Pré-visualização gratuita Renascimento
Bianca Costello
Gostaria que fosse apenas uma página em branco na minha vida prestes a ser reescrita, mas no momento em que abro os olhos encontrando o teto mofado contra o colchão sujo em um apartamento pobre, sei que os planos mudaram novamente e ao contrário de reescrever um novo futuro estamos todos em busca de destruir cada rei, bispo, torre e cavalos envolvidos no nosso passado, como em um jogo de xadrez nos movimentamos de maneira silenciosa para que ninguém percebesse como peões são capazes de dar um xeque-mate na partida.
Quando penso em uma rainha para ser abatida nesse jogo, abro um sorriso perverso relembrando o destino sombrio dado a ela. Donatella não deveria ter subestimado o impacto de palavras sombrias para crianças nascidas da mais pura maldade.
Sorrio comigo mesma finalmente girando o olhar para o lado, encontrando um corpo musculoso deitado no chão de maneira descuidada, franzo o cenho sem entender o motivo que tenha feito os rapazes mudarem de ideia.
Os fios loiros e as roupas de grife amarrotadas, suas costas largas demais a extensão do corpo demonstrando que em pé deve fazer com que pareça a smurffete pequena criatura feliz, bondosa e amável dos filmes infantis, abro um sorriso de lado mordendo o lábio. Estou prestes a avançar o sinal para tocar seu corpo quando sinto o movimento ao meu lado, viro o rosto encontrando um completamente idêntico ao meu.
Beatrice está deitada de lado, os fios loiros caindo por cima da testa, afasto com carinho colocando a mecha atrás da orelha exibindo melhor o belo rosto, ficando pasma diante da quantidade de machucados, o sangue ainda fresco em um machucado próximo ao encontro da testa com o cabelo.
Sinto as lágrimas querendo queimar as minhas pálpebras, preciso erguer a ponta do dedo até o canto do olho, para finalmente acreditar estar derramando lágrimas verdadeiras, acreditava que há muito tempo meu corpo tinha desaprendido a faze-lo, mas Beatrice sempre foi a minha parte mais forte e mais fraca.
Como um conjunto de yin-yang se completando mesmo quando desejávamos apenas suprir com as dores uma da outra ou proteger, jamais conseguimos desmanchar ou quebrar essa união das nossas almas.
— Ela vai se recuperar.
Viro o rosto em direção a voz grave, encontrando uma floresta densa de tão verde em sua íris, a mandíbula quadrada bem marcada fazendo o pescoço grosso se tornar atraente, como alguém tem o pescoço atraente?
Volto o olhar para a o nariz reto como se nunca houvesse sido quebrado, o que é um verdadeiro engano considerando que faz parte da máfia, esse pensamento faz a minha coluna se arquear enquanto a máscara retorna de maneira fácil ao rosto usando o choro verdadeiro para se aprofundar numa melancolia.
— Desculpe, mas não o conheço. — Murmuro como se estivesse envergonhada.
Ele abre um sorriso de canto erguendo a mão e coçando a nuca ao dar de ombros.
— Não se preocupe, não esperava que se lembrasse de mim. — Ele ergue o olhar fazendo um lapso de memória voltar, mas continuo calada quando continua. — Me chamo Frank Ricci, fui soldado de Stefano Sartori.
Finjo contorcer o rosto, atingindo o alvo quando ele se abaixa apoiando as mãos no colchão querendo construir um elo de confiança como se estivesse falando com uma criança.
— Devo a vida a sua irmã e irei protege-las com a minha se preciso for.
Admiro os olhos verdes brilhando em determinação, enquanto mantenho a tristeza no olhar para continuar fingindo quando na verdade desejo abrir um sorriso predatório para o homem que nem imagina o quanto será consumido.
— Ela é muito mais importante, ficarei imensamente grata se puder protege-la.
A melhor mentira sempre é envolvida por traços da verdade e esse é o único sentimento real que permito o mundo ver, o meu amor pelos meus irmãos.
—Protegerei as duas. — Afirma com a voz grave, fazendo os meus pelos se arrepiarem.
Sabe a necessidade em reescrever tudo? É nesse momento que Frank Ricci me faz perceber que não posso apagar quem sou, porquê o pequeno animal voraz acaba de declarar que tem um novo objetivo.
E idêntica a minha irmã, não jogo para perder.
Beatrice é muito mais que minha irmã gêmea, ela é o meu reflexo como um espelho vivo dos meus atos, erros e vitórias. O maior problema disso é que as vezes nossa maior dor não é física, mas psicológica pois ao olhar o próprio reflexo no espelho só nós mesmos conseguimos encontrar as rachaduras.
Ergo o corpo com calma, em movimentos praticados por anos, como a bela princesa da qual fui criada para atender os requisitos da máfia Italiana. Perfeita como uma boneca, elegante como a realeza, obediente como um cão e acima de tudo cega para a maldade que nos rodeia.
Deito um pouco a cabeça de lado, gostando da atenção do homem, suspiro cruzando as mãos sobre as coxas como se a inocência fosse algo inato da minha alma. Quando na realidade existe algo sombrio e doentio forjado para viver embaixo de cada vestido de grife, domesticado para andar sobre saltos de quinze centímetros é ele que usa a minha voz para falar:
— Serei imensamente grata, por toda a sua ajuda Senhor Ricci, lhe deverei a minha alma se puder ajudar a mim e minha irmã. — Pisco lentamente.
Os olhos verdes são tomados por um carinho fácil, é sempre assim quando encontramos um filhote abandonado na rua, olhos grandes pedintes e uma cara triste. Ele leva a mão aos fios loiros deixando tudo ainda mais bagunçado, cruzo as pernas de maneira elegante para conter o t***o que sinto.
Quanto maior o perigo, maior a adrenalina e o t***o, Frank Ricci exala os dois, um caçador vestido em um terno de grife para atender os pedidos do antigo patrão. Contenho a vontade de revirar os olhos, quanto mais adestrado maior a fúria que deve guardar por dentro para liberar em seus inimigos.
Ele não imagina que acabou de encontrar sua maior inimiga, uma que está pronta para quebrar todos os seus conceitos e morais de vida até se curvar rendido para suprir as minhas necessidades.
—Não precisa me chamar de Senhor, estamos no mesmo barco. — Seu sorriso de canto, buscando criar uma familiaridade chega a ser fofo.
— Então é um prazer conhece-lo Frank Ricci. — Digo estendendo a mão.
Como um mafioso de berço e bem educado, o homem segura a minha mão entre os dedos erguendo para dar um beijo leve, arqueio de leve os lábios ao notar que fecha os olhos sentindo o perfume da minha pele.
É aqui que a mulher insana contida dentro de mim se regozija por inteiro, Frank Ricci será o primeiro a ser meu, nessa nova vida.