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1377 Palavras
Capítulo 18 Roberto narrando — Você acha que foi eles que pegaram ela? — Laura entrou no escritório, a expressão séria, quase desafiadora. — Eles quem? — perguntei, franzindo a testa. — O pessoal do morro? — ela insistiu, aproximando-se devagar. — Eu não sei ainda — respondi, tentando soar calmo, mas a preocupação me apertava o peito. — Pode ter sido qualquer pessoa. — Eles fizeram isso para você perder o foco da nossa vingança — ela falou, encarando-me nos olhos. — Eles não vão machucar a Marcela. Não é do estilo deles. E, francamente, qualquer pessoa que a Marcela conhece é tão… inofensiva, que não faria m*l nem a uma mosca. Aquelas palavras me fizeram parar por um instante. Como ela podia falar com tanta certeza sobre algo que eu ainda não tinha ideia? — Você fala com tanta certeza que foram eles que pegaram ela — eu disse, franzindo a sobrancelha — como pode ter tanta confiança? — Você tem outro inimigo agora? Outra vingança acontecendo? — Laura perguntou, aproximando-se ainda mais. — Não? Então só pode ser isso. Só se algum fantasma do seu passado voltou agora que você está de volta ao Brasil… aí eu já não sei te dizer. Fiquei em silêncio, absorvendo o que ela dizia. Ela tinha razão. A sensação de que tudo isso fazia parte de um plano maior crescia dentro de mim. — Não que eu saiba — falei, me levantando lentamente. — Acredito que não tenha ninguém. Eles a sequestraram, e estão um passo à frente de nós. — E é agora que você precisa mostrar que não estão — ela falou com firmeza. — Que você ainda pode reagir. — Do que você está falando? — perguntei, um pouco confuso, mas tentando acompanhar seu raciocínio. — É exatamente isso que eles querem — explicou Laura, se aproximando ainda mais. — Sequestrar a sua esposa para te tirar do foco, para te fazer reagir de forma impulsiva. Eles vão usar isso para acabar com você. — E você quer que eu simplesmente deixe Marcela lá? — perguntei, sentindo a raiva subir. — Eles não vão matar ela — Laura garantiu, calma. — Até porque não matam pessoas inocentes. O máximo que vai acontecer é deixá-la mofando lá dentro, presa, incomodada. Mas ela não corre risco de morte. — Então vou lá — disse, sentindo o peso das palavras dela. — Isso mesmo — disse Laura, com um brilho nos olhos. — Aproveita e me avisa a cor da urna que vão colocar minhas cinzas. Eles estão planejando tudo, cada detalhe. Não brincam em serviço, ainda mais depois de tantas mortes. Fiz um soco na mesa, respirando fundo. Ela estava certa. Se eles haviam capturado Marcela, era porque cada passo estava calculado. Um plano minucioso, feito para me atingir. — Está na hora de decidir o que vale mais: a sua vida ou a dela — disse ela, martelando minhas convicções, fazendo-me encarar a realidade. — E você acha que eu vou desistir da minha vingança? — perguntei, quase indignado. — Nós vamos embora — decidi, respirando fundo. — Dois meses fora, e depois voltamos com força total. Quando eles pensarem que desistimos, atacamos novamente. — Isso é loucura — ela retrucou. — Deixar Marcela nas mãos deles por dois meses… — O máximo que vai acontecer é que ela fique lá, sem poder sair — Laura respondeu, firme. — Mas você acha que Malu ou Julia, ou qualquer outra ali, deixariam ela ser morta? Não. Aqueles lugares têm gente com princípios, mesmo no meio do caos. Passei a mão pelo rosto, olhando para a foto minha e de Marcela no porta-retrato. Ela não sorria; o semblante sério dela me acompanhava. — A vida dela ou a sua — Laura repetiu, penetrando minha mente e me obrigando a decidir. Marcela narrando Três dias haviam se passado desde que fui levada para aquela casa. Cada momento parecia uma eternidade. Pouco vi Perigo, mas cada vez que ele surgia, repetia, quase como um mantra, todos os perigos que eu corria ali dentro. Se saísse de um cômodo, sentia que até respirar poderia ser arriscado. Nunca imaginei que poderia ter tanto medo de alguém quanto tive de Roberto, mas Perigo… era assustador de um jeito diferente. Ele se aproximou, se fez de amigo, me elogiou, me fez sentir atração, me tratou bem… e depois me traiu. O mais perigoso eram essas pessoas, que escondiam a violência atrás de um sorriso e de boas intenções. Desci as escadas lentamente. Ele havia liberado meu acesso à cozinha, e cada passo ecoava pelo silêncio da casa. De repente, a porta se abriu com força, e uma criança entrou correndo, parecendo ter uns quatro anos. Uma menina, com os olhos vivos, muito parecida com Perigo. — Quem é essa mulher, papai, com cabelo cor de salsicha? — perguntou, cruzando os braços, olhando brava para o pai, e depois para mim. Fiquei paralisada. — Essa é Marcela — respondeu Perigo, tranquilo. — Marcela? — ela repetiu, nervosa. — O que ela faz aqui dentro? Você invadiu a casa do meu pai? Aqui não entra ninguém além de mim. Então saia. A porta está ali — apontou, firme. Olhei para Perigo, esperando sua reação, e ele sorriu, caminhando em direção à filha. — Ela é apenas a esposa de um amigo meu — explicou ele, mostrando a aliança em meu dedo. — Olha, veja, aliança. Mostrei minha mão com um sorriso fraco, e ela me observou, ainda desconfiada. — E por que ela está aqui? — questionou, franzindo a testa. — O marido dela sofreu um acidente sério em outro país — respondeu Perigo, com naturalidade — está em coma. Ela ficou muito triste, e como ele é meu amigo, achei que você poderia ajudá-la a se sentir um pouco melhor. Ela me olhou, ainda desconfiada, mas seu olhar suavizou. — Desculpa, papai, mas eu não sou palhaça de circo para fazer ninguém feliz — disse, e eu não pude evitar sorrir. — Por que você está rindo? — Porque você parece ser legal — respondi, sorrindo. — Viu? Vocês vão se dar bem — disse Perigo, enquanto se preparava para sair. — Preciso ir à boca agora, depois volto e a gente pede pizza. — Você vai me deixar com ela? — perguntou a menina. — Joana, você pode cuidar dela para mim — respondeu Perigo, encarando a filha. — Estou te deixando responsável. Ele saiu, e ficamos frente a frente. — Você é muito bonita, Joana — disse, sorrindo para a pequena. — Obrigada, Deus foi generoso comigo — respondeu, séria. — E você também é bonita, seu cabelo tem cor de água salsicha — acrescentou, examinando-me. — É natural? — perguntei, curiosa. — Sim, sou ruiva — respondi. — Lá no morro da Rocinha, todas têm cabelo assim, mas são horríveis, ponta seca — disse ela, como se fosse uma adulta. — E você sabe o que é ponta seca? — perguntei, surpresa. — Sei tudo sobre beleza — respondeu, confiante. — Quando crescer, vou ser dona das maiores coisas de beleza. Vou pintar, arrumar… tudo. — Salão de beleza? — perguntei, interessada. — Sim — respondeu. — Joana Fashion, ou Joana Maravilhosa, Joana a mais bonita — começou a dançar, imitando passos de salão. — Joana, a dançarina dos cabelos lindos! Eu não pude conter o riso. — Adorei — disse, ainda rindo. — E você está com fome? — O tempo todo — respondeu, sorrindo. — Você sabe cozinhar? — Sim — disse. — Graças a Deus — falou, aliviada. — Porque meu pai não sabe. Aquele momento de leveza me trouxe um pouco de paz. Entre a tensão, o medo e as traições, perceber que havia ali uma criança tão cheia de personalidade e coragem me deu forças para continuar. Perigo podia ser imprevisível, mas aquela menina, Joana, mostrava que mesmo em meio à violência e ao caos, havia espaço para inocência e esperança. Aquele encontro, simples, de conversas e risadas, me mostrou que mesmo aprisionada, ainda existia humanidade dentro daquela casa. E por um instante, esqueci o perigo iminente que rondava meus dias. Mas a realidade não tardaria a voltar, e eu sabia que cada sorriso teria seu preço.
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