minha mae me vendeu

884 Palavras
Alguns dias se passaram. O corpo de Helena ainda estava sensível, mas a rotina começava, aos poucos, a voltar. Foi numa manhã aparentemente comum que o telefone tocou. — Filha… vem almoçar aqui em casa comigo? — a voz da mãe soava doce demais. Helena hesitou um segundo, depois respondeu: — Tá bom, mãe. Eu vou sim. Antes de sair, avisou Klaus por mensagem, só para ele não se preocupar. Disse que iria à casa da família, que era coisa rápida. Ele respondeu quase na hora, pedindo para ela avisar quando estivesse voltando. O almoço começou tranquilo. Conversa superficial, comida simples, aquele clima estranho de normalidade forçada. Até a campainha tocar. A mãe se levantou rápido demais. Quando o homem entrou na sala, Helena sentiu o estômago gelar. — Mãe… quem é esse cara? A mulher sorriu, orgulhosa. — Filha, esse é seu marido. Helena levantou de um pulo. — Oi? O quê?! — Até que enfim você largou aquele pateta que não valia nada — a mãe continuou, como se estivesse falando do tempo. — Esse aqui é bem-sucedido. Família rica. Vai te dar uma boa vida, um futuro bom. — Mãe, NÃO. — a voz de Helena saiu firme. — Eu tenho meu trabalho. Eu sou dentista. — Dentista? — a mãe riu com desprezo. — Eu sou uma dentista renomada, mãe. Eu me sustento. Eu tenho minha vida. — respirou fundo. — E eu tenho alguém. Eu não posso me casar. — Ah, para, Helena — a mãe revirou os olhos. — Você tem dedo podre pra homem. Esse aqui resolveu tudo. Já pagou o que precisava. Helena empalideceu. — Mãe… — a voz falhou. — Você me vendeu. — Enfim — a mãe interrompeu. — Preciso falar uma coisa urgente com você depois. — Não. — Helena balançou a cabeça. — Isso não pode ser. Isso NÃO pode ser. A mãe simplesmente saiu do cômodo, fechando a porta atrás de si. Deixando Helena sozinha com ele. O homem se aproximou, confiante demais. — Eu vou te tratar muito bem. Você vai viver como merece. — Não encosta em mim. — Helena recuou. — Sai. Não encosta. — Calma… — ele sorriu torto. — Eu vou te dar a melhor noite da sua vida. — NÃO. — ela tentou se afastar. Ele tentou segurá-la pelo braço. O celular dela vibrou no bolso. Num reflexo desesperado, ela conseguiu atender. — Socorro… — a voz saiu quebrada. — Sai… por favor… O homem tentou arrancar o telefone, mas a ligação já estava ativa. Do outro lado, Klaus entendeu tudo sem precisar de explicação. Ele saiu correndo. — Para com isso — o homem dizia, irritado. — Agora você é minha. Eu comprei você. — Eu não quero! — Helena se debatia. — Me solta! A porta foi aberta com força. Klaus entrou como um furacão. Ele se colocou imediatamente entre Helena e o homem, o corpo inteiro em modo de proteção. — Afasta. Agora. — Eu comprei ela! — o homem gritou. — Ela é minha! — Você o quê? — Klaus respondeu, a voz baixa, perigosa. Helena, chorando, segurou o braço dele. — Klaus… minha mãe me vendeu pra ele… Klaus sentiu algo quebrar por dentro. Ele encarou o homem com frieza absoluta. — Você nunca mais chega perto da minha mulher. Nunca mais. — Ela não é sua! — o homem retrucou. — Eu paguei! Nesse momento, a mãe voltou à sala. — Você ainda tem coragem de falar isso? — Klaus virou-se para ela, os olhos em chamas. — De fazer uma coisa dessas com a própria filha? A mulher tentou dizer algo, mas a voz não saiu. — Isso não vai ficar assim. — Klaus continuou, cada palavra medida. — Se qualquer um de vocês se aproximar dela de novo… vocês vão se arrepender. Ele envolveu Helena com os braços, firmando-a contra o peito. — Vamos embora. Ela saiu dali sem olhar pra trás. Com o coração em pedaços. Mas segura. Porque agora, ela sabia: ninguém nunca mais decidiria a vida dela por ela. Klaus pegou o carro e foram direto para a casa de Helena. Ela estava completamente encharcada de lágrimas, o corpo tremendo, e se enroscou nele assim que entraram. — Minha mãe… minha mãe me vendeu… — ela murmurou, soluçando. Klaus apertou-a ainda mais contra o peito, envolvendo-a com força, como se pudesse proteger cada pedaço dela do mundo inteiro. — Shhh… eu tô aqui… eu tô aqui — ele murmurava, sentindo a aflição dela. — Ela disse que meu trabalho nunca ia me trazer dinheiro… que aquele homem é bem de vida… que ia cuidar de mim… de mim e dela… — Helena continuava entre soluços, quase incapaz de formar palavras. Klaus respirou fundo, segurando cada lágrima que caía dela com a própria força. — Ele quase… quase consegui, Klaus… — ela sussurrou, a voz embargada pelo choro. Ele não falou nada. Apenas a apertava firme, sentindo cada pedaço de dor e indignação dela se transferir para ele, como se pudesse carregar todo o peso do mundo. — Eu prometo… ninguém mais vai te machucar — murmurou, a voz baixa, mas carregada de determinação. — Ninguém. Só eu. E naquele abraço, Helena começou a sentir, pela primeira vez em muito tempo, que não estava sozinha.
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