O caminho passou como um borrão, enquanto sua mente vagueava entre todas as coisas terríveis que poderiam ter acontecido para deixar suas mães naquele estado. As alternativas eram tantas e tão aflitivas que, ao parar no prédio da amiga, ela resolveu tentar não conjecturar sobre isso, pelo menos não enquanto estivesse com Leah.
Ela soube imediatamente qual era a situação da amiga quando o porteiro a olhou com alívio ao perceber para qual apartamento ela queria ir. No elevador, ela se perguntou o que Simon, o namorado m*l-caráter de Leah, havia aprontado agora. Ao longo daqueles quase dois anos em que se conheciam, quando ela tinha acabado de entrar na empresa e Leah havia sido a primeira à ser gentil com ela, ela já vira sua amiga suportar muitas coisas. Coisas que geralmente terminavam com ela chorando e de coração partido. E quebrando algumas coisas de raiva.
O que ela logo percebeu que era o caso, quando Leah abriu a porta para ela, enrolada em um coberto, com os olhos inchados de chorar, a camisa suja de sorvete e um apartamento revirado atrás dela.
- Gabbie... – ela soluçou antes de se lançar em seus braços, completamente em prantos.
- Ah, Leah... – Gabbie suspirou enquanto a amparava pelos ombros e a levava novamente para dentro, guiando-a até o sofá – O que ele fez desta vez?
- Aquele desgraçado... – Leah soluçou – Ele fez de novo! Disse que me amava e que tinha mudado! E eu, como a i****a que sou, deixei ele entrar!
- O que ele fez? – Gabbie sentou-se no encosto do sofá e observou o apartamento revirado, provavelmente por mais um ataque de fúria e coração partido de Leah. Novamente.
- Ele me roubou! - ela gritou por entre os soluços – Eu deixei o dinheiro para o aluguel debaixo do pote de açúcar. E aquele i****a achou e pegou! E saiu mais rápido que um raio... – a frase furiosa foi minguando até que ela estava apenas chorando, com grossas lágrimas escorrendo pelo rosto magoado – Por que? Por que ele faz essas coisas? Ele não sabe que eu o amo? Por que diz que me ama e faz essas coisas comigo?
- Oh, querida... – Gabbie suspirou, triste por sua amiga – Já conversamos sobre isso. Ele é o tipo de homem que vai dizer qualquer coisa para que você acredite nele. – com delicadeza, ela segurou o queixo da amiga e encontrou seus olhos – Eu sei que ele é convincente e que você não pode deixar de amá-lo da noite para o dia, mas... Leah, você precisa aprender a dizer não a ele. Do contrário, vai viver assim para sempre. – ela gesticulou ao redor do apartamento caótico.
- Eu sei! – Leah fungou, agora irritada novamente – Mas eu nunca aprendo.
- É claro que aprende, Leah! – Gabbie exclamou suavemente, tentando animá-la – Há seis meses, você teria negado tudo o que eu estou dizendo e dito que ele te amava, com certeza. Você não vê? Você já deu um grande passo admitindo o tipo de pessoa que ele é. – ela segurou a amiga pelos ombros e a encarou seriamente – Agora só precisa a se fortalecer contra ele.
- Mas eu não sei como... – Leah suspirou, abraçando a si mesma – Ele sempre diz as coisas certas para me convencer...
- Bem... – Gabbie levantou-se e ficou de frente para ela – Então vamos começar não dando a ele oportunidade de falar com você. Se ele te ligar, não atenda. Se ele bater na porta, ignore. Comece a exercitar não ligar para ele.
- Mas... - Leah amuou, incerta.
- Você precisa de regras novas, Leah. – Gabbie suspirou e se sentou ao lado da amiga - Como as regras que você tem no trabalho. O que acontece se alguém desobedecer a regra de não mostrar o projeto final ao supervisor antes de enviar para o cliente?
- Tudo fica uma d***a. – ela respondeu prontamente.
- Exatamente. O que aconteceu se você atender o telefonema dele?
- Decepção. – Leah grunhiu, triste.
- Bem, então, primeira regra: Nada de atender as chamadas dele.
- Mas, e se ele estiver precisando de ajuda?
- Então que vá procurar alguém que ele não tenha partido o coração. – Gabbie argumentou, cruzando os braços - O que nos leva à regra número dois: Não deixe ele entrar. Isso tudo vai acontecer de novo.
- Eu sei. – Leah fungou.
- Vai ser difícil no começo, mas você vai ficar bem, eu prometo. – ela abraçou a amiga pelos ombros – Ah, e outra coisa: Nada de ser amiga dele. Você já lhe deu chances demais para valer por toda a vida. Quando você disser não, é não. E ele tem que aprender isso.
- Certo. – sua amiga suspirou – Você tem razão. Eu não posso mais viver assim. Eu tenho que dar um jeito nisso.
- E eu e Daisy vamos estar aqui com você a cada passo do caminho. – Gabbie sorriu e abraçou novamente, afastado-se somente para encará-la com seriedade – Agora, quais são suas novas regras quando se trata do Simon?
- Um: Não atender as chamadas dele. Dois: Não deixar ele entrar.
- E três? – Gabbie ergueu uma sobrancelha sugestivamente.
- Nada de ser amiga dele. – Leah suspirou – Vai ser difícil, Gabbie. Eu queria dizer que sim, mas não sei se já estou forte o suficiente.
- E é para isso que as regras servem. – Gabbie apertou as mãos dela entre as suas – Para manter ele longe de você enquanto você fica mais forte. A prática leva a perfeição, você vai ver. E se ele te incomodar... – seus olhos tinham um brilho mortal – Vai ter sorte se eu só chamar a polícia.
Leah deu uma risada fraca e a abraçou de novo. – Você é a melhor Grabiella Navarro. Prometo que vou me esforçar. E que vou repetir essas regras até nem perceber que estou seguindo elas.
- Isso é o que eu queria ouvir. – Gabbie sorriu brilhantemente - Agora, que tipo de sorvete você tem aí?
Uma hora e meia depois, o táxi estava estacionando novamente na frente da casa de Gabbie. Ela esperava que aquele tempo que ela havia passado com Leah fazendo-a rir e tentando conscientizá-la do quanto era importante ela ficar longe de Simon, finalmente houvesse feito algum efeito nela. Apesar de que ela desconfiava que seria como Daisy sempre tinha lhe dito: "Uma hora, ela vai perceber o quão r**m ele é para ela. Só aí ela vai estar disposta a tomar uma atitude." E, enquanto abria a porta da frente, Gabbie torcia para que aquele momento finalmente tivesse chegado.
E que suas mães finalmente estivessem prontas para serem honestas com ela.
A sala de estar já estava completamente escura quando ela entrou e uma luz solitária brilhava de dentro da cozinha. Respirando fundo e se enchendo de coragem para só deixar Meredith e Gabrielle em paz quando tivessem lhe contado absolutamente tudo, Gabbie caminhou até lá.
Sentados ao redor da mesa, estavam todos os adultos de sua família. Suas mães, de mãos dadas sobre a mesa, olharam imediatamente para ela quando entrou. Já Gustavo e Violet, sentados na parte lateral da mesa redonda, pareciam um pouco chocados e demoraram um pouco até parecerem perceber que ela estava ali. Seu irmão foi o primeiro a falar, com a voz vaga e um tanto perplexa.
- Hã... Acho melhor nós deixarmos vocês sozinhas. Vamos, Violet...
- Sozinhas? – Gabbie questionou, surpresa quando os dois se levantaram e começaram a ir até a saída – Por que?
- Hum... – Violet parou, incerta – Você já vai entender.
- Vamos estar aqui se precisar conversar mais tarde... – Gustavo coçou o pescoço, tão incerto quanto Violet, enquanto a puxava rapidamente para fora da cozinha.
- Tudo bem. – Gabbie suspirou frustrada, sentando-se à mesa, finalmente a sós com suas mães – Eu quero que alguém me diga o que está acontecendo e não vou sair daqui até que isso aconteça.
Gabrielle e Meredith pareceram parar por um momento, como se estivessem planejando por onde começar. Por fim, Meredith foi aquela que começou, parecendo um tanto quanto desolada.
- Sempre fomos honestas quanto à sua adoção, não é, querida?
- Vocês estão assim por isso? – Gabbie suspirou, aliviada – Os Lennox procuraram você, é isso? Porque se for isso, mãe, não se preocupe. Eu sou uma adulta agora, eles não podem fazer nada. Eles não queriam ter nada a ver conosco antes, então pode deixar claro que não queremos ter nada a ver com eles agora.
- Não é mais tão simples, Gabbie... – Gabrielle parecia nervosa quando trocou um olhar significativo com a esposa.
- Porque? Eles não ameaçaram vocês, não é? – ela lhes perguntou, enraivecida, sua mente já fazendo uma lista de advogados e contatos que ela poderia chamar se aquele fosse o caso.
- Não, não foi assim. – Meredith suspirou tristemente – Lembra do que eu sempre lhe falei sobre sua mãe biológica?
- Ela não é minha mãe. – Gabbie disse suavemente – Vocês são. É uma palavra muito especial para eu falar sobre alguém que deu a própria filha para a tia porque se envergonhava dela.
- Eu também pensava assim. – Meredith engoliu em seco – Foi o que a minha irmã mais velha me contou quando apareceu aqui com você 22 anos atrás. Você só tinha um dia de vida e ela me disse que a filha dela tinha cometido um erro ao engravidar e que não queria um bebê. Eles não queriam um Lennox na fila de adoção, então decidiram que era melhor deixá-la com "a lésbica" que eles mesmos renegaram. – Meredith revirou os olhos com raiva.
- No momento em que vi você, eu sabia que você era minha filha. – Gabrielle sorriu docemente, com lágrimas escorrendo pelos olhos – Você era tão pequena que ainda nem tinha aberto os olhos. Eu me tornei sua mãe naquele dia.
- É claro que sim, mãe. – com a voz trêmula, Gabbie foi se sentar na cadeira vazia ao lado de Gabrielle, para poder abraçá-la – Não importa o que ela tenha dito, você sempre será minha mãe e não ela. Não sou mais uma criança, ela não pode me tirar de vocês.
- Essa não é a questão, Gabbie. – Meredith fungou – A questão é que... Hoje, pouco antes de você voltar do trabalho... Nós descobrimos que o que Alexandra... Minha irmã nos contou... Era mentira. – sua mãe admitiu, derrotada.
- O quê? – Gabbie perguntou, sem entender.
- O mordomo de Alexandra Lennox veio aqui hoje. – Gabrielle explicou enquanto afagava o ombro da esposa, consolando-a – Aparentemente a irmã da sua mãe está muito doente. Ela está em coma induzido agora e a família decidiu começar a leitura do testamento e de seus últimos desejos, já que os médicos acham que ela não terá mais do que um mês de vida.
- Bem, isso é terrível, é claro, ela ainda é sua irmã, mesmo depois de tudo o que ela fez. – Gabbie encolheu os ombros tristemente – Mas... Sobre o que exatamente ela mentiu? A filha dela queria realmente me colocar em um orfanato ou coisa assim? – Gabbie tentou conjecturar.
Meredith e Gabrielle trocaram um olhar triste antes que a primeira voltasse a falar.
- Eu não participei da criação de Mirian. – sua mãe suspirou – Ela m*l tinha completado dois anos quando eu tinha 18 anos e meus irmãos me expulsaram de casa quando descobriram que eu e sua mãe estávamos namorando. Quando Alexandra apareceu aqui 14 anos depois, eu sabia que ela não tinha vindo se desculpar. E bem... Quando ela me contou sobre você... Me pareceu lógico que a filha dela tivesse crescido para ser como a mãe. Quem mais iria querer não ter contato nenhum com o próprio bebê?
Tensa, Gabbie esperou enquanto a mãe se recompunha. Por fim, ela respirou fundo novamente e continuou.
- Nós sempre nos prometemos que seríamos completamente verdadeiras com você e que, um dia, talvez, se ela reaparecesse e quisesse fazer parte da sua vida, nós deixaríamos para você a decisão de aceitá-la ou não. Mas ela nunca apareceu. Então, hoje, quando Antônio... O mordomo da Alexandra apareceu e nos disse... Tudo... Nós perdemos um pouco nosso chão.
Gabbie engoliu em seco antes de falar – Não importa o que ele tenha dito, podem me dizer. Eu nunca vou considerar uma mulher que me abandonou como minha mãe ao invés de vocês. – ela lhes garantiu.
- Essa é questão, filha... – Meredith apertou a mão de Gabrielle com força antes de levantar os olhos para Gabbie e falar novamente – Mirian não abandonou você. Alexandra mentiu para nós e para ela também. Ela achava que você estava morta.
- O... O quê? – Gabbie gaguejou, completamente chocada.
- Aparentemente Alexandra não aprovava o relacionamento de Mirian e seu pai biológico. Quando a filha engravidou, ela a levou para uma casa de campo até que desse a luz... – Gabrielle revelou, seu olhar anormalmente sombrio – Então ela se aproveitou que a própria filha desmaiou por ter perdido muito sangue e levou você. Quando Mirian acordou, ela lhe disse que você havia nascido morta.
- E todos na família Lennox ainda acreditavam nisso... – o olhar perplexo de Gabbie foi atraído para a fala de Meredith – Até que Alexandra ficou doente e Antônio realizou uma de suas últimas vontades: deixar todos da família saberem que você estava viva.
Diante do silêncio que se seguiu, Gabbie não pode fazer nada além de balançar a cabeça desconexamente, perplexa com tudo o que ouvira. Então sua mãe biológica nunca a procurara porque não sabia que ela existia? Durante toda a sua infância, ela havia aprendido a ignorar aquele fato da sua vida. De fato, desde muito cedo, ela nunca pensava na possibilidade de ter outra mãe que não fosse Meredith ou Gabrielle, ou pensar em procurar pessoas tão cruéis quanto a antiga família de sua mãe, os Lennox, que a renegaram apenas por estar apaixonada.
Agora, aquilo... Ela não sabia como se sentir sobre aquela loucura.
- Eu... – ela engasgou, ofegante, sem perceber que havia ficado sem respirar por alguns segundos por conta do choque – Eu não entendo. Por que... Por que agora? Por que contar tudo isso agora? – ela questionou as mães, desnorteada.
- Porque você agora é uma parte da família Lennox e está no testamente de Alexandra. E também porque... Alexandra não contou a verdade apenas para nós. – Meredith balançou a cabeça tristemente – Ela também fez Antônio revelar o que eles fizeram com você à filha dela, Mirian. E agora...
Ela quer conhecer você.