O Dia em Que Ela Foi Embora

582 Palavras
Caroline só voltou no dia seguinte. O sol já estava alto quando a porta do apartamento se abriu. Klaus estava sentado à mesa da cozinha, a xícara de café já fria entre as mãos. Ele não tinha dormido. Passara a noite inteira acordado, esperando um som, um passo, uma explicação que não veio. Ela entrou sorridente. Bonita. Arrumada. Cheirosa demais para quem havia passado a noite fora. — Bom dia — disse, com naturalidade. Klaus levantou os olhos devagar. O olhar carregava dor, mas a voz saiu estranhamente calma. — A noite foi boa, né? Caroline sorriu, um sorriso leve, sem peso algum. — Foi ótima. Ela largou a bolsa no sofá, tirou os sapatos como se estivesse apenas voltando do trabalho. — Agora eu preciso dormir. Passou por ele sem hesitar. Sem perguntar se ele estava bem. Sem explicar onde esteve. Sem perceber — ou fingindo não perceber — o homem que se quebrava ali. Klaus ficou parado, apenas observando. Observando aquela mulher por quem ele fora loucamente apaixonado se afastar pelo corredor com a tranquilidade de quem não sente culpa. O sorriso dela foi o que mais doeu. Não havia arrependimento. Não havia vergonha. Só leveza. E naquele silêncio, algo morreu dentro dele. Não foi raiva. Não foi ódio. Foi luto. Naquele instante, Klaus entendeu: Ela não tinha apenas passado a noite fora. Ela já tinha ido embora há muito tempo. O que ainda existia ali não era um casamento. Era apenas um corpo ocupando espaço. E naquele dia — sem malas, sem gritos, sem despedidas — Caroline foi embora de vez. Mesmo ainda estando ali. Depois daquele dia, Caroline mudou. Não foi uma mudança brusca. Foi pior. Foi sutil. Ela passou a tratar Klaus como alguém que apenas ocupava espaço. Falava pouco, respondia menos ainda. Dormia virada para o outro lado. O celular nunca saía da mão. Risadinhas surgiam do nada. Banhos demorados demais. Perfume usado até para ficar em casa. Klaus via tudo. E, pela primeira vez, não fechou os olhos. Ele continuou saindo cedo. Continuou voltando cansado. Continuou fingindo ser o homem simples que ela desprezava. Mas, por dentro, algo havia mudado. O amor já não comandava suas escolhas. A lucidez, sim. Na empresa, Klaus era outro homem. Frio, preciso, estrategista. Reuniões longas, decisões rápidas. Enquanto assinava contratos e expandia negócios, uma única pergunta martelava sua mente: Até quando? À noite, Caroline chegava tarde. Algumas vezes nem chegava. Outras, entrava como se nada estivesse acontecendo. — Vou dormir — dizia, sem olhar para ele. E Klaus respondia apenas com o silêncio. Não havia mais cobrança. Não havia mais pedidos de carinho. Não havia mais tentativas. Isso a incomodava. Caroline percebeu a ausência antes mesmo de perceber a perda. — Você tá estranho — ela disse certa noite, mexendo no celular. — Tô cansado — ele respondeu. — Sempre cansado… — ela murmurou, irritada. — Parece até que não se importa mais. Klaus levantou os olhos devagar. — Você quer mesmo que eu me importe? Ela não respondeu. Virou-se na cama. Naquela madrugada, Klaus tomou uma decisão que não envolvia gritos, confrontos ou revelações dramáticas. Ele não iria implorar. Não iria se justificar. Não iria se explicar. O teste tinha ido longe demais. E o preço tinha sido alto demais. Enquanto Caroline acreditava estar no controle, Klaus começava a preparar algo em silêncio. Porque o jogo que ele criara para testar o amor dela… tinha saído errado. E agora, quem aprenderia o valor da perda não seria ele.
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