Capítulo onze.

1718 Palavras
A ansiedade dolorida da Esperança em vão. As mãos de Gilbert deslizavam sob minhas costas encharcadas enquanto eu enlaçava minhas mãos em seu pescoço quente. Sentia meu coração pulsar a cada toque mais intenso, era como se aquele beijo começasse a me encher e quando ele tirava os lábios dos meus, eu ficasse vazia de novo. Não sabia se sentir aquilo era normal, afinal, eu nunca havia beijado ninguém antes. Quando finalmente nos soltamos, ele me olhou com aquele olhar quente e cheio de ímpeto, e seu sorriso se abria toda vez que os nossos olhos se cruzavam. Ele puxou minha mão para perto e beijou o dorso, senti meu corpo em combustão, eu não sabia que Gilbert Blythe surtiria esse efeito em mim, eu nem sequer cogitei, que um dia nos beijariamos com tanto afeto. Agora eu o encarava, não porque não havia gostado, não porque estava arrependida, sim porque estava confusa demais com tudo que estava sentindo. — Há algo errado? — ele me encara. — Não, não há nada de errado Gilbert — solto de imediato. — Não gostou do beijo? — suas sobrancelhas se juntam. — Eu amei o beijo — digo — e se pudesse faria novamente — confesso. — O que a impede? Meus pensamentos me direcionam para Ruby, e sua paixão incontrolável por Gilbert. Por um segundo, me arrependo do que tinha feito, e quando ele se inclina para começar mais um beijo, eu dou um passo para trás impedindo-o. — Eu não deveria — digo — você sabe bem o porque. Ele cruza os braços e encosta no tronco da árvore. A chuva começa a cessar, mesmo assim, não estávamos nenhum pouco dispostos a sair de lá, o assunto estava bom, os olhares estavam bons e o beijo, M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O. — Eu não gosto da Ruby — ele diz, sem nenhum aviso prévio — digo, não como algo a mais. — Como sabe que falo dela? — É uma de suas únicas amigas, você está sempre com ela e ela me beijou no dia do enterro de meu pai — ele diz com tanta insignificância, que me sinto m*l. Um nó se forma em minha garganta, impedindo-me de respirar. — Anne você está bem? — ele coloca a mão em minhas costas. — Quando estou nervosa tenho falta de ar — digo — mas não é nada grave. Ele se aproxima e joga uma mecha do meu cabelo para trás. — Você foi a única pessoa que me interessou até agora. — Por favor, você tem um estádio de garotas atrás de você — falo sem pensar — eu sou a mais f**a. Ele gargalha e movimenta a cabeça em um não. — Não seja tola. Você é linda, muito linda. — sua voz é doce e cheia de verdade — e inteligente. — ele pisca. Um choque elétrico percorre minha espinha, tremo em resultado e ele torna a me abraçar. Sentir remorso ou não? Eu simplesmente não tenho ideia do que sentir, é como se, tudo em minha volta desaparecesse e só me restasse Gilbert — e que resto bom — me iludo mentalmente. — Não sei se sou capaz de olhá-la nos olhos novamente depois disso — solto arrependida. Ergo os olhos e encaro o queixo perfeito de Gilbert, desejando ainda mais seus lábios macios e fervorosos. — Terá tempo para pensar — ele me olha — preciso lhe dizer algo. Respiro fundo, olho para o céu que já está clareando, a chuva fora embora, e trouxe o sol e um lindo arco-íris, parecia a cena premeditada de um filme com romances trágicos. — Eu vou embora Anne. Assim? Sem mais nem menos? Depois de me beijar? Depois de dizer claramente que tinha interesse em mim? — Como assim você irá embora? — me desvencilho dele e o encaro de longe. — A casa é grande demais para mim, eu não consigo ficar lá sem olhar para cada cômodo e me lembrar de meu pai. Preciso desse momento. — No meio do ano letivo? — Meus estudos estão avançados — ele diz — se eu voltar, conseguirei ir para a série correta. Fora isso Anne, posso ter aulas online. — Eu sempre soube — o encaro, não era a primeira vez que eu me sentia abandonada, a dor já não era tão intensa quanto antes, mas, ainda sim, doía. — O que? — sua voz ainda é suave. — Que você era um egoísta! — grito — você me usou. Diga, onde estão as câmeras da pegadinha? — Câmeras? — ele diz confuso — você é louca! — Você é um aproveitador! — o empurro quando ele tenta chegar perto de mim. — Anne — ele diz. — Espero que as câmeras peguem isso também — digo enquanto lhe dou um chute na canela — nunca mais se aproxime de mim Gilbert Blythe! Saio correndo e o deixo para trás. . . . — Você lhe deu um chute? — Diana pergunta perplexa — em Gilbert Blythe? Movimento a cabeça com pesar. — Pensei que era uma armadilha para causar confusões entre mim e Ruby — respondo — eu nunca pude confiar em ninguém, entende? Diana me olha com pena. — Não me olhe assim — falo — eu sempre consegui me defender devidamente. — Não tenho dúvidas quanto a isso — ela responde — talvez devesse ir até lá se desculpar. — Ele jamais irá me perdoar. — Ele é um garoto de coração puro, é o que acho — Diana diz — ele saiu aos socos com Billy por você Anne. Todos viram. — Foi tudo real — sinto minha ficha cair — ele realmente se interessou por mim. — Deve ir até ele. Vá agora. — Obrigada Diana por me ajudar. — Vá Anne, vá — ela diz abrindo a porta de sua casa. Mando-lhe um beijo e vou rumo a casa de Gilbert. Meus pés doem, não pensei que depois de um dia tão agitado eu estaria a noite caminhando sozinha, prestes a chegar na casa de Gilbert Blythe para lhe dizer que estava arrependida. — Olá boa noite — digo ao porteiro — Gostaria de ver Gilbert Blythe — falo. — Sinto muito senhorita, o Sr. Blythe saiu a pouco para uma viagem. — Ele já saiu? — pergunto. — Sim, ele já foi. Novamente o ar me falta, o coração acelera descompassadamente, minhas mãos tremem. — Tem algum telefone para contato? — Ele disse que não passaria o telefone a ninguém, pois já não tinha nada a perder. Mas que continuaria nos pagando todos os meses para mantermos a casa. — Qual é o problema dele? — grito. — O luto — o porteiro responde. Sinto meus pensamentos entrarem em guerra. Glrito comigo várias vezes mentalmente, palavras ofensivas para saber se meu remorso era contido. Mas não. Ele m*l perdeu o pai, e foi insultado quando a única pessoa que procurou para apaziguar sua dor, fui eu. Me despeço do porteiro, e sigo o rumo de volta para casa, com passos lentos e expressão de derrota. Gilbert Blythe foi embora e talvez, eu nunca mais o verei de novo. — Au au au — ouço ao longe. Olho para trás enquanto o pavor se apossa de meu corpo. Começo a correr mas é em vão, em poucos segundos Billy Andrews está perto de mim. — c****a — ele late — vira-lata. Lembro-me de palavras como essa no orfanato. E meus pés travam a ponto de eu não conseguir sequer andar. — Vamos — ele diz — onde está o seu protetor para protegê-la agora? Cachorra. Sinto o ar quente em meu ouvido e viro-me para ele. — Não ouse tocar suas mãos sujas em mim — ameaço. Billy gargalha e se aproxima, puxando-me pelos cabelos. — Sei bem o que fazia na casa de Gilbert — ele diz com indecência. — Solte-me Billy — peço enquanto ele puxa meus cabelos — por favor — imploro. — Beije meus pés — ele manda — vamos cadelinha. — Por favor — insisto — por favor. Meu rosto já estava quase tocando seus pés, ele me empurra com tanta força que acaba batendo meu nariz contra o chão. No mesmo segundo, sinto alguém chegar por detrás dele e o puxar para trás, em segundos dois corpos estão em guerra, lutando em minha frente. Billy se levanta e corre e o garoto alto, com cabelos loiros e olhos claros me encara. — Seu nariz está sangrando — ele diz — pegue esse lenço. Sinto-me um tanto desnorteada devido ao impacto do nariz. — O que estava acontecendo? — Eu não sei — digo chorando — eu estou com medo. Eu nunca conseguira pronunciar aquelas palavras em voz alta, apesar do medo estar comigo em todos os lugares. — Eu quero ir pra casa — digo. — Acalme-se — ele diz — venha, eu vou lhe ajudar, minha tutora mora logo ali — ele aponta para a grande casa luxuosa. O encaro um tanto receosa, quando avisto a senhora de semblante amargurado e passos facilitados por uma bengala. — Oh céus o que aconteceu aqui? — Eu cai — respondo antes do garoto falar e ele me olha de soslaio, entregando minha mentira. — Venha, vamos ligar para alguém. Após tomar um banho, limpar o nariz cheio de sangue e colocar um pouco de gelo no mesmo para que o sangramento cesse de vez, vou para a sala e me sento frente a senhora que me interroga. — Não tem telefone? — ela pergunta com um pouco de deboche. — Nós nos mudamos para cá faz pouco tempo — respondo — viemos do interior. A senhora encara o garoto que remexe em uma lista telefônica. — Procure por Barry — digo — minha melhor amiga mora em frente a minha casa, poderia avisar meus pais. No mesmo instante os dois sentados a minha frente trocam olhares significativos. — Você conhece minha sobrinha Diana? Meus olhos se enchem de alegria, Diana havia comentado apenas uma vez sobre sua tia, no dia em que viemos visitar Gilbert; pois passamos por perto para chegar até lá. — Sim, que sorte a minha não é mesmo? — falo — poderia estar morta nesse momento. A senhora manda o mordomo ligar para os Barrys e em segundos vem a aliviadora notícia, eles estavam a caminho. Demorou minutos para que o Sr. Barry junto com Marilla e Matthew chegassem. — Anne Shirley-Cuthbert — Marilla diz — quase matou-me de susto, o que houve com seu nariz? — Eu tropecei e acabei caindo — falo e novamente o garoto me encara. — Graças a Deus está bem! Se despeça e agradeça, e vamos já! Concordo. — Obrigada pela paciência em ouvir-me falar tanto — falo para a senhora — até breve senhora Barry. — Me chame de Josephine — ela diz — adorei conhecê-la, você me lembra alguém muito especial. — ela diz um pouco mais amolecida. — Obrigada por não contar a verdade a ninguém — digo baixinho para o garoto — a propósito, eu sou Anne com E. — É um prazer Anne — ele sorri — eu sou Cole. . . .
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