Capítulo treze.

1521 Palavras
Eu me recuso a qualquer conclusão definitiva. Minha aparência já não estava das boas, e após uma longa noite de insônia seria impossível estar. Parte da noite — se não foi ela inteira — fiquei acordada me revirando enquanto esperava ansiosamente a notificação me avisando que Gilbert havia aceitado minha solicitação para segui-lo, mas não. Consegui pegar no sono às 5h30, mas logo fui acordada pelo som do despertador que invadiu meus ouvidos como um grito afiado, e minha cabeça, latejava devido ao susto. Levanto e quase caio para trás quando minha imagem é refletida no espelho, olhos fundos, nariz ainda inchado, cabelos desidratados e sem vida. — Eu não sei por onde começar — falo para mim mesma enquanto encaro-me. O celular vibra e corro para olhá-lo e não, não é a confirmação esperada, mas Diana está me enviando um direct. "Eu disse que não demoraria muito para que ganhasse um celular". Sorrio e logo respondo: "Parece que você é uma vidente" Deixo o celular na penteadeira e falo em voz alta: — Vamos começar por você, cabelo sem vida. Entro no banheiro e tomo um banho, considerado o banho dos justos, eu merecia muito após a noite horrenda que tive. Passo meus cremes e assim que termino procuro uma roupa em meu armário, observo o céu, carregado por uma nuvem cinza e um vento sutil, mesmo assim capaz de movimentar os galhos esverdeados da Green Tree, visto uma calça jeans, blusinha de manga longa e um tênis. Penteio os cabelos agora ressuscitados, troco o curativo do nariz e passo uma maquiagem para cobrir as olheiras e disfarçar o meu cansaço. Olho para o relógio, 7h00. Pego minha mochila e assim que chego no meio da escada me lembro que, esqueci meu celular, eu não estou acostumada a pegar nada além do meu material, retorno e pego o aparelho. Assim que clico para desbloquea-lo vejo a notificação com o logotipo do i********:. Fico estática, um tanto nervosa por imaginar que provavelmente seria Gilbert aceitando o meu pedido. Afinal, fora Diana e Ruby, que já tinham aceitado só faltava ele. Assim que desbloqueio o aparelho e observo o touch, sinto meu coração voltar a bombear o sangue para as áreas de meu corpo, não era Gilbert, era Jerry, pedindo para me seguir. — Bonjour Anne — o sotaque francês soa por detrás de mim e viro-me para encará-lo. — Bonjour Jerry — respondo. — Lindo celular — ele elogia — vermelho para combinar com seus cabelos? — Meu cabelos não são "vermelhos" — solto — são alaranjados — tento explicar. — Calma, eu só quis fazer um elogio. — Gilbert jamais me perdoará — falo com tristeza — eu o insultei e ainda por cima o agredi — conto mais do que devia. — Por que fez isso? Encaro Jerry e por um momento me lembro de que ele, não sabia da história. Belisco o pão e percebo que ingeri-lo com o nariz machucado é difícil para controlar a respiração. — Nada — respondo — eu estava um pouco alterada com algumas situações. — Lembre-me de nunca deixá-la alterada então — ele caçoa — não quero ser agredido muito menos ofendido por uma garota alterada. — Vamos — o puxo — está na hora de irmos. Diana já estava a nossa espera, ela vestia preto, e seu tênis azul dava um destaque em sua roupa gótica. Sua maquiagem era um pouco mais forte que a minha, e nessa manhã ela havia delineado o contorno dos olhos, realçando ainda mais suas orbes verdes. — Bonjour Diana — Jerry me interrompeu. Ela sorriu para ele e logo em seguida eu consegui cumprimenta-la. Seguimos parte do caminho em silêncio, até chegarmos uma rua antes de Ruby, logo que cruzamos a esquina Diana cheia de preocupação falou: — Eu fiquei tão devastada quando soube que você tinha se ferido. Jerry me encara e depois de sua total indiscrição olha para o lado oposto para disfarçar. — Sim, foi um baque forte — falo. — Eu acho que você me esconde algo — Diana me olha como se estivesse pronta para ler minha mente e arrancar a verdade. — Foi Billy Andrews — Jerry confessa. — Jerry! — o repreendo. — Por que não quis me contar Anne? — Diana aparentemente está decepcionada com a omissão — você sabe que eu sempre ficarei ao seu lado. — Eu não quero que as pessoas saibam que eu estou sendo ameaçada por ele — digo — também não quero que ele veja que está me atingindo caso eu conte para vocês. — Você não pode ficar sozinha com aquele ser humano irracional. — Se Cole não tivesse aparecido para tirá-lo — falo sentindo a pressão percorrer por minha nuca — ele teria feito muito pior. — Ele é o ser humano mais deprezível e baixo que conheço. Assim que viramos a rua de Ruby peço para que aquele assunto não se estenda mais. Nem mesmo, o assunto de que dois dias atrás eu estive com Gilbert Blythe no parque tomando banho de chuva e o beijando enquanto uma linda e verde e perfeita e inesquecível árvore cheia de folhas fazia o seu doce papel de guarda chuva. — Está pior do que imaginava — diz Ruby assim que encara meu nariz com um curativo em cima e sua aparência mais inchada. Ela ao contrário, esbanjava sua doçura e beleza, com uma calça jeans flare rosa e uma blusa de pelinhos brancas, e seu belos e cheios cabelos dourados escorridos até a cintura; pergunto-me como um garoto como Gilbert não consegue vê-la como algo a mais? É um tanto curioso até. Seguimos para o colégio. . . . O armário não era mais o mesmo sem Gilbert. Dessa vez estava vazio, sem roda de amigos, sem popularidade, sem alguém puxando assunto comigo. Desvio os olhos em busca de Billy, e para minha sorte o garoto não estava lá, entretanto Josie Pie vem até mim como um gafanhoto feroz, a encaro, e sua expressão é ameaçadora. — Você está h******l — ela zomba — nada diferente do que já é. — Saia daí Josie — Ruby chega com Diana. — Ah pobre Ruby, dispensada por uma vira-lata. Diana troca olhares comigo, como se algo catastrófico estivesse prestes a acontecer. — Não seja uma c****a Josie — Ruby diz com desprezo, ainda me defendendo o que faz com que eu me sinta h******l, pois eu fui aquela típica amiga que a apunhalou pelas costas mesmo sabendo de seu amor doentio por Gilbert. — Você não sabe? — a loira cheia de aspereza prossegue enquanto desenha os cachos de Ruby com seu indicador — deveria se atentar para as companhias — seus olhos deslizam sobre mim e a loira se retira com sua perfeita marcha. As bochechas de Ruby estão vermelhas a ponto de fazê-la explodir. Seria engraçado, imagina ela explodindo e ao invés de jorrar sangue, o resultado ser diversas flores flutuando no ar como se não existisse mais gravidade alguma, resultados de sua doçura e delicadeza, sem contar sua enorme sensibilidade. — Digam a verdade — ela intercala o olhar entre mim e Diana — vocês sabem que não podem esconder de mim, se Josie e Billy sabem, a escola inteira saberá em breve. — Eu beijei Gilbert Blythe. A garota saiul aos prantos com passos rápidos cortando a barreira em que eu e Diana fazíamos em sua frente. — Vamos atrás dela — Diana diz. Corremos atrás de Ruby e a encontramos debruçada sobre o vaso sanitário fechado, derrubando suas lágrimas de decepção. — Nunca foi para atingi-la Ruby, aconteceu. — digo tentando conforta-la. — Eu disse desde o começo que eu era apaixonada por ele — ela retrucou — você é a pior das amigas Anne — ela seca as lágrimas enquanto enrola os cachos em um nó e caminha em direção à pia. Ela abre a torneira e molha o rosto. — Não venha atrás de mim, não me siga, não me diga que não queria porque eu sei que você queria. — De certo então — falo de imediato — talvez eu sinta algo a mais por ele e não acho que deva esconder de você, eu me sinto h******l por isso Ruby, lhe digo com sinceridade, mas eu não pude evitar e negar o inevitável. — Anne está sendo sincera com você Ruby. — Diana interfere — e já lhe disse que se arrepende por isso. — Não é suficiente — ela torna a chorar — você traiu minha confiança. — Nunca foi e jamais será a minha intenção machucá-la Ruby, eu só queria que você soubesse que eu não imaginava que isso ia acontecer. — Você acabou de dizer que era inevitável Anne! — ela exclama com raiva — como não sabia que ia acontecer? — Foi uma atitude impensada— digo agora tentando manter a calma — e logo depois disso eu lhe dei um chute e disse para ele nunca mais se aproximar de mim. — E ainda por cima você o feriu? — ela grita — você é pior do que eu imaginei. — Pensei que ficaria feliz em saber que Gilbert jamais vai querer se aproximar de mim. Seu rosto clareia e seus olhos já estão sem lágrimas. — Realmente — ela sorri — eu não pensei que isso seria tão favorável. Está certo Anne eu a perdoo, e perdoo ele também, pobre Gilbert. Diana morde o lábio inferior enquanto claramente reproduz as palavras em sua mente e entende que é um insulto a mim. — Está certo então, problema resolvido? — estendo a mão para ela. — Sim, problema resolvido. . . .
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