Quando o Amor Vira Desprezo

1051 Palavras
Caroline demorou mais do que o necessário para se arrumar. Klaus esperou em silêncio, sentado na ponta da cama, vestindo uma camisa simples, bem passada, e uma calça discreta. Estava bonito — não pelo preço da roupa, mas pelo cuidado. Quando ela saiu do quarto, ele se levantou automaticamente. — Nossa… você tá linda, amor — disse, sincero. — Obrigada — ela respondeu, já pegando a bolsa. — A gente pode ir? Consegui um carro emprestado com um amigo disse klaus animado. — Sério? — caroline sorriu, aliviado. — Onde tá? — Olha pela janela. Ela foi até a janela. Um carro antigo, pintura opaca, parado torto na calçada e , explodiu: — Você tá de palhaçada comigo? É esse carro velho aí? Klaus respirou fundo. — Caroline… o que você quer que eu faça? Quer que a gente vá de ônibus? — Ônibus, Klaus? Pelo amor de Deus! — ela riu, sem humor. — Você tem noção da quantidade de carro chique que vai estar parado lá? Você tem noção? Ela começou a andar pela sala, gesticulando. — O marido da Amanda foi promovido na empresa mais reconhecida do mundo inteiro. A Cyber Nation! Você sabe o que isso significa? Você tem noção de quantos dígitos aquele homem deve ter na conta? Do carro que ele tem? Do carro que ele deu pra Amanda? Klaus fechou os olhos por um segundo. Ele sabia. Sabia demais. Marido da Amanda, trabalhava na empresa dele. Sabia de cada detalhe. Mas aquilo era um segredo que ele não podia — ainda — quebrar. — Sabe qual é o seu problema, Caroline? — ele disse, com a voz firme. — É essa comparação o tempo todo. Ela parou. — Como assim? — A vida dos outros não é a sua. Cada um tem uma realidade. O marido da Amanda hoje pode estar na Cyber Nation com cartão Black, carro bom, vida confortável. Mas isso não caiu do céu. Ele se aproximou. — Ele começou como um trabalhador comum. E a Amanda trabalhou do lado dele. Caroline cruzou os braços. — Agora você vai jogar na minha cara que eu não trabalho? — Vou — Klaus respondeu, sem elevar a voz. — Vou porque é verdade. O silêncio ficou pesado. — Você não trabalha — ele continuou. — E não cuida da casa. Eu chego cansado, o pouco dinheiro que eu tenho eu te dou. Eu lavo louça, faço comida, lavo suas roupas, lavo as minhas. Faço tudo. Ele respirava com dificuldade. — Eu pareço um empregado nessa casa, Caroline. Ela abriu a boca para retrucar, mas ele não parou. — Tem meses que eu não sei o que é te tocar. Meses que eu não sinto seu beijo, seu corpo. Toda vez que eu me aproximo, você vira o rosto. Caroline riu, fria. — Me poupe, Klaus. — Não. Me escuta — ele insistiu. — Você diz que eu chego sujo, que eu não presto. Mas quando eu tomo banho, quando to cheirosa o, deito do seu lado e vou te procurar por um carinho…você me recusa do mesmo jeito Caroline. Hein? Ela ficou imóvel. Não era culpa. Era orgulho ferido. — Você mudou — ela disse, por fim. — Eu só cansei de implorar — ele respondeu. A bolsa caiu da mão dela no sofá. — Eu não vou nesse jantar — Caroline falou, fria. — Não com você. Klaus assentiu devagar. — Tudo bem. Ela passou por ele, batendo a porta do quarto. Minutos depois, saiu sozinha. Klaus ficou no meio da sala, arrumado para uma vida que nunca chegava. Naquela noite, o desprezo venceu o amor. E ele começou a entender que algumas perdas acontecem antes do adeus. Depois que Caroline saiu pela porta, o apartamento ficou grande demais. Klaus não se moveu de imediato. Ouviu o som do elevador descendo, depois o silêncio pesado que sempre vinha quando ela ia embora sozinha. Foi até a janela quase por instinto. Um carro parou na frente do prédio. Não era aplicativo. Não era amigo qualquer. Caroline entrou sem olhar para trás. Klaus observou até o carro sumir da rua. Pegou o celular. — Sigam ela — disse, baixo, direto. — Quero saber tudo. Do outro lado, a resposta veio rápida: — Sim, chefe. Ele desligou. Pela primeira vez em muito tempo, Klaus se permitiu não fingir nada. Tirou a camisa, largou os sapatos no canto, arregaçou as mangas e começou a arrumar a casa. Recolheu roupas, lavou a louça esquecida, organizou o que ela ignorava há dias. Cada gesto era automático, como se o corpo soubesse exatamente o que fazer quando o coração estava cansado demais. Depois, tomou banho. Deitou na cama ainda arrumada, olhando para o teto. — Meu Deus… — murmurou. — Eu não mereço isso. As palavras vieram como um desabafo antigo. — Eu não mereço viver assim. Não mereço estar com uma mulher que não me ama, que não me quer, que não me toca. Virou o rosto no travesseiro. — Eu não mereço essa vida. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Caroline sorria. A festa era exatamente como ela imaginava. Luzes bonitas, música baixa, gente bem-vestida. Ela circulava entre os convidados com facilidade, rindo alto, posando para fotos, sendo vista. Ela gostava disso. Dois homens discretos entraram pouco depois. Nada neles chamava atenção. Trajes comuns, postura relaxada. Pareciam apenas convidados a mais, caminhando pelo salão, observando tudo sem serem notados. Caroline não percebeu. Em uma das mesas, ela se inclinou para ouvir algo e riu de novo. Um homem aproximou-se demais. Ela não se afastou. Minutos depois, braços entrelaçados. O celular de Klaus vibrou. — Chefe… — a mensagem começou. — Sua mulher está de braços dados com um homem aqui. Logo abaixo, a foto. Klaus olhou por longos segundos. Não houve surpresa. Apenas confirmação. — É… — ele digitou, sentindo o peito apertar, mas a mente estranhamente calma. — Eu já imaginava. Outra mensagem apareceu. — Continuamos seguindo. — Continua aí — ele respondeu. — Me conta tudo. Klaus largou o celular ao lado da cama. Fechou os olhos. Naquela noite, enquanto Caroline sorria para flashes e braços errados, Klaus assinava algo invisível dentro de si. O fim da espera. O fim da ilusão. E o começo de uma verdade que não podia mais ser ignorada.
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