Capítulo 5 - Fendas no Escuro

906 Palavras
O silêncio da manhã foi quebrado por uma pancada seca. Isadora ergueu os olhos do livro e olhou na direção do som. Vinha do andar de cima. Outro estalo. E mais um. Ela se levantou do sofá da biblioteca com o coração acelerado. Não era medo. Era desconfiança. Em uma casa onde tudo era tão meticulosamente controlado por Dante Rivas, qualquer ruído fora do script parecia um alarme. Subiu as escadas com passos cuidadosos, passando pelos corredores silenciosos até se aproximar da porta entreaberta do antigo escritório do avô de Dante — agora desativado. A luz filtrava pelas cortinas e jogava sombras douradas sobre o piso de madeira. Isadora empurrou a porta devagar. E encontrou Dante socando o saco de areia pendurado no teto. Camisa colada ao corpo de suor, punhos enfaixados, respiração pesada. Ele batia como se quisesse rasgar a própria pele. Cada golpe era mais brutal que o anterior. Ela não disse nada. Só ficou observando. Aquele homem arrogante, frio e afiado como vidro parecia quebrado ali. Não emocionalmente. Mas fisicamente. Corpo tenso, músculos saltando sob o esforço, olhos semicerrados. Ele lutava contra algo que não era o saco. Talvez contra ele mesmo. Ela deu um passo para dentro, e o assoalho gemeu. Ele parou. Virou lentamente. Os olhos cinzentos se fixaram nos dela, ainda ardendo de algo que ela não conseguiu nomear. — Vai continuar aí parada me olhando como um experimento, ou vai dizer o que quer? — ele perguntou, ofegante. Ela cruzou os braços, encostada no batente da porta. — Não sabia que você sangrava por dentro. Imaginei que só existisse aço aí. — Todos sangram. Alguns só escondem melhor. — E você esconde m*l. Está se quebrando, Dante. Ele tirou a faixa dos punhos e jogou sobre uma cadeira. — Você adoraria me ver cair, não é? — Eu adoraria que parasse de fingir que não sente nada. Ele passou as mãos pelos cabelos, a respiração ainda descompassada. — O que você quer de mim, Isadora? — Verdade. — A verdade é que te odeio tanto quanto me odeia. Mas quando você entra numa sala, eu sinto. Quando dorme no quarto ao lado, eu ouço. Quando me desafia, eu perco o foco. E isso me deixa furioso. Ela se aproximou. Lentamente. Um passo de cada vez. — Então pare de fugir. — Fugir? — ele riu, sarcástico. — Acha que é fácil lidar com você? Que é só olhar nos seus olhos e tudo se resolve? — Não. Mas acho que você é covarde demais para tentar. A provocação foi direta. Fria. Calculada. Ele estava a poucos centímetros agora. O corpo ainda quente do treino. O cheiro de suor, pele e algo indefinido. Bruto. Real. Isadora sentiu os dedos tremerem e odiou aquilo. Odiava tudo que ele causava no corpo dela. — Não me provoque, Isadora — ele murmurou. — Você não sabe no que está se metendo. Ela ergueu o rosto, desafiadora. — Talvez eu queira me queimar. A mão dele foi rápida, agarrando sua cintura e puxando-a contra o peito. Os corpos colidiram com força. O ar entre eles sumiu. — Você me deixa fora de controle — ele disse entre os dentes. — E isso me assusta. Ela não riu. — Eu não quero te assustar, Dante. Eu quero te vencer. Ele a encarou, os olhos fixos nos lábios dela. Um segundo. Dois. Três. Então a soltou. — Ainda não é hora. Ela arfou, surpresa. — Hora de quê? — De você descobrir o que eu sou capaz de fazer quando ama alguém. --- O resto do dia passou em silêncio. Mas não era um silêncio leve. Era um fio prestes a se partir. Isadora passou horas na biblioteca. Depois caminhou pelos jardins, como se pudesse andar para longe da lembrança do corpo de Dante tão perto. Ele invadia a mente dela, mesmo quando não estava. E isso era insuportável. À noite, ela subiu para o quarto, tomou banho, vestiu uma camisola simples e sentou-se na frente da penteadeira. O reflexo no espelho parecia outro. Mais cansada. Mais viva. Ela pegou o perfume sobre a mesa, hesitou e o colocou de volta. Não estava tentando agradar. Estava sobrevivendo. Bateu na porta. Ela girou devagar. Dante. Vestido com roupas escuras, descalço. Sem o usual terno impecável. Só uma camiseta preta e calça de tecido leve. Ele parecia um fantasma, um vulto, uma ameaça contida. — Posso entrar? Ela assentiu. Não porque queria. Mas porque algo dizia que aquele momento mudaria tudo. Ele entrou, fechou a porta. Encostou-se na parede, cruzando os braços. — Estava pensando — começou ele —… que talvez eu esteja preso num jogo que não entendo. — E eu? — Você é a jogadora mais perigosa. Porque finge que não está jogando. Ela se levantou, foi até ele. — Então por que veio aqui? — Porque hoje… eu vi uma parte sua que ainda não conhecia. — E o que achou? Ele esticou a mão. Tocou o rosto dela com a ponta dos dedos. — Você me deixa em ruínas. Ela segurou a mão dele, firme. — Então me destrua de vez. Ou me ame direito. Ele não respondeu. Mas não foi embora. --- Mais tarde, enquanto ela dormia — finalmente, pela primeira vez em dias —, Dante ficou ali, sentado na poltrona do canto do quarto, em silêncio. Observando-a. Como quem vigia um inimigo. Ou alguém que, finalmente, começa a se render.
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