Capítulo 6 - O Jogo das Aparências

1130 Palavras
A manhã chegou com um céu pesado, coberto de nuvens densas. Isadora olhou pela janela do quarto enquanto segurava uma xícara de chá. A água da chuva começava a tocar o vidro quando ouviu passos do lado de fora. — Você tem cinco minutos pra estar pronta — Dante disse, parando à porta, com a mesma voz fria de sempre. — Vamos sair. Ela se virou com lentidão calculada. — Se quiser me s********r, ao menos seja mais criativo. — Não é um sequestro. É um convite com aparência de ordem. — Parece tão romântico vindo de você — ela murmurou, bebendo mais um gole. — Vai me dizer pra onde vamos ou devo levar um casaco, uma arma e um testamento? Ele não respondeu. Apenas a olhou por um longo segundo, como quem não estava com paciência para o sarcasmo dela — o que, para Isadora, era quase uma vitória. — Terei o carro pronto em dez minutos. Escolha bem o que vestir. É um lugar público. Ela arqueou uma sobrancelha. — Medo de que pensem que me sequestrou? — Medo de pensarem que estou apaixonado. Ela quase riu. Quase. --- Quarenta minutos depois, o carro preto seguia por uma estrada estreita, cercada por árvores molhadas e céu em tons de chumbo. Nenhum dos dois falava. O silêncio era cortado apenas pelo som da chuva no para-brisa. Isadora cruzava as pernas, impecável num conjunto de blazer branco e calça justa. O salto fino batia no assoalho em ritmo suave. Seu perfume, amadeirado e floral, preenchia o carro como um aviso: ela não estava ali para ser subestimada. Dante mantinha os olhos na estrada. As mãos firmes no volante. O maxilar cerrado. Ela o olhou de lado. — Vai me contar agora ou quando já for tarde demais? — O evento da fundação dos Rivas. Precisamos posar como um casal funcional. — Que bonito. Casal de fachada com caridade envolvida. Que comovente. — Você não vai precisar falar muito. Só sorrir e parecer minha esposa. — Eu sou sua esposa. Ele a olhou rapidamente, com um canto de sorriso que não alcançou os olhos. — Por um preço. Todos têm o seu. Ela não respondeu. Mas por dentro, cada palavra dele fazia o estômago dela se contorcer — não de tristeza. Mas de raiva. De frustração. De algo que queimava e ela não queria nomear. --- O evento acontecia num centro cultural moderno, com fachada de vidro e concreto. Dentro, a elite se misturava sob holofotes, música clássica ao fundo e garçons circulando com bandejas de cristal. Dante entrou com Isadora ao lado, como se a tivesse moldado para caber naquele papel. As mãos entrelaçadas. Os rostos relaxados. Mas cada toque entre eles era ensaiado. Cada olhar, um campo minado. — Sorria — ele murmurou próximo ao ouvido dela, inclinando-se como se fosse um carinho. — Finja que sou tudo o que você queria — ela retrucou, com um sorriso impecável nos lábios. — Isso deve ser fácil. Você é bom em mentir. Eles foram cumprimentados por investidores, políticos e rostos conhecidos da imprensa. Dante apertava mãos. Isadora sorria com perfeição. A mulher ao lado dele parecia a esposa ideal — e apenas ele sabia que aquela mulher era um veneno refinado. — Está se saindo bem — ele disse, enquanto posavam para uma foto juntos. — Eu era treinada para isso desde criança — ela sussurrou, os lábios próximos à bochecha dele. — Enganar. — Parabéns. Engana até a mim. — Isso é um elogio? — Isso é uma ameaça. Eles sorriram para a câmera. O flash brilhou. --- Horas depois, quando a chuva apertou lá fora, a notícia chegou com um toque no celular de Dante: a ponte principal da estrada havia desabado. Deslizamento de terra. Não havia como voltar para a mansão. Pelo menos, não naquela noite. — Ótimo — Isadora disse, sentando-se no sofá de couro da sala de hóspedes onde haviam sido instalados temporariamente. — Presos num centro cultural com cheiro de verniz e vinho barato. Dante observava pela janela, falando ao telefone com um de seus seguranças. — Uma equipe está tentando abrir caminho pela parte norte da floresta. Pode levar horas. — Você planejou isso? — ela perguntou com sarcasmo. — Me isolar pra ver se desisto e aceito sua existência? — Eu prefiro que lute. Gosto mais de você quando está armada. Ela cruzou os braços. — Você não sabe o que eu sou capaz de fazer quando não tenho pra onde correr. Ele a olhou por cima do ombro, a expressão grave. — Justamente por isso estou tranquilo. É quando você foge que me preocupo. --- O tempo passava devagar. Eles dividiam um único ambiente. Um quarto improvisado com sofá, lareira acesa e uma poltrona. Havia uma cama de casal no canto, coberta por lençóis brancos que pareciam mais ameaçadores que qualquer prisão. Isadora se levantou, impaciente. — Isso é ridículo. Não temos nada pra fazer além de fingir que existimos bem juntos? Dante a encarou. — Podemos conversar. — Sobre o quê? Sobre como você destruiu meu pai? — Sobre como ele me destruiu primeiro. Ela parou. — Do que está falando? Ele se aproximou. — Nada que eu queira explicar agora. — Então não fale em "conversar", Dante. Você só quer dominar. E eu não sou sua peça. — Não. Você é o tabuleiro inteiro. Ela engoliu seco. — Às vezes eu me pergunto se você sabe que está começando a ceder. — E às vezes eu me pergunto se você percebe que está começando a sentir. — Eu não sinto nada por você. Ele deu mais um passo. — Mas deseja. — Não. — Então por que sua respiração muda quando eu chego perto? Ela estalou a língua. — Talvez seja nojo. — Talvez — ele disse, e passou por ela, indo até a lareira. Ela ficou ali, no meio do quarto. O peito subindo e descendo devagar. A consciência rodando entre o que queria e o que precisava negar. --- Mais tarde, quando ambos já haviam tomado banho e trocado de roupa, Dante ocupava a poltrona com um copo de vinho. Isadora estava deitada na cama, longe da beira, o corpo coberto até os ombros. Mas os olhos estavam abertos. Observando. Ele olhou de volta. — Está com medo? — Estou com raiva. — Do que? — De mim. Por não conseguir mais te odiar com tanta facilidade. Ele bebeu mais um gole. — Ainda bem. Eu odeio o suficiente por nós dois. — Mentiroso — ela sussurrou, virando o rosto. --- De madrugada, a luz da lareira ainda dançava pelas paredes. Isadora estava acordada. E sabia que ele também. Não disseram nada. Mas no silêncio, algo entre eles mudava. Sem que percebessem. Sem que pudessem impedir.
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