaganda voaram na minha direção. O céu estava pesado, carregado, como se ameaçasse desabar a qualquer segundo. A noite caiu rápido demais. E então... aconteceu. As luzes piscaram duas vezes. E tudo... tudo apagou, de um jeito extremamente esquisito. Por um segundo, um silêncio quase sobrenatural tomou conta da cidade. As vitrines, os postes, os letreiros, os faróis dos carros... tudo simplesmente morreu. Como se alguém, em algum lugar, tivesse puxado o plugue da tomada que alimentava o universo inteiro. Meu corpo inteiro entrou em alerta. Sabe aquele tipo de medo que não é exatamente pavor, mas uma mistura de vulnerabilidade e ansiedade? Como se, de repente, você percebesse que é só uma garota sozinha no meio de uma cidade enorme, sem luz, sem sinal, sem plano... e que absolutamente qualquer coisa pode acontecer? Apalpei o bolso, segurei com força a alça da bolsa, tentando decidir se ficava ali até as luzes voltarem ou se corria até a estação. Mas e se o metrô também tivesse parado? Pessoas começaram a correr nas ruas. Outras sacaram os celulares, tentando iluminar o caminho com as lanternas. Carros buzinavam, freavam, quase batendo uns nos outros. Caos. Puro caos. Decidi entrar de volta no prédio, que parecia muito assustador agora. E pra piorar, eu comecei a ouvir passos. A princípio, pensei que fosse só mais alguém apressado, tentando encontrar abrigo. Mas... havia algo diferente naquele som. Pesado. Descompassado. Desesperado. Me virei. Uma silhueta alta, meio cambaleante, surgiu vindo da direção oposta. O terno desalinhado, os cabelos bagunçados, a respiração arfante. Olhava pra trás, como quem fugia de algo — ou de alguém. Não fazia parte de nada que eu pudesse prever, controlar ou sequer entender. Eu ajudei aquele homem estranho, que fez meu coração bater mais forte. O cheiro dele ficou grudado em mim como se quisesse fazer parte do meu corpo também. Droga... Droga! Não, não. Não posso estragar minha própria felicidade por causa de mais uma fanfic mental i****a. O problema é que esse sonho acordado tinha cheiro, tinha toque e era mais difícil de esquecer. Esperei em outro canto do prédio, até que as luzes voltassem. Meu coração palpitava tanto que eu não conseguia ouvir meus próprios pensamentos, não mais. Então... A luz retornou, e eu suspirei aliviada. Corri pela porta em direção ao metrô, como se eu pudesse fugir dos pensamentos que criei naquele prédio, aliás, apenas os pensamentos relacionados ao homem misterioso. Jurei para mim mesma que ninguém, nem nada atrapalharia meu sonho. E foi isso que eu fiz, coloquei esse momento em uma caixa de lembranças dentro da minha mente e jurei esquecer. Na manhã seguinte, acordei antes do despertador tocar. Na verdade, eu nem sabia se tinha conseguido dormir direito, porque a droga da minha cabeça ainda parecia processar os últimos acontecimentos como se fossem pedaços desconexos de um sonho estranho — ou um pesadelo, talvez. O toque dele ainda estava em mim. Ainda ali, impresso em cada célula, como se meus próprios nervos tivessem decorado aquela sensação. A mão grande na minha cintura. O rosto quente escondido no meu pescoço. A voz rouca, quebrada, pedindo... “Fica comigo”. Puta merda. Balancei a cabeça, empurrei aquele pensamento pra um lugar bem fundo, bem escondido, e me obriguei a focar no que realmente importava. Eu estava de partida, não tinha tempo pra breguices e amor. Não, não mesmo. Levantei da cama, puxei a mala pro meio do quarto e respirei fundo. Era impressionante como uma vida inteira parecia não caber em um espaço de cinquenta centímetros. Abri a tampa, joguei algumas roupas lá dentro — as que faziam sentido, as que eu realmente gostava — e fui percebendo, aos poucos, tudo que eu não ia poder levar. Minhas canecas favoritas, meus livros, a luminária quebrada que comprei num brechó e nunca consertei, mas que fazia parte da decoração torta do meu quarto. E, claro, a caixa onde guardava meus desenhos mais antigos. Olhei pra ela por alguns segundos. Me ajoelhei no chão, passei a mão pelas folhas amassadas, rabiscadas... alguns desenhos tinham quase sete anos. Uns horríveis. Outros, surpreendentemente bons pra uma adolescente quebrada tentando se salvar através do traço. Deixei alguns separados. Os que eu não podia, de jeito nenhum, abandonar. — Você vai levar essa tranqueira toda? — A voz da Rita soou da porta, carregada de sono, humor e aquele tom de quem me ama, mas também me acha uma completa maluca. Me virei, rindo. — São meus projetos de infância. Respeita minha história. Ela entrou no quarto, sentou na beirada da cama e ficou olhando minha tentativa desastrosa de organização. Estava com aquela cara de quem ainda não tinha processado que, em menos de vinte e quatro horas, eu estaria atravessando o oceano pra tentar, do outro lado do mundo, construir uma vida diferente. — Parece que foi ontem que você chegou aqui, desesperada, sem saber onde dormir, sem ter pra onde ir... — Ela cruzou os braços e sorriu. — E olha só agora. Vai embora porque... venceu, garota. Você venceu. Minha garganta apertou. — Ainda não. Mas tô tentando. Ela se jogou na cama, jogou uma almofada em mim. — Cala a boca! Você tá indo pra p**a que pariu estudar design de joias. Isso se chama vencer, sim. Caí na risada, jogando a almofada de volta nela. — Eu ainda acho que o universo tá de s*******m. Que vou acordar e descobrir que era um trote. — Não fala isso, não. É a mais pura realidade. E você merece isso mais do que qualquer pessoa que eu conheço. — A voz dela ficou mais baixa, mais carinhosa. — Você é f**a, Vic. E você vai fazer história. Sentei na cama, do lado dela, e a abracei apertado. Ficamos em silêncio por alguns segundos, só respirando aquele momento agridoce. Felicidade e despedida. — Você sabe que... — falei, olhando pro teto, como quem observa possibilidades no vazio — ...quando eu abrir minha própria joalheria... você vai ser minha sócia, né? Você com todo esse conhecimento de administração de estoque de comida, com certeza consegue administrar uma empresa. Ela me olhou, arregalando os olhos. Depois riu. — Jura? — Juro. — Sorri. — A gente sempre sonhou com isso, né? Ter nossa marca, nossa loja, nossa história. E não vai ser só meu. Vai ser nosso, amiga. Você vai ver. Ela mordeu o lábio, tentando segurar o sorriso, mas falhou miseravelmente. — Nós vamos dominar a p***a do mercado, amiga! Caímos na gargalhada. Aquelas risadas que começam leve, depois saem meio descontroladas, meio emocionadas, meio tristes também, porque, no fundo, a gente sabia... aquilo era um fim e um começo ao mesmo tempo. Quando consegui recuperar o fôlego, levantei e voltei pra mala, agora decidida. Guardei as roupas que faltavam, dobrei os desenhos que eu não podia deixar, e coloquei no bolso interno a joia da minha mãe — aquela que eu jurava que um dia transformaria na minha peça assinatura. O resto... deixei. — Isso aqui é seu agora. — Apontei pros livros, pras canecas, pras besteiras que faziam parte da minha vida ali. — Cuida bem. Ela se levantou, me abraçando de novo, apertado, quase esmagando meus ossos. — Vai, garota. Vai viver o que você nasceu pra viver. E não esquece de mim, tá? — Nunca. — Respondi, com a voz falhando um pouco. — Nunca, Rita. Você é minha melhor amiga e vai subir comigo. Por mais que meu peito estivesse apertado, havia algo mais forte do que qualquer medo, qualquer insegurança, qualquer lembrança do toque de um estranho na noite passada... O que me movia agora... era o sonho de vencer.
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