Diogo Vitório
O domingo deveria ser de folga, mas o crime não respeita o calendário. Eu estava lá, fardado de autoridade sob aquela blusa vermelha social, observando os soldados enfiarem Marcos Zamutti na viatura. O desespero da família Oliveira era música alta, um barulho que eu tentava filtrar, mas Isabel... Isabel era um ruído que eu não conseguia ignorar.
Entrei na minha sala com o nariz empinado, sentindo o rastro dela logo atrás. Eu sabia que ela viria. Sentia o calor daquela mulher antes mesmo de ouvir o baque da porta.
— Posso saber por que está prendendo o Marcos? — Ela disparou, a voz carregada de um veneno que me dava um t***o absurdo e uma irritação proporcional.
Sentei-me atrás da mesa com uma calma calculada. Eu precisava daquela mesa entre nós para não perder a minha postura de delegado. Olhei para ela e o ar sumiu por um segundo. Isabel estava de camisola bege, os p****s marcados pelo esforço de carregar a criança, a pele exposta como se tivesse saltado da cama direto para o meu inferno pessoal.
— Muito preocupada com o seu cunhado, Isabel? — Provoquei, encostando as costas na cadeira e cruzando as mãos. — Quem está desaparecida não é sua irmã?
Ela rosno um xingamento que eu quase pude sentir o gosto. Estava surtada, indomável. Eu a medi de cima a baixo com o meu olhar de "gato do mato", sentindo o desdém lutar contra a vontade de pular aquela mesa e mostrar para ela quem mandava naquela desgraça. Dei um riso curto, vendo-a se dar conta de que estava seminua na minha frente.
Levantei-me devagar. O movimento fez a minha blusa social esticar nos ombros. Contornei a mesa, o passo lento, cercando a presa. Parei a milímetros dela. O cheiro de Isabel, aquela mistura de sono, suor e desespero, me atingiu como um soco.
— Homem de bem, Isabel? — Sussurrei, invadindo o espaço dela até sentir o calor que emanava daquela camisola fina. — O seu "homem de bem" tem conexões que você não imagina. E se você tem tanta certeza, por que gasta sua energia gritando aqui de camisola em vez de me trazer uma prova que preste?
Encostei a mão na porta, logo acima da cabeça dela, prendendo-a entre o meu corpo e a madeira. Meus olhos desceram para os m*****s dela, rígidos contra o tecido bege, e eu soube que ela estava tão afetada quanto eu. O riso de desdém morreu, dando lugar a uma fome que eu não conseguia mais mascarar.
— Você está cego, Vitório — ela disse, mas a voz dela entregava a rendição.
— E você, Isabel? — Cheguei mais perto, o rosto quase roçando no dela. — Está cega pelo quê? Pela lealdade a um cunhado criminoso ou pela vontade de estar aqui, me desafiando só para sentir o meu peso?
A criança no colo dela se mexeu, um lembrete vivo do caos, mas eu não conseguia recuar.
— Me prova que eu estou errado, Isabel — murmurei contra a pele do rosto dela, sentindo-a tremer. — Porque, até agora, a única coisa que você está me provando é que não consegue ficar longe de mim, nem com a sua vida desmoronando.
Eu queria que ela saísse dali. Eu queria que ela ficasse. A linha entre o delegado e o homem tinha acabado de se romper.
O desdém que eu sentia por Marcos Zamutti era alimentado por anos de prática em ler bandidos, mas a fuga de Isabel da minha sala deixou um rastro de eletricidade no ar que eu não conseguia limpar. Ela saiu como se estivesse fugindo de um incêndio, carregando a criança e a própria confusão, me deixando ali, com a mão ainda apoiada na porta e o sangue latejando nas têmporas.
Eu m*l tive tempo de ajeitar a blusa vermelha e retomar a minha postura de ferro quando um soldado bateu na porta, esbaforido.
— Delegado, o suspeito... o Zamutti. Ele está passando m*l na cela.
— Já? — Soltei um riso seco, ajustando o coldre na cintura. — O roteiro é sempre o mesmo, Batista. Eles chegam aqui, sentem o cheiro da tranca e o coração resolve "falhar". É encenação.
Caminhei até a carceragem com passos pesados, disposto a desmascarar a farsa dele. Marcos estava pálido, a mão apertando o peito, os olhos revirando. Parecia convincente, admito, mas eu já vi atores melhores em salas de interrogatório.
— Levanta daí, Zamutti. O interrogatório nem começou e você já quer o hospital? — Eu disse, parando diante das grades.
Ele não respondeu. Apenas um gemido rouco e o suor frio que brotava na testa dele me fizeram franzir o cenho. Por mais que eu o quisesse preso, não precisava de um cadáver sob minha custódia antes mesmo de abrir o processo.
— Levem o "atriz" para a emergência — ordenei, gesticulando com descaso. — Algemem ele na maca. Quero dois homens na porta do quarto. Assim que o médico der uma dipirona, tragam ele de volta. Vou adiar isso, mas ele não vai escapar.
Eles saíram. Eu passei as horas seguintes revirando os arquivos de Zaya, tentando não pensar na camisola bege de Isabel e no jeito que ela me olhou antes de fugir. O relógio da delegacia parecia zombar da minha impaciência.
Quando a viatura retornou do hospital, eu já estava na recepção, pronto para arrastar Marcos para a sala fria e tirar dele cada detalhe sobre o paradeiro da esposa. Mas o rosto do soldado que entrou primeiro não era de quem trazia um farsante.
— E então? — Perguntei, a voz ríspida. — Onde ele está?
— Ficou internado, doutor Vitório.
— O quê? — Senti a raiva subir. — Deixaram ele se internar por uma dorzinha de estômago?
— Não foi dor de estômago, senhor — o soldado entregou o prontuário com a mão trêmula. — O médico confirmou. Início de infarto do miocárdio. O cara quase apagou na maca. Se não tivéssemos corrido, ele não teria chegado. O quadro é sério, ele precisa de acompanhamento constante.
Olhei para o papel, o termo técnico "Infarto Agudo do Miocárdio" saltando aos meus olhos. Um silêncio incômodo se instalou na recepção. Se o coração dele estava realmente falhando, o meu caso estava estagnado. E pior: se ele morresse, Isabel nunca me perdoaria. Eu tinha acabado de internar o "homem de bem" dela, e agora, além de delegado, eu era o carrasco que quase o matou.
— Droga! — Soquei a palma da mão na mesa. — Quero atualizações de hora em hora. E ninguém, absolutamente ninguém da família entra naquele quarto sem a minha autorização. Especialmente a Isabel.
Eu precisava manter o controle, mas o chão parecia estar fugindo sob os meus pés, exatamente como ela tinha fugido daquela sala, as coisas foram se afrouxando quando o cunhado chorão chegou pedindo para entrar, depois o enteado, disso eu não poderia negar, a inveja pela união deles me tomou por dentro, enquanto enrolava na sala de delegacia por não ter alguém em casa, a minha filha dezesseis anos, queria saber de todos menos de mim.
Um péssimo pai, impossivel amigo, além de ser motivo de vergonha pela minha profissão, Alexia sempre deixou claro, que saber que é filha de delegado, sempre afastava amigos, eu até tentei dialogar, sobre estes amigos, mas com os anos não há mais conversa, até chegar a noticia que o infeliz havia escapado, mesmo havendo dois guardas ali naquele hospital, éramos palhaços?