Alguns dias se passaram.
O corpo de Helena ainda estava sensível, mas a rotina começava, aos poucos, a voltar. Foi numa manhã aparentemente comum que o telefone tocou.
— Filha… vem almoçar aqui em casa comigo? — a voz da mãe soava doce demais.
Helena hesitou um segundo, depois respondeu:
— Tá bom, mãe. Eu vou sim.
Antes de sair, avisou Klaus por mensagem, só para ele não se preocupar. Disse que iria à casa da família, que era coisa rápida. Ele respondeu quase na hora, pedindo para ela avisar quando estivesse voltando.
O almoço começou tranquilo. Conversa superficial, comida simples, aquele clima estranho de normalidade forçada.
Até a campainha tocar.
A mãe se levantou rápido demais.
Quando o homem entrou na sala, Helena sentiu o estômago gelar.
— Mãe… quem é esse cara?
A mulher sorriu, orgulhosa.
— Filha, esse é seu marido.
Helena levantou de um pulo.
— Oi? O quê?!
— Até que enfim você largou aquele pateta que não valia nada — a mãe continuou, como se estivesse falando do tempo. — Esse aqui é bem-sucedido. Família rica. Vai te dar uma boa vida, um futuro bom.
— Mãe, NÃO. — a voz de Helena saiu firme. — Eu tenho meu trabalho. Eu sou dentista.
— Dentista? — a mãe riu com desprezo.
— Eu sou uma dentista renomada, mãe. Eu me sustento. Eu tenho minha vida. — respirou fundo. — E eu tenho alguém. Eu não posso me casar.
— Ah, para, Helena — a mãe revirou os olhos. — Você tem dedo podre pra homem. Esse aqui resolveu tudo. Já pagou o que precisava.
Helena empalideceu.
— Mãe… — a voz falhou. — Você me vendeu.
— Enfim — a mãe interrompeu. — Preciso falar uma coisa urgente com você depois.
— Não. — Helena balançou a cabeça. — Isso não pode ser. Isso NÃO pode ser.
A mãe simplesmente saiu do cômodo, fechando a porta atrás de si.
Deixando Helena sozinha com ele.
O homem se aproximou, confiante demais.
— Eu vou te tratar muito bem. Você vai viver como merece.
— Não encosta em mim. — Helena recuou. — Sai. Não encosta.
— Calma… — ele sorriu torto. — Eu vou te dar a melhor noite da sua vida.
— NÃO. — ela tentou se afastar.
Ele tentou segurá-la pelo braço.
O celular dela vibrou no bolso.
Num reflexo desesperado, ela conseguiu atender.
— Socorro… — a voz saiu quebrada. — Sai… por favor…
O homem tentou arrancar o telefone, mas a ligação já estava ativa.
Do outro lado, Klaus entendeu tudo sem precisar de explicação.
Ele saiu correndo.
— Para com isso — o homem dizia, irritado. — Agora você é minha. Eu comprei você.
— Eu não quero! — Helena se debatia. — Me solta!
A porta foi aberta com força.
Klaus entrou como um furacão.
Ele se colocou imediatamente entre Helena e o homem, o corpo inteiro em modo de proteção.
— Afasta. Agora.
— Eu comprei ela! — o homem gritou. — Ela é minha!
— Você o quê? — Klaus respondeu, a voz baixa, perigosa.
Helena, chorando, segurou o braço dele.
— Klaus… minha mãe me vendeu pra ele…
Klaus sentiu algo quebrar por dentro.
Ele encarou o homem com frieza absoluta.
— Você nunca mais chega perto da minha mulher. Nunca mais.
— Ela não é sua! — o homem retrucou. — Eu paguei!
Nesse momento, a mãe voltou à sala.
— Você ainda tem coragem de falar isso? — Klaus virou-se para ela, os olhos em chamas. — De fazer uma coisa dessas com a própria filha?
A mulher tentou dizer algo, mas a voz não saiu.
— Isso não vai ficar assim. — Klaus continuou, cada palavra medida. — Se qualquer um de vocês se aproximar dela de novo… vocês vão se arrepender.
Ele envolveu Helena com os braços, firmando-a contra o peito.
— Vamos embora.
Ela saiu dali sem olhar pra trás.
Com o coração em pedaços.
Mas segura.
Porque agora, ela sabia:
ninguém nunca mais decidiria a vida dela por ela.
Klaus pegou o carro e foram direto para a casa de Helena. Ela estava completamente encharcada de lágrimas, o corpo tremendo, e se enroscou nele assim que entraram.
— Minha mãe… minha mãe me vendeu… — ela murmurou, soluçando.
Klaus apertou-a ainda mais contra o peito, envolvendo-a com força, como se pudesse proteger cada pedaço dela do mundo inteiro.
— Shhh… eu tô aqui… eu tô aqui — ele murmurava, sentindo a aflição dela.
— Ela disse que meu trabalho nunca ia me trazer dinheiro… que aquele homem é bem de vida… que ia cuidar de mim… de mim e dela… — Helena continuava entre soluços, quase incapaz de formar palavras.
Klaus respirou fundo, segurando cada lágrima que caía dela com a própria força.
— Ele quase… quase consegui, Klaus… — ela sussurrou, a voz embargada pelo choro.
Ele não falou nada. Apenas a apertava firme, sentindo cada pedaço de dor e indignação dela se transferir para ele, como se pudesse carregar todo o peso do mundo.
— Eu prometo… ninguém mais vai te machucar — murmurou, a voz baixa, mas carregada de determinação. — Ninguém. Só eu.
E naquele abraço, Helena começou a sentir, pela primeira vez em muito tempo, que não estava sozinha.