Os atos que determinaram a vida dela.
Viro-me na cama enquanto meus pensamentos reproduzem com perfeição a voz e a covardia de Billy Andrews, levanto-me um tanto desnorteada caminho até o quarto de Jerry, abro suavemente a porta e o observo tomado por um sono pesado, sua boca está sutilmente aberta e quando me aproximo consigo escutar seu ronco fraco mas cheio de cansaço. Procuro por seu celular e não o encontro — onde Jerry colocou o celular? — falo baixinho enquanto remexo em suas coisas.
— Anne? — ele diz abrindo os olhos com dificuldade.
— Sou eu Jerry — falo também com dificuldade pois qualquer esforço meu faz com que meu nariz doa.
— O que faz aqui?
— Preciso do seu celular... — peço — eu preciso fazer uma página anônima.
Ele levanta, acende a luz e consigo ver seu pijama infantil e inteiramente constrangedor para um garoto daquele tamanho.
— O que Diana diria sobre isso em? — caçoo do samba canção poá.
— Você invadiu o meu quarto — ele diz — o que Gilbert acharia do seu?
Observo meu pijama do Bob esponja.
— Segredo — lhe ofereço o mindinho, no mesmo instante realizamos o ritual de segredo guardado e levado para o túmulo.
— Diga-me a verdade primeiro — ele me encara com seus olhos negros — eu sei que você não caiu Anne.
— Prometa-me que isso ficará entre nós — digo — por favor.
— Quer fazer o ritual do mindinho novamente? — ele debocha.
— Se necessário — respondo com a mesma entonação — todos nós sabemos que não se pode quebrar o ritual do dedinho.
Novamente os dedinhos de juntam.
— Agora confia em mim para dizer o que realmente aconteceu?
— Billy Andrews fez isso.
Jerry se levanta irado pronunciando palavras em francês, certamente palavrões.
— putain de salaud — ele grita.
— Quieto Jerry, Marilla e Matthew virão até nós.
— O que mais ele disse?
— Que sabia o que eu estava fazendo na casa do Blythe. O que você disse em francês? — pergunto curiosa.
— O que você ouviu?
— Putain de salaud.
— Desgraçado maldito — ele diz — Anne, porque não contou a verdade?
— Não posso mexer com ele Jerry — falo — ele é terrivelmente m*****o.
— Ele é um covarde! — Jerry fala com indignação — Anne ele não faz isso quando você está comigo, ou com Gilbert, ele faz quando você está sozinha! Tem noção do quanto isso é grave?
Assinto. E ele me abraça.
— Sinto muito — ele diz — mas amanhã darei o troco.
— Eu entendo que você é um garoto crescido — digo olhando a estatura alta de Jerry — mas não pode cobrar nada pois você não estava lá. Mas pense comigo, eu posso me vingar escrevendo algo sobre ele e postando na internet.
— Ele saberia que foi você.
— É, ele saberia — digo desesperançosa — e agora?
— Vamos esperar, em breve você poderá se vingar dele, só não ande por aí sozinha — ele diz — por favor.
— Você é o irmão que eu nunca tive Jerry! — brinco.
— Eu também a considero uma irmã Anne — ele se deita — agora vá descansar amanhã temos aula.
— Está certo — eu digo — boa noite Jerry.
— Boa noite Anne.
. . .
A noite foi carregada de lembranças ruins e pensamentos negativos, fazia tempo que essa sensação não me atormentava. A cada som do vento em minha janela, fazia-me pensar desesperadamente que Billy Andrews invadiria o meu quarto para surrar-me mais uma vez. O relógio despertou as seis em ponto, e quando levantei e me olhei no espelho, vi o resultado da noite passada, um nariz inchado com resquícios de sangue em seu orifício. Respiro pela boca, e em segundos solto o ar com força. Eu não entendia o motivo de tanta falta de apreço por mim, já que eu nunca fiz nada diretamente para aquele garoto, quem surrou ele foi Gilbert, não eu.
— Anne? — Marilla entra no quarto em me encara — que nariz h******l! Vamos ao médico. — ela diz enquanto ergue meu queixo para olhar o machucado — ainda sangra, devemos ir para saber se não é nada grave — ela diz.
Movimento a cabeça em concordância enquanto me visto para ir ao médico.
— O que realmente aconteceu Anne? — ela pergunta.
— Depois que sai do parque, fui até a mansão de Gilbert para me desculpar por tê-lo tratado com arrogância — digo — e eu fiquei tão chateada que ele foi embora que não me lembrei de olhar para o chão ao caminhar, na verdade nem me lembrei de caminhar, eu estava tão cheia de tristeza que enrolei minhas próprias pernas e acabei caindo de cara no chão.
Ela me olha desconfiada.
— Sorte que as ruas de Springdale são limpas não é mesmo? — encaro-a — imagine só eu cair em um montante de...
— Poupe-me dos detalhes Anne — ela interrompe — se arrume e desça para ver se consegue comer algo.
Desço para o café da manhã, Matthew fuma seu charuto enquanto lê o jornal; ajudo Marilla a organizar a mesa, e logo Jerry se junta a nós, trocamos olhares significativos para nós, mas normal para os outros. Era como se falássemos — lembre-se é um segredo.
— Jerry terá que ir para a aula sozinho hoje, Anne irá ao médico e depois a deixaremos aqui para fazer compras.
O garoto somente concorda.
— Você continua distraída — Matthew sorri — se lembra de quando deixou a torta queimar? — ele gargalha — Marilla ficou furiosa!
Marilla o encara surpresa com a brincadeira.
— Sabemos que Anne estava distraída — ela sorri — e eu tinha quase certeza de que ela não seria mais.
Ergo os ombros como resposta, eu nunca deixaria de ser distraída em toda a minha existência.
— Vou pedir à Deus em minhas preces que me dê um pouco mais de atenção — tento sorrir e o nariz lateja — quem sabe isso não aconteça novamente — aponto para o mesmo, sobretudo sabendo que a culpa jamais seria minha por um possível nariz estragado.
— Tenho que ir — Jerry se levanta — até mais.
— Até — respondemos em coro.
. . .
O hospital tinha o mesmo cheiro de antes, só que agora a imagem de Gilbert fazia parte da minha memória, revivi o dia em que ele descobriu que o seu pai jamais voltaria, e automaticamente revivi a dor de saber que possivelmente Gilbert também jamais voltaria.
Meu coração estava tão preocupado em se culpar a cerca de tudo que havia feito ao garoto, que até me esqueci o verdadeiro motivo de estar sentada naquela cadeira dura e desconfortável.
— Anne Shirley-Cuthbert — a voz soou no corredor.
Entrei na sala junto com Marilla, e o médico levantou de imediato assim que viu meu nariz machucado.
— Vejamos — ele ergueu meu queixo — quem fez isso com você?
— Foi o chão, doutor.
— Foi um impacto e tanto — ele brincou — parece até que sua cabeça foi empurrada além da gravidade — sua voz é seria.
Tento me concentrar em minha mentira, mas como mentir para um médico que vê com perfeição o nosso problema? Eu não sei.
— Foi uma queda e tanto — respondo.
Após examinar e descobrir o meu problema, o médico receita um analgésico e me dá o diagnóstico de micro trauma, sem muito acometimento, me sinto aliviada e ainda mais amedrontada, se Billy me encontrar sozinha novamente o que fará? Ele coloca um curativo na parte onde raspou devido ao chão áspero. E me encara enquanto coloca as mãos em meus ombros, antes de me dispensar ele diz:
— Tome mais cuidado mocinha.
. . .
Amanhã mesmo eu poderia ir para o colégio, o que eu não sei se é bom ou r**m, talvez se Billy venha tirar minha paz novamente, eu lhe dê um belo chute igual fiz com Gilbert. Analiso a Green Tree, no entanto, meus pensamentos seguem a todo vapor em relação ao garoto o qual eu havia beijado ontem, e no mesmo dia havia o expulsado e o acusado. O que será que ele está pensando de mim? Espero ansiosamente que o sentimento o qual está o rodeando agora, não seja a raiva, muito menos o desprezo.
— Gracioso Pai celestial — olho para o céu — por favor, envie a Gilbert Blythe o meu profundo arrependimento por ter sido tão injusta, espero que ele sinta em seu coração o perdão, tão intensamente quanto eu senti o arrependimento.
Ouço o som da caminhonete e desço correndo as escadas para ajudar Marilla e Matthew com as compras, os dois descem do carro somente com uma pequena sacola personalizada.
Encaro-os e eles entram e sentam no sofá fofo da sala. Os dois trocam olhares e logo eu me sento com eles.
— Anne — diz Matthew — achamos que está na hora de você ter isso.
Eles me entregam a sacola e vejo uma pequena caixa branca com uma maçã mordida desenhada em seu centro.
— Um iPhone? — eu grito entusiasmada.
— Disseram que era de última geração, achamos que agora você irá precisar bastante disso.
Levanto-me pulando alegremente enquanto agarro a caixa com os dois braços.
— Abra! — Marilla diz.
Abro a caixa e lá está um lindo celular vermelho.
— Eu amei! — digo — muito muito muito obrigada.
— Isso é para que você possa nos ligar quando estiver em apuros.
— E possa conversar com seus amigos mesmo que estejam longe.
Sorrio e os abraço.
— Vocês são os melhores pais que eu já tive.
Eles sorriem um para o outro, e eu subo ansiosamente para o meu quarto para aproveitar meu presente. Sento em minha cama, encaro o aparelho lindo e desenhado com perfeição.
— Certo, agora eu só preciso ligar — digo ainda encarando o eletrônico.
Aperto um botão e ele acende, é tudo tão mágico que m*l consigo me conter de felicidade. Sigo as instruções para fazer a configuração, e logo crio minha página no i********:, agora eu só preciso encontrá-lo. Pesquiso por Gilbert Blythe, e aparece uma conta privada, na foto do perfil ele estava tão radiante, que tive uma única certeza, isso foi antes de seu pai morrer.
Clico para seguir e aparece "solicitado". Respiro fundo, esquecendo do meu nariz pré quebrado, a dor irradia e dou um grito baixo para que ninguém escutasse. Meu corpo estava tenso, e eu esperava ansiosamente a comprovação de que Gilbert, tinha permitido que eu o seguisse.
...
Até o final do dia, ele não autorizou.