Isadora não dormiu. A noite inteira ouviu o tique-taque lento do relógio e os passos pesados de Dante pelo corredor. Ele andava de um lado para o outro como um animal enjaulado — ou como alguém que não sabia lidar com o silêncio.
O travesseiro ainda guardava o cheiro dele. Um detalhe c***l, já que ele nunca havia dormido ali.
O céu começou a clarear devagar. E, com ele, a angústia no peito dela também se acentuou. Precisava sair dali. Precisava respirar sem sentir o nome dele dentro do pulmão.
Vestiu uma calça leve, uma camisa branca e desceu as escadas sem fazer barulho. A mansão estava silenciosa. Somente o som suave da água na fonte do jardim quebrava a paz falsa daquela prisão dourada.
Foi para a estufa, um dos poucos lugares que ainda pareciam “seus”. As plantas ali não julgavam. Nem olhavam. E o cheiro de terra úmida era a única coisa que ainda a conectava ao mundo real.
Ela estava de joelhos, cuidando de uma orquídea prestes a florescer, quando a voz veio atrás dela:
— Não sabia que sabia mexer com vida.
Isadora se virou, os olhos estreitos. Dante estava parado na porta da estufa, sem paletó, com a camisa social branca dobrada até os cotovelos. As veias nos antebraços saltavam. Ele estava bonito. Estava sempre bonito. O problema era tudo o que vinha junto com aquele rosto.
— Ao contrário de você, eu gosto de ver coisas florescerem — disse ela, voltando a atenção à planta — e não de destruir tudo que toca.
— E mesmo assim casou comigo.
Ela se levantou devagar, tirando a luva suja de terra.
— Não seja i****a. Meu pai te vendeu. Eu só assinei o recibo.
Ele a observava como se esperasse algo mais. Como se provocá-la fosse um hábito impossível de abandonar.
— E o recibo veio com espinhos.
— Você não sabia? Rosas machucam.
Eles se encararam. Um segundo. Dois. E, por algum motivo e******o, aquele silêncio entre eles parecia dizer muito mais do que todas as brigas anteriores.
— Clara vai voltar — ele disse.
Isadora cruzou os braços.
— Que bom. Ela combina com você: falsa, venenosa e com dentes afiados.
— Não minta, Isadora. Você se incomoda com ela.
— Me incomoda o que você representa — ela retrucou. — Não importa se é ela ou outra. Você sempre foi e sempre vai ser... repugnante pra mim.
Ele deu um passo à frente.
— Jura?
— Com cada gota do meu sangue.
Dante parou na frente dela. Perto demais.
— Então por que está tremendo?
Ela engoliu em seco. Estava, sim. Mas era de raiva. De tensão. De algo que não queria nomear. O peito subia e descia rápido demais.
— Sai daqui — sussurrou.
Mas ele não saiu. Ao invés disso, ergueu a mão e tocou o rosto dela — de leve. Tão leve que doeu mais do que se tivesse esbofeteado.
— Você me odeia tanto que até o toque te queima.
— Não — ela disse. — Eu odeio você porque, no fundo, parte de mim ainda responde ao que sente. E isso me enfurece.
Dante se afastou de súbito, como se aquelas palavras tivessem feito mais estrago do que ele queria admitir.
— Guarde isso — ele disse. — Você vai precisar dessa raiva quando eu te der motivos reais pra me odiar.
E então ele foi embora, deixando-a com o peito em chamas.
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No fim da tarde, Isadora foi até o escritório buscar um livro. Queria distrair a mente. Mas o que encontrou foi Dante, de pé diante da lareira apagada, com um copo de uísque na mão e o rosto inclinado para baixo.
Ela hesitou.
— Não sabia que bebia quando está sóbrio.
— Hoje é um daqueles dias — ele respondeu, sem encará-la.
Ela cruzou os braços.
— Dias em que pensa em tudo o que arruinou?
— Dias em que penso no que ainda não destruí. E você está no topo da lista.
Ela sorriu de lado.
— Que honra.
Dante levantou os olhos. E por um segundo — apenas um — ela viu ali um cansaço. Um traço de algo humano. Algo real.
— Sabe qual o problema de você, Isadora?
— Que sou livre mesmo quando estou presa?
— Que você me deixa fora de controle.
O coração dela deu um salto. Mas não pela frase. E sim porque ela sentia exatamente o mesmo. E odiava.
— Ótimo — respondeu em voz baixa. — Eu quero que perca o controle. Porque, quando isso acontecer, vai descobrir que quem comanda essa guerra sou eu.
Dante se aproximou, lento. Os olhos fixos nos dela.
— Está jogando alto.
— Estou jogando pra ganhar.
A mão dele alcançou a cintura dela. Segurou com força. Ela não recuou. Não dessa vez.
— Me odeia, não é? — ele murmurou.
— Com tudo o que tenho.
E então ele a soltou.
— Ainda bem.
Ela não entendeu.
— Por quê?
Ele bebeu o último gole do uísque e virou de costas.
— Porque, quando você me amar, Isadora…
Vai doer muito mais.
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E ela ficou ali. Parada. O coração martelando nas costelas.
Sem saber o que odiava mais naquele momento: ele…
Ou o fato de estar começando a entender.