a ameaça de luiz

922 Palavras
Helena chegou à casinha quando o sol já estava mais alto. Abriu a porta devagar, como se estivesse entrando num lugar sagrado. O eco vazio da sala a recebeu. Ela deixou as malas ali mesmo, no meio da sala. Não teve pressa. O coração estava cheio demais pra organizar qualquer coisa. Saiu de novo, foi até a varanda e sentou na cadeira de balanço. A madeira rangeu de leve quando ela começou a se mover, pra frente e pra trás, num ritmo lento, quase hipnótico. Foi ali que o choro veio. Não um choro desesperado. Era um choro estranho, misturado com sorriso. As lágrimas escorriam enquanto os lábios tremiam num riso contido. Alívio e saudade brigando dentro dela. O silêncio ao redor era profundo. Um silêncio que não apertava — observava. O vento mexia as folhas do jardim ainda pequeno. A paz que ela tinha sentido ao comprar aquela casa estava ali, mas vinha acompanhada de uma tensão que pulsava por dentro. Ela levou a mão ao peito. — A gente quer se acertar… — murmurou, a voz falhando. — Eu quero. Ele quer. Fechou os olhos por um instante. — Mas a gente precisa desse tempo. — respirou fundo. — Precisa entender o que tá acontecendo de verdade. A cadeira continuava balançando, como se acompanhasse os pensamentos dela. Ela abriu os olhos de novo, olhando pro nada, mas pensando em tudo. Se ele soubesse o quanto mexe comigo… Não era um mexer qualquer. Era profundo. Era calmo. Era perigoso. — É de um jeito bom… — sussurrou, com um sorriso triste. — E assusta ao mesmo tempo. As lágrimas caíram de novo, mas dessa vez ela não limpou. Deixou cair. Deixou sentir. Porque, pela primeira vez em muito tempo, Helena não estava fugindo de nada. Ela estava se dando espaço. E isso também era uma forma de amor. Um dia tinha passado. Helena estava no consultório, tentando manter a rotina, tentando fingir normalidade. Atendia, ouvia, orientava — no automático. Por fora, firme. Por dentro, ainda em processo. Foi quando a porta se abriu com força. Luís entrou transtornado. O olhar perdido, o rosto tomado por raiva e desespero. — VOCÊ FEZ ISSO COMIGO! — ele gritou, sem se importar com nada ao redor. — Você botou aquela casa no meu nome! Botou a dívida no meu nome! Eu fui expulso! Tô com uma dívida altíssima nas costas! Helena levantou devagar da cadeira. O coração acelerou, mas a voz saiu fria. — E você queria que eu fizesse o quê, Luís? Ele se aproximou, gesticulando. — Você levou uma vagabunda pra dentro do MEU apartamento! — ela continuou, firme. — Eu era o banco pra você. Te dava dinheiro pra sustentar aquela p*****a. Carro, celular novo… tudo que você dizia que era pra você, mas era pra ela. Você achou mesmo que eu ia virar as costas pro meu apartamento e deixar você continuar lá, vivendo bem, com ela? A raiva dele explodiu. Num segundo, Luís avançou e a segurou pelo pescoço, levantando-a parcialmente da cadeira. — Escuta bem o que eu vou dizer — ele rosnou, o rosto colado ao dela. — Você vai me dar dinheiro pra eu comprar um novo apartamento. E eu não tô brincando. Helena tentou respirar. A mão foi instintivamente ao pescoço quando ele a soltou com brutalidade. Ela caiu sentada, tossindo. Passou a mão no pescoço, sentindo a ardência. — Você tá cavando a sua própria cova… — ela disse, com a voz falha, mas firme. Aquilo foi o estopim. Luís empurrou a mesa, derrubou objetos. Um movimento brusco, um impacto. Helena caiu no chão, sentindo uma dor aguda no lado do corpo. O mundo girou por um segundo. Ele a olhou de cima, transtornado. — Eu vou te pegar. — apontou o dedo pra ela. — Um dia você ainda vai me dar dinheiro pra eu comprar uma casa de novo. Hoje eu vou atrás de vocês de novo. E você não vai gostar quando eu voltar. Ele saiu batendo a porta. O silêncio que ficou foi ensurdecedor. Helena permaneceu ali sentada no chão, cercada por coisas quebradas, o corpo doendo, o rosto vermelho, o pescoço marcado. As lágrimas vieram sem controle. Ela pegou o celular com a mão trêmula e escreveu uma única mensagem: “Você tá muito ocupado?” Do outro lado, Klaus estava numa reunião. Assim que viu o nome dela na tela, largou tudo. “Onde você tá?” “No meu consultório.” “Chego em cinco minutos.” Ele correu. Quando Klaus entrou no consultório, o choque foi imediato. As coisas reviradas, objetos quebrados, o caos espalhado. E Helena… sentada, pálida, o rosto marcado, o pescoço vermelho, o lado do corpo machucado. Ele foi direto até ela. — O que aconteceu? — a voz dele saiu baixa, perigosa. — O Luís esteve aqui… — ela respondeu, tentando segurar o choro. — Ele fez isso. Disse que eu tenho um dia pra dar dinheiro pra ele comprar um apartamento. Disse que vai voltar. E que da próxima vez vai ser pior. Klaus se endireitou lentamente. Os olhos escureceram. A mandíbula travou. — Isso não vai ficar assim. Ele se agachou na frente dela, com cuidado, encostou a mão perto do rosto dela, sem tocar nas marcas. — Ninguém encosta em você. Ninguém ameaça você. — a voz dele era firme, controlada. — Eu prometo. Ele ficou ali, perto dela, como um muro. E pela primeira vez desde que tudo começou, Helena sentiu algo diferente do medo. Sentiu proteção real.
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