Ludmilla
Corro o máximo que meus pulmões debilitados permitem, cada respiração é uma luta, mas não paro. Preciso aumentar a distância entre mim e Sebastian. Minha mente está um caos, e o coração bate descompassado. Eu sabia que morreria se continuasse naquela casa. Sebastian tem prazer em humilhar e torturar; vi nos olhos dele a satisfação sádica em me causar dor.
De repente, sinto o cinto se apertar em volta do meu pescoço mais uma vez. A mente se desfaz em fumaça, e eu mergulho em uma escuridão sem fim.
— Sebastian... Sebastian...
Meu corpo dolorido arde em chamas, sinto algo gelado tocar minha pele e luto com as forças que me restam, enquanto braços fortes tentam me conter.
— Ludmilla, acalme-se, você está segura comigo. — A voz é firme, ainda assim me parece tão distante.
— Sebastian, me deixa ir... — imploro, ainda meio desorientada.
— Sou eu, o Filipe. Abra os olhos, está tudo bem, olha para mim!
Abro os olhos lentamente, tentando reconhecer o ambiente ao redor.
— Onde estamos? — pergunto, assustada.
— Em um lugar onde ninguém mais vai te machucar. — Filipe responde, sua voz suave tentando me tranquilizar.
— Como você me encontrou? Sebastian... ele é terrível. — Minha voz falha, lembrando de cada momento de terror que vivi.
— Te encontrei caída na rua, embaixo de uma tempestade. Não sei por quanto tempo você ficou lá, estava encharcada e febril quando te trouxe para cá. Não posso te levar a um hospital, tem muita gente atrás de você, inclusive os homens do Sebastian. Tome este remédio, vai te ajudar a se sentir melhor. — Filipe estende um comprimido e um copo d'água.
— Obrigada, Filipe. — digo, com sinceridade.
— Não me agradeça, eu devia ter matado Sebastian quando tive a chance. O mundo seria melhor sem ele. — Filipe fala com raiva contida. — Agora me conta tudo. Ele descobriu que você não é a Camilla? Você contou a verdade para ele?
Minha mente está confusa, uma bagunça de memórias embaralhadas. Lembro-me do jantar, da minha primeira vez, dos toques de Sebastian que me faziam perder o controle. E depois, do momento em que ele me prendeu, seu hálito quente de menta e whisky enquanto me estrangulava impiedosamente. Um calafrio percorre meu corpo.
— Milla, olha pra mim! Ele não está aqui, não pode te tocar mais. Eu vou matá-lo! — Filipe declara com firmeza.
— Não quero que você o mate. Eu só quero voltar para o meu país, para a minha família, e esquecer que tudo isso aconteceu.
— Você não pode voltar! — Filipe responde, sério. — A verdadeira Camilla pode estar viva e é ainda mais perigosa que o próprio Sebastian. Desde que comecei a trabalhar para ele, eu investigava Camilla. Por isso soube que você não era ela no instante em que a capturamos. A verdadeira Camilla jamais se deixaria ser pega tão facilmente. Ela traía todos ao seu redor, manipulava outras famílias mafiosas, jogava umas contra as outras enquanto roubava tudo. E quando a situação se complicou, ela desapareceu.
— Você é policial? Como sabe tudo isso? — pergunto, desconfiada.
— Sou amigo de um bom policial. Achamos que foi a Camilla quem te atraiu para a Itália, e se for verdade, ela tem um plano para você. Ameaçamos expor sua verdadeira identidade para ver se ela saía da toca. — Filipe revela, seu tom pesado.
— VOCÊS O QUÊ? — explodi, o sangue fervendo. — Contaram para o Sebastian que eu não sou a Camilla? SEU FILHO DA p**a! VOCÊ QUASE ME MATOU!
— Não exatamente. Só demos um empurrãozinho para que você contasse. Achamos que, se você falasse a verdade, teríamos tempo de te resgatar. E foi o que fiz, te procurei até te encontrar. — Filipe explica, tentando se justificar.
Estapeio o rosto de Filipe, furiosa.
— Você tem ideia de que eu podia ter morrido? Ele me enforcou várias vezes, apontou uma arma para mim! Como você teve coragem?
— Ele sabe ou não que você não é a Camilla? — Filipe pergunta, ignorando a dor da bofetada.
— Não. Ele só falava sobre traição, sobre eu ter passado informações para a polícia. — respondi, tentando controlar a respiração.
— Faz sentido... — Filipe murmurou, pensativo.
— Ao que tudo indica, é você o espião! — acuso, sentindo uma onda de paranoia.
— Não sou eu. Mas você precisa entender que, se Camilla estiver viva, ela é mais perigosa que todos nós juntos. Ela deve ser detida.
— ESSA MULHER ESTÁ MORTA! — grito, desesperada.
O toque de um telefone interrompe a discussão. Filipe atende e, após alguns instantes, coloca no viva voz.
— Eu sei que você está com a minha esposa. Devolva-a! — a voz de Sebastian ecoa pelo ambiente.
— Eu não a roubei de você, chefe. Ela só não quer voltar para casa. — Filipe responde, desafiador.
— Coisa de casal, Filipe. Você entenderia se tivesse uma esposa. — Sebastian rebate, com um tom de desprezo.
— E o que você quer que eu faça, chefe? Que a leve de volta contra a vontade? Ouvi dizer que ela andou falando com a polícia. Isso não é bom para os negócios, devo me preocupar?
— Se você encostar em um fio de cabelo dela, eu te mato! — Sebastian rosna, sua raiva transparecendo na voz.
— Chefe, eu posso acabar preso por causa dela. Isso me deixa desconfortável, entende? Talvez seja melhor eliminar o problema...
— Eu lido com Camilla. Me mande o endereço para buscá-la. E, Filipe, não me desafie ou eu te mato. — Sebastian encerra a ligação.
— Você é louco? Incitando ele a me matar! — acuso Filipe, sem acreditar no que acabara de ouvir.
— Ele ainda acha que você é a Camilla. Se soubesse a verdade, teria me deixado eliminá-la. — Filipe responde, sério.
— Já pensou que, se ele soubesse que eu não sou Camilla, ele não me mataria? Talvez ele goste de mim... da Ludmilla, assim como gostou da Camilla.
Filipe ri, mas seus olhos mostram preocupação.
— Por que você pensa isso? — ele pergunta.
— Nós... fizemos amor. — respondo, envergonhada.
— p***a! — Filipe esbraveja. — É uma pena, porque eu vou encontrá-lo agora. Ache outro amante!
Em uma construção abandonada nas proximidades...
— Filipe! — chamei, alcançando-o ofegante.
— Por que me seguiu, Milla? É perigoso. — Filipe me repreendeu, os olhos alertas.
— Está cheio de homens do Sebastian aqui. Você não sairá vivo... Me entregue para ele. — imploro, desesperada.
— Não, eu vou matá-lo! Camilla e Sebastian são um câncer. Eles destroem tudo o que tocam. Você merece uma vida melhor. — Filipe insiste.
O telefone de Filipe vibra, entregando nossa posição. O som ecoa pela construção vazia.
— VOCÊ NÃO APRENDEU NADA COMIGO, FILIPE! — A voz de Sebastian ecoa pelo local, carregada de fúria.
Filipe atende, e a expressão em seu rosto fica pálida como cera.
— Tenho uma saída, mas não posso levar você comigo. Não conseguirei te proteger. Procure o Delegado Rocha quando puder, ele te ajudará. E Milla... espero que o que você e Sebastian tiveram seja o suficiente para que ele te poupe. Caso não seja... mate-o. — Filipe me entrega sua arma e corre em direção aos homens de Sebastian.
— NÃO! — grito, mas é tarde demais. Uma explosão ensurdecedora abala toda a estrutura. Sou arremessada para longe, batendo forte contra uma parede.
O cheiro de fumaça, menta e whisky inunda meus sentidos. Ouço uma voz que me tira do torpor.
— Vou te tirar daqui. Este lugar vai desmoronar. Você está bem? Consegue caminhar? — Sebastian me segura com firmeza, seus olhos preocupados.
— Não consigo apoiar o pé. — respondo, ainda atordoada. — Você ainda quer me matar? Facilitaria muito me largar aqui.
— Eu jamais te machucaria se soubesse que você não era ela. Depois que eu te tirar daqui, espero que você tenha um coração melhor do que o meu e que consiga me perdoar, porque eu nunca vou me perdoar pelo que te fiz. — Sebastian fala com uma sinceridade que me desarma.
Eu sorrio, deixando que ele me carregue, sabendo que talvez, só talvez, algo dentro dele também tenha mudado.