Quando finalmente consigo ir para casa, sinto o peso do dia no corpo. Entro, tiro o relógio, deixo as chaves na mesa e fico alguns segundos parado no meio da sala. O silêncio é raro. Minha cabeça normalmente continua trabalhando mesmo quando tudo ao redor para.
Vou até a cozinha e abro a geladeira, pego comida e paro.
Lembro da mensagem dela.
"Você anda comendo muito mal."
Solto uma risada baixa.
— Olha só onde eu cheguei...
Uma desconhecida de dois anos atrás mandando eu comer direito.
Mesmo assim, coloco a comida no prato e sento. Pela primeira vez em dias, almoço sem pressa.
Quando termino, fico alguns segundos olhando para o prato vazio. Parece uma coisa pequena, mas eu percebo que tinha esquecido como era fazer algo simples sem estar pensando em mil problemas ao mesmo tempo.
Pego o celular.
Nada.
Guardo novamente.
Alguns minutos passam até o aparelho vibrar.
Olho para a tela.
Número desconhecido.
Meu primeiro pensamento é ela. E isso me incomoda mais do que deveria.
Abro a conversa.
Desconhecida:
Obrigada.
Fico olhando para a mensagem.
Eu:
Pelo quê?
A resposta chega poucos segundos depois.
Desconhecida:
Por ter almoçado.
Meu olhar vai até a mesa.
Depois volta para o celular.
Eu:
Como tu sabe?
Ela visualiza.
Demora.
Desconhecida:
Eu não sei de tudo.
Só presto atenção.
Passo a mão no rosto.
Essa mulher consegue me deixar sem resposta.
Eu:
Isso continua sendo estranho.
Ela responde quase na mesma hora.
Desconhecida:
Eu sei.
Mas você continua respondendo.
Fico encarando aquela frase por alguns segundos. Porque ela tem razão e eu odeio quando alguém tem razão.
Fico alguns segundos olhando para aquela última mensagem.
"Mas você continua respondendo."
O pior é que ela não está errada.
Se fosse qualquer outra pessoa, eu já teria bloqueado. Se fosse alguém tentando conseguir alguma coisa de mim, eu teria percebido rápido. Eu sei reconhecer interesse, mentira e manipulação. Convivo com isso todos os dias.
Mas ela é diferente e talvez seja justamente isso que mais me incomoda. Ela não pede nada, não pergunta sobre dinheiro. Não tenta se aproximar por vantagem, não quer saber de poder.
Ela só aparece e observa.
Pego o celular novamente.
Eu:
Tu sabe que isso ainda é muito estranho, né?
A resposta demora um pouco mais dessa vez.
Desconhecida:
Eu sei.
Eu:
Então por que continua?
Alguns segundos passam.
Aparece que ela está digitando.
Para.
Digita novamente.
Até que chega.
Desconhecida:
Porque, mesmo achando estranho, você nunca pediu para eu parar.
Fico olhando para a tela.
Não sei por que aquela resposta me incomoda tanto. Talvez porque seja verdade, no começo eu ignorava porque não queria dar espaço.
Depois comecei a responder porque queria entender.
Agora...Agora eu já nem sei mais.
Eu:
Tu tem noção de que qualquer pessoa acharia isso uma loucura?
Ela responde.
Desconhecida:
Tenho.
Eu:
Dois anos mandando mensagem para alguém que nunca respondeu.
Desconhecida:
Sim.
Eu:
Alguém que tu nunca viu de verdade.
Demora.
Desconhecida:
Eu vi o suficiente.
Franzo a testa.
Eu:
O suficiente para quê?
Ela demora alguns segundos.
Desconhecida:
Para saber que você não é exatamente aquilo que as pessoas dizem.
Fico parado.
Essa frase mexe comigo mais do que eu gostaria. Porque existe uma coisa que poucas pessoas entendem, quando você ocupa o lugar que eu ocupo, ninguém quer saber quem você é.
As pessoas enxergam o que precisam enxergar. Alguns veem medo, outros veem poder, outros veem alguém que precisa ser derrubado. Mas quase ninguém pergunta se existe uma pessoa por trás disso.
Eu:
Tu não me conhece.
Desconhecida:
Talvez não.
Eu:
Então como pode dizer isso?
Ela responde rápido.
Desconhecida:
Porque eu presto atenção.
Fico em silêncio, olho para a sala vazia.
Pela primeira vez em muito tempo, não tenho uma resposta pronta.
Eu:
Tu acha que sabe quem eu sou?
Desconhecida:
Não.
Desconhecida:
Eu acho que você esqueceu quem é.
Aperto o celular na mão.
Essa mulher tem um jeito irritante de falar coisas que eu não quero ouvir.
Eu:
Tu sempre fala assim?
Desconhecida:
Assim como?
Eu:
Como se soubesse mais do que eu.
Ela demora.
Desconhecida:
Não sei mais do que você.
Desconhecida:
Só consigo enxergar de fora.
Fico olhando para aquela frase.
De fora, talvez esse seja o problema. Todo mundo que está perto de mim precisa de alguma coisa.
Uma ordem, uma resposta, uma decisão. Ela não! Ela só observa.
Eu:
Tu acha que minha vida é fácil?
A pergunta sai antes que eu consiga pensar.
Assim que envio, me arrependo.
Não costumo falar sobre isso.
Não com ninguém.
Ela demora um pouco para responder.
Desconhecida:
Não.
Desconhecida:
Eu acho que você carrega mais do que mostra.
Meu maxilar trava.
Porque ela acertou.
Eu:
Faz parte.
Ela responde quase imediatamente.
Desconhecida:
Não.
Desconhecida:
Você só acredita que faz.
Levanto da cadeira e caminho pela sala.
É estranho conversar com alguém que eu nem conheço e sentir que, de alguma forma, ela consegue atravessar uma barreira que muita gente próxima nunca conseguiu.
Eu:
Se eu erro, muita gente paga.
A resposta demora.
Dessa vez, eu sei que ela está pensando.
Desconhecida:
Eu sei.
Desconhecida:
Mas você também é alguém.
Paro de andar, leio novamente. Também sou alguém. Parece uma frase simples.
Mas eu não lembro a última vez que alguém falou comigo desse jeito. Sem medo, sem interesse, sem esperar nada em troca.
Eu:
Tu fala como se fosse fácil.
Desconhecida:
Não é fácil.
Desconhecida:
Só é necessário.
Fico alguns segundos sem responder. O silêncio da casa parece maior. Lá fora, ainda consigo ouvir o barulho da comunidade.
Carros passando, pessoas conversando. A vida acontecendo. E eu ali, parado, conversando com uma pessoa que nem sei o nome.
Eu:
Tu não acha que deveria parar?
A pergunta fica na tela.
Ela visualiza.
Dessa vez demora bastante.
Quando responde, é diferente.
Desconhecida:
Se você realmente quisesse que eu parasse...
Desconhecida:
Já teria parado de responder.
Fico olhando para aquilo.
Porque ela sabe.
Eu odeio admitir.
Mas ela sabe.
Antes que eu consiga responder, chega outra mensagem.
Desconhecida:
Promete uma coisa?
Fico desconfiado.
Eu:
Depende.
Ela demora alguns segundos.
Desconhecida:
Quando você sentir que está cansado...
Desconhecida:
Descansa.
Solto uma risada baixa.
Eu:
Tu acha que isso existe?
A resposta vem quase imediatamente.
Desconhecida:
Enquanto você continuar acreditando que precisa ser forte o tempo todo...
Desconhecida:
Vai esquecer que também é humano.
Fico olhando para a tela.
Não respondo.
Pela primeira vez em muito tempo, não tenho vontade de discutir.
Nem de provar que ela está errada. Só fico ali, com aquela frase presa na cabeça. Porque talvez o mais assustador não seja alguém descobrir meus segredos. Talvez seja alguém perceber aquilo que eu tento esconder até de mim mesmo.
Que por trás do nome, do respeito, do medo que muitos sentem. Ainda existe um homem.
E eu não sei se gosto da ideia de alguém ter enxergado isso.