Lando
- Porfavor, se minha mãe ou minhas irmãs forem inconvenientes, ignore. - Eu digo assim que estaciono o carro em frente a minha casa.
América ri.
Ela está com algumas mechas do cabelo dos lados, presas no topo de sua cabeça com um laço cor de rosa e o resto solto e jogado para trás. Sua roupa é um vestido rosa no mesmo tom que seu laço, e é cheio de morangos, como sempre, ela bem brega e infantil.
Guio ela segurando em seu pulso para dentro da minha casa. Meus olhos miram minha mãe ao lado da mesa de jantar na sala, dizendo algumas instruções de como quer os pratos na mesa para a emprega.
- Mãe, chegamos - chamo sua atenção.
Os olhos escuros da minha mãe se viram para mim e América, e ela faz uma carranca ao ver a garota ao meu lado, seus saltos se arrastam pelo piso até ela parar frente à nós dois.
- Prazer te conhecer América, sou a mãe do Lando, Karen - minha mãe se apresenta e envolve seus braços no corpo de América, que parece se surpreender com o gesto inicialmente, mas o retribui.
- O prazer é meu dona Karen - América diz em meio ao abraço.
- Não me chame de dona, só Karen - minha mãe pede se afastando de América.
- Aí está ela! - Ruth invade a sala com sua voz alta e caminha/corre até América. Minha irmã fica parada de frente a menina-cor-de-rosa, e a olha como se ela fosse um ET. Ainda bem que América é cega.
- Não assusta a menina Ruth - eu a repreendo, recebendo um olhar de ameaça antes dela voltar para América novamente.
- Eu sou a Ruth, irmã do i****a do Lando.
- Eu sou a América. - Ela esboça um sorriso envergonhado. Acho que não gosta de tanta atenção, mesmo não podendo ver.
- Você é tão linda...juro que nunca iria adivinhar que é cega - assim que as palavras deixam os lábios de Ruth, os olhos da minha mãe saltam do seu rosto. Eu não entendo o porquê da sua reação inicialmente, até lembrar que ela não sabia desse detalhe. Karen vira seu rosto para mim e diz apenas movendo os lábios "Cega?"
- Vêm América, precisa conhecer a Nicola - Ruth segura a mão de América, arrastando ela para a cozinha.
- Cega? Você trouxa uma garota cega para minha casa? - minha mãe me ataca, sussurrando com força para apenas eu ouvir.
- E qual o problema? - Digo me irritando com ela. Eu posso até ter meus defeitos, mas a minha mãe consegue ser pior do quê, muito mais. Ela se importa demais com a opinião alheia, vive para manter uma imagem que não existe, e isso engloba pessoas com quem vamos ter contato. Sempre foi assim, desde quando eu era criança. Uma vez minha mãe me proibiu de ser amigo de um garoto da minha sala apenas porque ele era n***o. Na época eu não entendi, ela apenas me disse que ele não era bom para mim. Conforme fui crescendo, eu comecei a entender as coisas.
- Se as meninas do condomínio verem ela aqui? Oh Deus, isso seria um desastre. Iriam pensar que agora me envolvo com essas pessoas - Minha mãe começa com sua ladainha que faz a minha cabeça doer.
Eu não posso a julgar tanto assim, afinal seria hipocrisia da minha parte, já que eu pensei quase o mesmo quando conheci a América. Mas agora, vendo minha mãe falando assim dela, me deixa irritado. Mais irritado ainda por perceber que eu sou assim muito provavelmente pela educação que ela me deu, cheia de estereótipos e preconceitos.
- Pode ao menos a tratar bem? Prometo que nunca mais a trago aqui.
- Você promete? - Seus olhos brilham.
- Sim mãe - suspiro. - Eu não queria a trazer aqui de qualquer maneira, se lembra?
- Na próxima vez, me conte os detalhes importantes das suas amizades.
- Ok. - Murmuro e escuto risadas vindas da cozinha, reconheço sendo de América e minhas irmãs.
- Bradley é muito mais bonita que ela - Minha mãe comenta caminhando de volta até a mesa de jantar.
Eu sei que é.
(...)
América está sentada ao meu lado, na nossa frente está Nicola e Ruth. Meu pai fica em uma ponta e minha mãe em outra. Ninguém diz nada, os únicos sons são dos talheres batendo contra os pratos. Ruth que serviu América, e ela parece ser a mais animada com a visita. Meu pai apenas a disse um oi, não muito revelador, mas duvido que tenha sido pela fato dela ser cega, - como minha mãe faria- ele é simplesmente assim.
- Você estuda América? - Nicola pergunta quebrando o silêncio.
- Sim, faço faculdade de biologia - Responde.
- Oh, que maravilha! - Nicola diz surpresa.
Até eu estou surpreso, nunca me interessei em saber se ela fazia ou não faculdade.
- Tem irmãos? - Minha irmã continua a questionar sobre a vida de América, sério, ela deve pensar que é uma entrevista de emprego. Ignoro e corto o meu pedaço de carne e a mergulho no molho de legumes, antes de enfiar o garfo na boca.
- Não, sou filha única.
- Seus pais não quiseram correr outro risco - a voz amarga da minha mãe corre pelo meus ouvidos, fazendo - me engasgar com a carne. Minha tosse forte faz com que a tensão se dissipe um pouco, até eu alcançar o copo de água em frente ao meu prato. Dou um longo gole na água gelada, que desce pela garganta levando a carne consigo.
Depois que estou melhor, América diz:
- Deve ter sido isso - Ela força um sorriso em humor, mas perceber - se que ela está desconfortável com o que minha mãe disse.
- Eu não consiguiria ser mãe de uma pessoa cega, deve ser triste demais - Karen continua a jogar seu veneno contra América.
- Mãe! - digo entre dentes lançando um olhar repreensível para minha mãe.
Quando eu disse para América ignorar quando minha família fosse inconveniente, não imaginei que minha mãe seria muito mais que inconveniente. América está tensa ao meu lado, e eu observo seu polegar apertando o garfo de alumínio com uma força relativamente forte, tão forte que seu dedo fica de vermelho para branco.
- Muita gente tem esse tipo de pensamento, mas não é tão r**m. Até porque eu sou como qualquer outra pessoa. - América continua a falar com seu tom de voz calmo, mas sei que ela está se segurando.
- Hum - minha mãe murmura e dá um gole em seu vinho.
Eu estou bravo com ela, e confuso. Não gostei dessa forma que ela tratou América, foi m*l educado, malvado e totalmente desnecessário. Fico aflito, não sei como América vai lidar com isso tudo, será que vai brigar comigo? Vai deixar de ser minha amiga? O que não seria um absurdo, visto que eu já queria me afastar dela.
- Amanhã vai haver uma festa no condomínio, você bem que poderia aparecer aqui né? - Ruth convida a América, tentando descontrair o clima tenso.
- Não! - Minha mãe praticamente grita, assustando todos na mesa, até meu pai que não parece está com a cabeça ali.
- Por que não? - Nicola pergunta.
Minha mãe busca pelas palavras.
- Eu só não acho...Um bom lugar para ela ir - Diz, mas é nítido que está apenas mentindo. Quantas vezes minha mãe foi tão tóxica assim e eu não percebi?
- Eu acho que nem mesmo aqui é um bom lugar para mim - América diz firme, e eu me surpreendo. Ela foi atacada gratuitamente mas não vacilou, nem mesmo no momento que se inclina para mim e pede para que eu a leve embora, e eu não recuo, esse almoço foi desastroso demais. Me levanto a ajudando a se levantar também. Todos a observam em silêncio, o que eu agradeço, é melhor ficarem assim mesmo, principalmente a minha mãe. Enquanto levo América até meu carro, eu penso que isso tudo é culpa da Ruth, se inicialmente ela tivesse ficado de bico fechado, nada disso teria acontecido.