Não sei ao certo como me portar perto dele, ao mesmo tempo que gostaria de me mostrar uma mulher adulta e decidida, meus gestos e sorrisos frouxos me trouxeram a tona aquele sentimento infantil da época em que nós nos conhecemos.
- Me conte sobre você, suas novas aspirações? - Ele sorriu enquanto proferia as palavras que me faziam divagar.
- Bom, tudo continua da mesma maneira. Sou uma aspirante a empresária. As meninas seguiram carreiras distintas e longes desse meio empresarial. E nos meus tempos vagos, sou a viúva dona de um estabelecimento requintado. - Rimos.
- Você tem boas companhias na Secret, eu notei que aparentemente não sou o único que sabe coisas pessoais de você!
- As meninas são uns amores, tenho elas como primas ou até irmãs, sempre nos ajudamos muito, e elas sabem dos meus segredos.
- Você acha que elas são confiáveis?
- Sim, você por acaso é algum detetive? Ou só continua muito curioso? - O encarei com sorriso.
- É, eu acho que não mudei muito... - Sorriu.
Papo vai e vem, ainda era um mistério. Ele me contou sobre seus curtos romances e sobre o poder que seu pai exercia sobre o futuro que viria, assim como o meu, obviamente de maneira respeitosa e preocupada. O amor paterno! Permeado entre interesse e laços.
- E como vão seus irmãos?
Eu achava engraçado que eu era a caçula de 3 irmãs, e ele o do meio de 3 irmãos. Se juntasse tudo, todos poderiam se casar... Ou não, viajei.
- Estão bem, até! O mais novo se casou e teve um filho muito inteligente, o que é engraçado, deve ter puxado a mamãe. - Riu m*****o.
- E o Jack? - O irmão mais velho.
- Viajando, como se não houvesse um amanhã. Continua o mesmo mulherengo e despreocupado de sempre! - Ele sentia inveja da liberdade de Jack, desde pequenos eram como cão e gato, mas daqueles inseparáveis.
- Sente falta dele?
- As vezes sinto, e ligo só pra espairecer, quando nosso pai está sendo teimoso demais.
- Queria que minhas irmãs fossem mais unidas a esse ponto, mas elas não dão muita bola pra ele, só gostam de me torturar com perguntas de casamento, filhos e casa.
- Falando em casa, quando vou conhecer a mansão dark? - Ele riu.
- Podemos ir até lá se você quiser, mas só amanhã porque não sei nem o que estou fazendo acordada ainda. Tenho reuniões importantes essa semana, sobre a empresa. - Alisei meu rosto preocupada.
- Nem me fale, mas saiba de uma coisa, vamos nos ver muito daqui para frente! - Ele me abraçou, quentinho.
- Mais uma promessa? - Sorri.
- Claro! Eu gosto de fazer promessas que me motivam de maneira construtiva! - Piscou.
- Bom, vamos terminar essa taça de vinho, preciso ir para casa! - A voz de desespero.
- Está certo, vamos nessa!
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Após nosso breve encontro, era como se as coisas começam a ter sentido de novo. Me vi entrando em um conflito interno. O meu amor estava de volta, lindo como sempre, porém, com um contrato de casamento arranjado, o que me deixava ansiosa. Meus sentimentos adormecidos me ardiam a face, e não ter ele por perto me deixava estranha, como se tudo fosse voltar a ser monótono. Até a Secret que era o meu cantinho, agora, estava mais divertida, pois era ali que eu o encontraria.
Tomei outro banho ao chegar em casa e me deitei com um sorriso no rosto, borboletas no estômago e um aperto desesperador no coração, quase que uma crise de ansiedade me dominava. Peguei um chocolate na gaveta da cômoda e comi, aquilo era tranquilizador, deixei meus pensamentos tranquilos e coloquei um mantra para me desviar dos conflitos internos.
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Era uma manhã conturbada, tomei café com meu pai que já se apresentava com uma enorme lista de apresentações e reuniões da semana, só Deus sabe o quão controlada eu era, pois o senhor só despejava informações em cima de mim e planilhas e agendas, e eu já estava tão acostumada que não deixava passar nada.
- Papai, precisamos ir, falta menos de uma hora para a primeira reunião. Tesla! - Sorri ansiosa.
- Está bem, acho que passamos muito tempo tentando se organizar. Queria poder mandar outras pessoas em nossos lugares. - Ele riu.
- Se quer algo bem feito...
- Faça você mesmo!
- Vamos!
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Chegamos na empresa que já estava bem cheia de correria e pessoas desesperadas, hoje haviam novas seleções de estagiários, eu não era muito fã dessas semanas, pois alguns estagiários podiam exagerar na demonstração de afeto, e eu tinha pavor disso. Eu sabia que todos tinham o seu valor, até chegar ao treinamento, eles passaram por seleções muito rigorosas, não era como se fossem cometer erros de mais.
Também me fez lembrar que talvez a Secret precisasse de mais garçons. O lugar estava crescendo muito, e o atendimento excelente era primordial, dentro de um cassino.
Seguranças a mais, e eu precisaria receber Phillipe da melhor forma possível quando o naipe batesse em sua porta.
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- Você parece preocupada! - Uma voz familiar ecoou meu escritório que estava mergulhado em contratos atrasados, que já chegaram até mim daquela maneira.
- Bom ... - Era Paul, o que eu jamais esperaria.
- Desculpe te atrapalhar! - Sorriu.
- Como posso te ajudar? - Meu sorriso era enorme e constrangedor.
- Bom, você está pulando o almoço novamente, já é a terceira vez essa semana. Então, vim convida-la a se juntar a mim! - Sorriu, parado na porta com seu lindo terno.
- Olha, eu acho que posso te acompanhar sim! - Me levantei, peguei minha bolsa e o segui.
- Você está tão elegante para passar o dia escondida. E não tem como admira-la se nem aos almoços você comparece. - Riu.
- Finalmente os novos estagiários vão começar, já não aguento mais a bagunça do RH me trazendo tantos projetos e pedidos atrasados. Sem contar erros grotescos nos contratos. - Bufei.
- Eu entendo, o financeiro está bem atrapalhado, acho que o Lincon não está mais dando conta. - Riu.
- Faz sentido, acho que vou ter que tomar conta disso também, já que o RH não me informa mais nada.
- Vamos mudar de assunto, antes que você volte correndo ao seu escritório!
- Acho que seria bom não pensar nisso por algum tempo...
Adentramos o seu carro um tanto discreto, ele quis me levar a um restaurante diferente que ficava mais ao centro.
Ao descer do carro e me aproximar, ele segurou minha bolsa, não sei bem o motivo, mas foi como quando namoramos, anos atrás.
- Você continua muito gentil.
- É força do hábito, sem contar que senti falta de andar com sua bolsa. Elas custam quase o valor do meu carro. Eu acho muito elegante. - Rimos.
- Você conseguiu fazer uma reserva aqui? É tão complicado.
- Na verdade tem dois meses, eu não sabia se você iria querer, mas eu ficaria bem triste se dissesse que não. - Corou.
- Você deu sorte de eu estar na empresa hoje e bem no horário do almoço. - Pisquei.
- É por aqui! - Ele me guiou enquanto também seguia o garçom.
Ao sentarmo-nos a mesa, logo ao lado, ouvi a voz de Deshi.
Olhei ao redor e o vi me encarando com um sorriso no rosto. Acenou para mim e mandou um beijinho com a mão. Eu fiquei envergonhada no mesmo instante.
- Quem é? - A voz de Paul soou incomodada.
- Hum, aquele é o Deshi Wang. - Sorri.
- Seu melhor amigo da infância? - Eu havia contado sobre ele, mas não as circunstâncias as quais nós nos conhecemos.
- Esse mesmo!
- Ele parece agradável. - Sorriu tímido.
- Ele é... - Eu estava me esforçando para não demonstrar o quão feliz eu havia ficado em ver aquele rostinho.
- Bom, vamos pedir?
- Sim...
Enquanto esperávamos e conversávamos, eu senti o olhar de Deshi me queimando ao longe. Era realmente constrangedor estar próxima aos meus grandes amores, e eu ficava tendo batalhas mentais de ambos, o primeiro amor da minha vida e o último, tão pertos e ao mesmo tempo tão distantes.
Como eu consegui perder tanto assim?
Era frustrante pensar nisso.
- Posso me juntar por um instante? - A voz de Deshi dominou meus pensamentos.
- É claro! - Paul respondeu, e eu tive certeza de que não estava alucinando.
- Muito prazer, eu sou Wang, Deshi Wang! - Sorriu apertando a mão de Paul.
- Muito prazer, eu sou Paul! - Ele
retribuiu o aperto de mãos.
- Vou ficar pouco tempo, tenho uma reunião de negócios, possivelmente com o pai da minha noiva que vou conhecer hoje! - Falou, aparentemente, tentando me perturbar.
- Espero que dê tudo certo, hoje em dia casamentos arranjados são meio estressantes para quem sonha com o amor verdadeiro. - Falei meio romântica e me arrependi por muitos instantes.
- Esse não é seu caso, né Olga? - Paul riu.
- Como assim? - Deshi cutucou.
- Eu era o amor da vida dela, e até hoje não sei porque ela me deixou! - Botou as mãos juntas em cima da mesa, me encarando com um sorriso malicioso.
- Esse não é o momento para um assunto tão delicado! - O olhei constrangida.
- Talvez ela ainda goste do primeiro amor dela... - Deshi se esticou no banco de couro.
- Você nunca me falou quem foi seu primeiro amor! - Paul questionou.
- Vocês estão sendo infantis! - Falei dando um gole na água.
- Bom, eu vou deixar vocês conversando, o garçom me deu um aviso de que meu convidado secreto chegou. - Deshi se levantou rápido, abotoando o colarinho que estava aberto.
- Boa sorte, Wang! - Falei procurando pelo seu encontro secreto.
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Wang foi caminhando para o salão particular, e ao longe, após alguns minutos, meu pai adentrou o restaurante, e no momento em que ele iria me olhar, ergui a mão, e então ele se virou para o garçom e o acompanhou, justamente para o mesmo corredor em que Wang adentrou.
- O que será que seu pai faz aqui? - Paul questionou meio perplexo.
- Você, viu onde ele entrou?
- Acho que é coincidência!
- Eu vou até lá, preciso confirmar isso!
- Calma, Olga! Você não vai conseguir entrar, esse lugar é justamente difícil de reservar por isso. A segurança é impecável! - Ele riu sem graça.
- Bom, se tiver alguma relação, você descobrirá em breve...
Eu não sabia o que sentir, estava ansiosa e... Feliz?!