Lando.
Eu espero que América chore ou grite de raiva, mas nada acontece. Ela apenas fica em silêncio com a cabeça encostada no vidro da sua porta. Eu quero a pedir desculpas, mas não tenho coragem. Estou relutante, quando fico com a América eu fico relutante em muita coisa. Ver minha mãe falando daquela forma com ela, me deixou tão bravo, mas também me senti recuado, afinal se eu a defendesse eu estaria contra a minha mãe, e de qualquer maneira, a América não é nada minha para quê eu entre em uma briga por ela, ainda mais contra a minha mãe.
- Eu gostei da Ruth - ela diz me surpreendendo por parecer calma - E da Nicola também, elas são muito legais.
- É porque você não conhece elas direito - Eu brinco fazendo América ri. Já é algo bom.
- Ruth me contou que você tem medo do escuro - América conta me fazendo ficar frio. Aquela filha da puta...
- Não tenho nada. - Tento parecer convicto, mas fraquejo.
- Não sei porque tem tanto medo assim. Eu vivo nele e não me acontece nada - Rla ri.
- Não acredite em Ruth, ela mente.
- Uhum, sei - América debocha risonha antes do carro voltar a ficar silencioso.
Mordo meu lábio olhando para ela. Observo as sardas sobre as maçãs do seu rosto, a linha fina dos seus lábios pálidos, o contorno da sua mandíbula e queixo perfeitamente desenhados. Louis tem razão, ela é bonita. Mas a minha mãe também tem razão. A Bradley é mais bonita que ela.
Estaciono em frente a casa de América, e ela se vira para mim.
- Quer entrar? - Me convida. - Prometo que ninguém vai te deixar se sentindo m*l.
Quase rio pelas suas palavras cheias de sarcasmo.
- Certeza? E se falarem m*l do meu comportamento explosivo? - Eu brinco.
- Acredite, nessa casa estamos acostumados a coisas diferentes. Mesmo que você quebre nossos pratos por se sentir bravo, não vamos te julgar.
Eu gargalho jogando a minha cabeça para trás. Faz tanto tempo que não faço isso, que me esqueci o quanto é prazeroso.
- Tudo bem então - A respondo ainda com um sorriso no rosto. - Mas se eu me sentir julgado, irei embora.
- Você é livre - América ri.
É bom que estejamos nesse bom humor apesar do que aconteceu poucos minutos atrás. Eu realmente pensei que América não fosse mais querer saber de mim depois de tudo, mas não, ela nem parece mais afetada com isso. O que me deixa ligeiramente aliviado. Não sei porque, mas é assim que me sinto por saber que ela ainda me quer por perto, mesmo que eu ainda tenha meu plano de afastamento em mente. Para mim é ok a ideia de eu me afastar, sob minha decisão, mas não é ok se vier de América.
- Já voltaram? - A mãe de América vem até nós assim que cruzamos a porta. - Ocorreu tudo bem? - ela pergunta com seu olhar preocupado direcionado para mim.
- Sim, tudo bem - América a responde. - Vamos ir para o quarto.
A mãe de América parece confusa, mas suaviza o seu rosto para mim antes de sua filha me puxar pelo braço para o seu quarto. Da primeira vez que estive no quarto de América eu não prestei muita atenção nele, até porque estava com Harry nos braços e meu foco era apenas em o deixar no colchão. Sua cama fica no centro da parede direita, não como no canto igual a minha. Na parede oposta á ela têm várias fotos grudadas, e até artigos de revistas. Um guarda roupas branco cobre a parede ao lado da porta, e uma cortina branca fina cobre a janela longa e estreita, que vai até o chão na parede do fundo do quarto. Imagino América de frente à essa janela sentindo o ar, ou até mesmo o sol esquentando seu rosto todas as manhãs, e não posso negar que seria adorável a ver fazendo isso.
- Então, quer ver algum filme? - América me pergunta enquanto caminho para ver os artigos presos em sua parede. Um fala sobre golfinhos encontrados vivos em um lugar que ele já era considerado extinto. Há também matérias sobre doenças que tiveram cura, incluindo a que impede América de enxergar. No título diz a cura para cegueira, mas logo na linha abaixo diz ainda existe muito para ser estudo, mas cientistas acreditam que possam encontrar a cura para alguns casos de cegueira. Então América se importa sim em enxergar, ou então se importava.
- Quem colocou esses artigos aqui para você? - Pergunto ignorando o que ela me disse.
- Ah, foi a Malu - Ela responde com as bochechas vermelhas - Eu até tinha me esquecido deles ai.
- Ah!
- Então, qual filme quer ver? - Ela volta a perguntar.
- Você escolhe. - Digo. Não sei porque América gosta tanto de filmes se não pode ver o que se passa.
- Bem, acho que vai gostar de um - Ela caminha até seu guarda roupas.
É incrível como a América conhece bem a sua casa. Ela caminha pelos cômodos como uma pessoa que enxerga tudo na sua frente, sem esbarrar em nada, sabendo exatamente onde os móveis estão. Ela tira um notebook do seu guarda roupas, e caminha para a sua cama. Eu vou até ela e me sento ao seu lado no colchão.
- Um homem de sorte - América fala para o computador que imediatamente revela um cartaz do filme. Os dedos pequenos dela se movem para o enter, onde ela aperta e o filme se inicia.
América encosta suas costas contra a cabeceira da cama, e cruza suas pernas onde deixa o computador em cima. Eu tiro meus sapatos e meias antes de me juntar à ela, deixando minhas pernas esticadas no colchão e o meu braço ao lado do dela.
- Você pode narrar para mim? - América pede.
- Sim. - Eu aceito, mesmo parecendo que ela sabe cada cena do filme.
Eu tento narrar o máximo que consigo para América, assim como vi Zack fazendo outro dia. É uma sensação boa saber que ela está imaginando tudo apenas pelo o que eu digo, me deixando entender o porquê o Zack parecia tão feliz em narrar o filme para ela.
- O que está acontecendo? - Ela pergunta quando eu fico um tempo em silêncio.
- Bem... - Eu fico sem jeito para a falar - Eles estão...hum...transando.
- Oh - América murmura com as bochechas ruborizadas. - Narre - ela pede me deixando surpreso.
- Estão molhados pela água do chuveiro, e ele está beijando o pescoço dela...
- Ela está gostando?
O que?
- Sim, está.
- Ele também?
- Parece que sim.
América fica em silêncio e eu também. É constrangedor falar dessa forma com ela, o que é estranho pois eu nunca fiquei constrangido por falar sobre sexo com meus amigos, ou até mesmo Bradley. Quando a cena quente muda, eu volto a narrar o filme para América e torço para que não haja mais nenhum outro sexo.
(...)
- Fim - Eu digo assim que os créditos do filme começam a rolar pela tela do notebook.
- O que achou? - América pergunta lançando seus olhos castanhos para meu queixo. Sua cabeça está sobre meu ombro e agora o notebook já está em meu colo. América me acariciou durante o filme, passando os dedos pelo meu cabelo ou braço, mas eu ignorei. Ela é tão carente.
- Não é tão chato igual o nome - Eu observo fazendo ela sorri. - O final foi bem chocante, mas eu gostei.
- Mesmo?
- Sim. Foi o primeiro filme de romance que eu assisti - Assim que as palavras deixam minha boca, o rosto de América se retorce em surpresa.
- O que? Nem mesmo com a Bradley?
- Não. A gente não assistia filmes juntos. Éramos mais de ficar em festas, do quê fazer esses programas comuns de casais. - Eu digo me lembrando momentaneamente dela. O que será que está fazendo agora?
- Uau! Então fico feliz por você ter assistido seu primeiro filme de romance comigo - América sorri. - Você encontrou com a Bradley depois daquela festa? - Ela pergunta tateando o notebook para apertar o botão de desligar.
- Sim...na verdade eu bati outra vez no Noah, ele quase morreu - Eu digo fazendo os olhos de América arregalarem em surpresa.
- Por que? - Sua voz é assustada.
- Bem, ele e a Bradley estão noivos e eu fui até a casa dele acertar as contas, ele não poderia pensar que eu iria deixar as coisas ficarem como se nada tivesse acontecido. Então eu bati nele e o derrubei no chão, o que fez sua cabeça rachar.
- Oh meu Deus! Ele a pediu em casamento? - América está estática com suas sobrancelhas arqueadas.
- Sim - Eu bufo.
- Você rachou a cabeça dele? Ele está bem?
- Sim, sim.
- Você é louco - América fala e eu espero alguma risada, mas não vêm.
- Eu fiz uma merda mesmo, mas foi ele quem pediu.
- Você poderia está preso agora. Quer dizer, você ainda pode, se ele quiser prestar queixa.
Meu estômago cai. Queixa?
- Ele não faria isso... - eu digo mas não estou tão certo disso. O Noah teria coragem em me por na cadeia? Se bem que eu já bati nele tantas vezes e nada me aconteceu. Isso deve ser porque ele nunca foi parar no hospital desmaiado meu subconsciente me espeta.
- Acho melhor você tentar falar com ele. Dessa vez sem murros ou coisa do tipo. - América sugere e eu quase rio da sua idéia.
- Não, nunca. Eu não quero falar com aquele traidor. - Digo sem ao menos pensar.
- Liam, eu sei o quanto está bravo com ele, mas você precisa o convencer de não prestar uma queixa contra você, se caso ele estiver pensando em fazer uma - ela fala tão madura que eu me questiono se ela só tem...quantos anos a América tem?
- Tudo bem, eu vou tentar falar com ele, mas só tentar - Eu minto. Claro que não vou falar com aquele loiro traidor, mas é melhor deixar a América pensar que irei fazer isso.
- Que bom. - Um sorriso contente esboça em seu rosto e eu reviro os olhos. Ela é tão irritante, ainda mais por ser tão doce. Ela é irritante e doce do c*****o.
- Acho que é melhor eu ir embora agora, já está ficando tarde - Olho para o relógio no meu pulso. São 16:32, o tempo realmente passou rápido demais enquanto assistíamos aquele filme.
- Não, fica mais um pouco. Eu sei que deve está com fome, e minha mãe com toda certeza fez bolo para nós. - América fala.
Ela tem razão. Eu estou mesmo com fome, até porque não comi toda a comida do meu prato na casa dos meus pais, já que saímos de lá antes que eu pudesse comer tudo. Mas eu estou acostumado com a fome, quase nunca tenho comida normal igual todo mundo. Eu gasto meu dinheiro com bebida e pão, e só como comida de verdade quando Ruth vai na minha casa, ou quando eu vou para casa dos meus pais.
- Tudo bem - Eu cedo.
América sorri levemente enquanto leva seus dedos até meu queixo. Eu não recuo, afinal ela faz tanto isso que estou começando a me habituar. Ela devagar acaricia meu queixo, antes de abrir sua mão completamente sobre meu rosto. Seus dedos macios esfregam contra minha bochecha delicadamente, o que me faz fechar os olhos. América leva a sua outra mão também para o meu rosto, e seu polegar raspa logo abaixo dos meus olhos, como se ela estivesse estudando meus traços. Quando abro meus olhos, sou surpreendido por América está com a cara praticamente grudada na minha. É a primeira vez que ela olha diretamente nos meus olhos, o que me faz ficar deslumbrado pelo castanho intenso deles. Percebo que ela está de joelhos na minha frente em cima da cama, e eu não sei o que ela pretende fazer, mas só de estar tão proxima assim, me faz sentir uma eletricidade estranha pelo corpo, além de um desconforto.
- Bradley é realmente uma garota burra - América sussurra com seus lábios raspando nos meus.
- Por que? - Eu pergunto com meus olhos focados demais em sua boca que parece tão atraente agora.
- Você mesmo cheio de problemas, é uma boa pessoa. Se eu fosse ela, te ajudaria a ser ainda melhor, não terminaria de te arruinar como ela fez - Diz ainda muito próxima.
Por um minuto eu penso em suas palavras. Foi gentil de sua parte, e gostaria que Bradley realmente tivesse feito o que América me disse. Eu gostaria que ela me fizesse ser melhor.
- América - A voz da mãe dela soa atrás da porta, fazendo - a saltar para longe do meu corpo, como quem acorda de um sono assustado.
Suas bochechas estão muito vermelhas enquanto ela sai da cama para ir até a porta. Eu começo a pensar sobre o que teria acontecido se sua mãe não tivesse aparecido, e todas as minhas opções não me parecem boas.