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1142 Palavras
Katarina Alexander Parada na frente do espelho pequeno, manchado pelo vapor da água, ergo o antebraço limpando, buscando deixar nítida a imagem da mulher de fios escuros com mechas rosas escapando pela nuca e caindo por sob os ombros, os lábios avermelhados e as bochechas rosadas. Olhos escuros tão vazios quanto a alma marcada, por lembranças das quais busco todas as noites fingir que não existem até reaparecem de maneira irritante, em pesadelos dos quais não consigo fugir ou fingir que não existem. Isso vem quebrando a máscara da princesa perfeita moldada para servir, ser parte da realeza traz um único benefício: Dinheiro, com ele é possível comprar até mesmo o poder. No meu caso e dos meus irmãos compramos a nossa liberdade sem dar importância as consequências. Inspiro profundamente buscando recompor a rachadura, estalando os dois lados do pescoço antes de finalmente vestir o maldito vestido comportado descendo pelo b***o até ficar rodado na cintura com um babado que faz alcançar os joelhos. Observo as minhas unhas sem nenhum esmalte, algumas semanas atrás somente esse pequeno detalhe causaria uma crise existencial fingida para as outras esposas da máfia. Hoje, reviro os olhos e calço a sapatilha simples que remete a uma moça recatada com poucas condições financeiras. Mais um personagem, mais um dia, mais um sorriso para o espelho retocando qualquer rachadura que possa destruir os nossos planos. Saio de dentro do banheiro encontrando Beatrice sentada na beirada da cama, seu olhar vagando para o prédio ao lado, ela sabe que pertence a Hunter. Nossos irmãos tem uma estranha mania de tentar esconder seus deslizes quando sabemos de cada um deles. Talvez seja a maneira deles em buscar proteger qualquer resquício de inocência dentro de nós duas, o problema? Nós nunca fomos princesas inocentes que esperavam ser salvas. —Algo naquela mulher...— Ela suspira sabendo da minha presença as suas costas, acompanho seu olhar para a cobertura do prédio ao lado. — Talvez precise mudar os planos outra vez. — É a primeira vez que ele dá trabalho, deixe que se divirta um pouco mais. — Pode ser, mas existe algo... — Também sinto o incomodo, posso verificar. — Faça isso, não quero passos em falso quando estamos tão perto do território de Enrico. Encontro seu olhar escuro refletindo as mesmas preocupações que os meus, uma conexão única da qual partilhamos desde o ventre. — Gosta do motoqueiro? — Já me viu gostar de alguém? — Uma vez e lembro bem das consequências. Beatrice remexe os ombros incomodada com a lembrança, por mais que o passado bata sempre a porta, nós duas aprendemos a lidar com as dificuldades em sermos peças dentro da máfia como boas parideiras e mulheres perfeitas para exposição de status. — Irei encontrar com Dragon. — Sua fala parece mais como uma confissão de culpa. — Ele é gostoso. — Você tem uma certa fraqueza por paus, irmãzinha. Ela abre um sorriso de lado antes de se levantar com suas calças jeans sem a menor pretensão de fingir, depois de tudo, Diana Alexander pode exibir sua verdadeira face como uma mulher sem nenhum impedimento enquanto, ainda estou lutando em busca de manter a fachada. — Quer compartilhar? — Questiono por curiosidade. Seu olhar se transforma por um único segundo se enchendo de fúria, a reconheço o suficiente para entender que vê o homem como uma posse e não como um futuro. — Não, continue atrás do seu. — Ela faz uma parada nas minhas costas. — Talvez seja o momento de se livrar desse enfeite na sua cara, as rachaduras estão cada vez mais aparentes. Puxo o ar com força sabendo bem que seu alerta é verdadeiro, as últimas semanas foram intensas e os pesadelos se tornaram cada vez mais constantes, sei que fala preocupada com o meu bem-estar mas isso não impede a raiva escapando pelas minhas palavras. — Cuide da sua própria guerra que lidarei com a minha. Escuto o bufar junto com o som dos seus passos na direção da porta. — A diferença irmã é que a sua guerra é contra si mesma e nós somos o reflexo uma da outra. Fecho os punhos e o som da porta batendo faz o ar voltar aos meus pulmões, os dentes doendo pelo aperto forte no maxilar. Beatrice tem essa mania irritante de jogar na minha cara coisas das quais não preciso ouvir, principalmente quando a mente conturbada repercute a cada dez minutos como um mantra do inferno. O caos fazendo a ansiedade quase, quase explodir contra as muralhas que revestem meu coração. Passo as mãos nos fios abrindo um sorriso falso do qual todos acreditam ser real, as vezes mentiras repetidas se tornam verdades dentro da nossa mente, mesmo que o pecado continue marcado na alma para toda a eternidade. Encontro com ele sentado no sofá comendo pipoca com um filme ridículo de ação com o Jason Statham passando em um canal aleatório. — Para quem viveu a vida inteira no meio do caos, esse filme parece fichinha. Caminho na sua direção atraindo o olhar para as minhas panturrilhas e pés, sempre pego a minha mente caminhando nesse sentido imaginando se é um fetiche. — Pelo menos no final eles conseguem o que querem. Nessa pequena frase compreendo que não é o Theo Cross respondendo, mas o antigo soldado da Cosa Nostra, Frank Mangiapane, uma vez questionei Beatrice, qual motivo levar o homem a entregar sua lealdade sem nada em troca, a maldita como sempre disse que era um segredo, mas, ela sabia que iria descobrir de uma maneira ou de outra. Algo que apenas, tornou a caçada mais interessante. — E o que um soldado da máfia não consegue? — Ergo a sobrancelha sabendo a resposta mesmo que desvie o olhar de volta para a tela. — O dinheiro do capo. Solto uma risada falsa para a mentira, nenhum bom soldado desejaria ter o dinheiro do próprio capo, sua lealdade e vida valem mais do que isso. — Pensei que fosse um soldado leal. — Respondo observando de esguelha a maneira como está encarando o meu sorriso falso, enfio a mão no balde pegando pipoca. — Estou ao lado da sua irmã, não sei como mudar de lado pode ser lealdade com o capo. Dou de ombros finalmente querendo dizer uma verdade que escapa por entre os meus lábios. — Seguir o que acredita é uma prova de lealdade consigo mesmo. Ele vira de lado colocando o joelho em cima do sofá, sinto aquela leve fisgada no baixo ventre com o olhar verde nas minhas bochechas, deito o rosto contra o apoio, virando de lado para encara-lo. — Talvez deva mesmo seguir o que tanto desejo. — Deveria. — Respondo com um sorriso de lado. Aos poucos, Frank segue pelo caminho que desejo e outra vez nesse jogo sou uma jogadora experiente.
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