Capítulo 17
Perigo narrando
Ela m*l tocava na comida. Cada vez que eu a encarava, sentia um arrepio subir pela espinha, não por medo dela, mas por lembranças do meu próprio passado. Os machucados no corpo dela me traziam flashes de tudo que eu havia feito com Malu. Era como se fantasmas que eu achava enterrados voltassem para me assombrar.
— Eu vou te mostrar o seu quarto — falo, tentando manter a voz firme. Ela me encara séria, desconfiada.
Na minha cabeça, ecoavam as palavras de Rd: “Talvez você devesse se aproximar dela.” Mas eu não queria me envolver com ninguém. Nada de hipóteses, nada de laços. Ir até a casa dele naquele dia fora apenas um deslize, e eu precisava me manter firme.
Ela entra no quarto e para abruptamente, fitando-me com os olhos arregalados.
— Eu vou ficar aqui? — pergunta, hesitante.
— Você pode voltar para o casebre lá em cima, se quiser tanto — respondo. Ela balança a cabeça em negativa. — Aqui não tem ratos.
— Meu pai… — ela murmura, olhando para mim com preocupação.
— O que tem ele? — pergunto, franzindo a testa.
— Como ele está? — sua voz tremia. — A casa… a bebida… como meu pai está?
Fico surpreso. Ela se mostra mais preocupada com o pai do que consigo mesma, mesmo com os hematomas, as marcas de tortura e a situação em que se encontra.
— Ficou tão preocupada com a vida dele, e você não sabe nem como seu pai está? — retruco, incrédulo.
Ela me encara pensativa, tentando processar o que digo, quando meu rádio começa a tocar.
— Perigo — Rd chama, interrompendo o momento.
— Boa noite, princesa — digo no rádio, fechando a porta do quarto e trancando-a.
Desço até a boca, onde Yuri me chamara. Ele estava sentado, mas se levanta quando me vê chegando.
— E aí, o que aconteceu? — pergunto, direto.
— Nossa carga já está chegando — ele responde, animado.
— Já? — pergunto, surpreso.
— Achei melhor adiantar — explica — já que Marcela estaria com a gente. Desculpa se fiz isso sem te avisar, mas achei que era a hora certa. Roberto estaria preocupado. — Ele me olha, aguardando reação. — Já está chegando no morro.
— Isso é bom — confirmo. — Roberto já deve saber que ela está aqui.
— Por que acha isso? — ele questiona.
Mostro-lhe algumas fotos que recebemos de Saul.
— Vamos até lá resgatar ele — falo.
— Como você sabe onde é esse local? — ele pergunta, desconfiado.
— Porque fiquei detido nesse local por muito tempo — respondo. — Roberto provavelmente não imaginou esse detalhe, porque faz muito tempo.
— Será que não é uma emboscada? — ele insiste.
— Não — respondo firme. — Já tenho meu plano. Vou monitorar tudo.
— E você não vai me contar, não é mesmo? — Yuri pergunta, sabendo a resposta.
— Não — confirmo. — Até eu ter certeza de que vai dar certo, não digo nada.
Yuri me conhece o suficiente para saber que não falaria nada. Ele entende que, quando falo, é porque tenho 100% de certeza. Até lá, mantenho-me quieto, calculando cada passo.
Laura narrando
Antes de voltar para Roberto, começo a pensar em como poderia ganhar aliados dentro do morro. Na Rocinha seria impossível; no Alemão, ainda mais difícil. Precisava de um novo terreno, um lugar onde pudesse me infiltrar e virar a maré a meu favor.
Pensei no dono do morro da Fé, mas não conhecia direito sua relação com a facção comandada por Bn. Então, decidi mirar em outro alvo: Yuri, subdono do morro da Maré, primo de Rd e Perigo. Seria arriscado, mas era a minha melhor chance.
Estacionei meu carro na estrada que liga o morro da Maré ao asfalto. Essa via, usada como entrada pelos traficantes, era longa e pouco vigiada. Senti uma pontada de sorte ao ver Yuri vindo em minha direção de moto. Aproximou-se do carro, tirou o capacete, e eu tirei meus óculos.
— Laura — cumprimentou, cauteloso.
— Antes de avisar seus amigos, peço que me escute — disse, me aproximando. — Pode me revistar, estou limpa.
Ele abaixou a arma, confiante, e observei seu olhar, tentando medir suas intenções.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou.
— Achei que você não me reconheceria, até porque ainda não estava por aqui — respondi.
— Jn sempre fala de você — disse, mostrando que estava informado. — Já me mostrou fotos.
— Jn… tão lindo, tão esperto, mas chorando por amor… tenho pavor de homem dramático — falei, e ele me encarou.
— Posso te levar até ele agora e você fala isso para ele pessoalmente — sugeriu, com um meio sorriso.
— Acredito que você não quer isso — respondi, confiante. — É mais vantajoso me ter viva ao seu lado do que me levar para ser morta.
— E posso saber por quê? — ele riu, curioso.
— Você é primo de Perigo e Rd — expliquei. — Só te chamaram depois que Saul desapareceu. Já pensou que, quando Saul voltar, você pode ser descartado, perdendo seu posto de subdono?
— Saul deve estar morto — disse, seco.
— Ele está vivo — sorri. — Está com Roberto, o delegado. Perigo e todos sabem, e provavelmente ele está tentando bolar um jeito de trazê-lo de volta. Aí você é descartado, perde seu posto. Triste, né? Dar a vida por algo e ser jogado fora assim.
— Onde aprendeu a ser tão venenosa, garota? — ele perguntou, admirado.
— Sou inteligente e falo a verdade — respondi. — Quando Saul voltar, eles não terão nada para você. Você volta de onde veio, como um nada. Ou… você pode me ajudar.
— Me ajudar? — riu. — Quer que eu traia eles?
— Pode me ajudar — expliquei. — Mantemos Saul onde está, depois você faz o que quiser com ele. Continua como subdono e, se tiver sorte, Roberto mata Perigo, e você vira o dono da Maré. Pensa: todo o morro sob seu comando, toda a grana entrando, luxos, mulheres, poder… ou você me leva de volta para eles, me matam, descobrem onde Saul está, e você volta a ser um Zé-ninguém.
Ele me observava, pesado com minhas palavras, e eu percebi que o jogo estava prestes a começar.